A obesidade é uma condição crônica multifatorial associada a alterações metabólicas, inflamatórias e nutricionais. Nos últimos anos, terapias baseadas em agonistas do receptor de GLP-1 e agonistas duplos têm se consolidado como estratégias eficazes para o manejo do peso corporal, promovendo perda ponderal significativa.
Essa evolução no tratamento é muito importante, pois exerce grande impacto na saúde pública. No entanto, apesar dos benefícios clínicos, essas terapias exercem mudanças no estadonutricional que precisam ser consideradas com atenção, como o risco de deficiências de micronutrientes.
Do ponto de vista fisiopatológico, a obesidade pode cursar com inadequações nutricionais, mas o tratamento com GLP-1 potencializaessecenário ao reduzir o apetite, aumentar a saciedade e retardar o esvaziamento gástrico, promovendo redução significativa da ingestão energética diária.
Estima-se que com a medicação há redução da ingestão calórica em até 20–30%, impactando diretamente a ingestão de micronutrientes. Além disso, eventosadversos gastrointestinais, como náuseas e vômitos, relatados em até 20–40% dos pacientes, podem comprometer ainda mais o consumo alimentar.
Metodologia
O artigo em questão é uma revisão que sintetizou evidências publicadas entre 2010 e 2026 sobre o impacto das terapias incretínicas no estado nutricional de indivíduos com obesidade. Foram incluídos ensaios clínicos, estudos observacionais e análises de farmacovigilância que avaliaram ingestão alimentar, marcadores bioquímicos e desfechos clínicos relacionados a deficiências de micronutrientes em pacientes em uso de agonistas de GLP-1.
Resultados e Discussão
Dados de farmacovigilância e estudos observacionais mostram que até 22,4% dos pacientes apresentam diagnósticos relacionados a deficiências nutricionais cerca de 12 meses após o tratamento. Entre as alteraçõesmaisfrequentes estão deficiências vitamínicas, anemia por deficiência de ferro e distúrbios hidroeletrolíticos.
Estudos de ingestão alimentar demonstram inadequação frequente no consumo de cálcio, ferro, magnésio e potássio, além de vitaminas A, D, E e K. Em alguns estudos, a ingestãoproteica diária ficou abaixo das recomendações em mais de 30% dos pacientes, enquanto a ingestão de fibras permaneceu inferior ao recomendado ao longo do tratamento.
Além da ingestão reduzida, alterações fisiológicas podem contribuir para esse cenário. Evidências indicam redução significativa na absorção de ferro após o uso de semaglutida, com impacto em marcadores como ferritina e hemoglobina.
Eventos adversos gastrointestinais persistentes também contribuem para menor ingestão alimentar. Em casos mais graves, foram descritas complicações como deficiência de tiamina, evidenciando que o impacto pode ultrapassar alterações subclínicas e alcançar relevância clínica.
Limitações
Há predominância de estudos observacionais, heterogeneidademetodológica e ausência de padronização na avaliação de micronutrientes. Além disso, muitos estudos não consideram o estado nutricional basal, além da escassez de ensaios clínicos randomizados com foco em desfechos nutricionais.
Conclusão
As terapias com GLP-1 representam um avanço no tratamento da obesidade, promovendo uma perda de peso consistente e clinicamente significativa. No entanto, o tratamento está associado a um riscoaumentado de inadequações e deficiências nutricionais. A incorporação de monitoramento nutricional sistemático e estratégias dietéticas individualizadas é essencial para garantir a segurança e a efetividade do tratamento a longo prazo.
A campanha Abril Azul visa conceder mais atenção ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), conhecido também como autismo. Por essa condição atingir várias áreas da vida, a abordagem terapêutica deve sermultiprofissional. Desde 2012 há direito estabelecido por lei para atenção nutricional adequada, assim como acesso à terapia nutricional (1, 2).
No transtorno do espectro autista (TEA) há alterações do desenvolvimento neurológico. Não há características físicas ou comportamentais únicas, e sim uma série de condições atípicas em cada caso, por isso o diagnóstico e tratamento podem ser tão complexos (3).
Em casos de TEA existem alterações no consumo alimentar, incluindo seletividade alimentar e risco de deficiências de micronutrientes. Dessa forma, a análise do estadonutricional é essencial para o tratamento, pois também impacta no funcionamento neurológico.
Uma meta-análise recente, que incluiu 32 estudos e mais de 18 mil participantes, demonstrou que essa população apresenta menoringestão de proteínas, cálcio, vitaminas lipossolúveis (como A, D e K) e hidrossolúveis (como folato, tiamina, riboflavina e niacina).
Também foi observado que crianças com TEA tendem a apresentar menorestaturaemcomparação com crianças com desenvolvimento típico, possivelmente relacionada a inadequações nutricionais. Esses achados reforçam a relevância da avaliação nutricional precoce e contínua nessa população (8).
Quais os principais pontos de atenção nutricional?
Alimentação seletiva: é comum ocorrer aversão a certos alimentos, ou restrições por intolerância/alergia, ocasionando no baixo consumo de fibras, ômega 3, ferro, cálcio, zinco, cobre e vitaminas D, A, e C. O menor consumo de vitaminas e minerais pode que pode impactar no crescimento, função cognitiva e metabolismo energético (4);
Estado nutricional e suplementação: exames bioquímicos devem ser monitorados para avaliar a necessidade de suplementação vitamínica. Existe maior potencial de estresse oxidativo e capacidade reduzida de transporte de energia, por isso há necessidade diferenciada de micronutrientes (4);
Educação alimentar: há frequente eletividade/aversão para cores, texturas, cheiros, temperatura, sabor e modos de preparo dos alimentos. Esse cenário interfere no consumo alimentar, por isso deve acontecer uma orientação cautelosa com os responsáveis e estratégias criativas com os pacientes para aumentar o repertório alimentar (4);
Estratégias nutricionais: uso de aminoácidos como cisteína e metionina, além de ácido fólico, vitamina B6 e B12, pois são nutrientes essenciais para a síntese de glutationa (GSH) e de S-adenosilmetionina (SAM). Esses compostos estão relacionados à regulação do estresse oxidativo, metilação e função neurológica (4);
Alterações gastrointestinais: há maior recorrência de refluxo, dor abdominal, diarreia, constipação e alterações de permeabilidade na microbiota intestinal. Por isso, há benefício do uso de probióticos melhora dos sintomas e modulação de substâncias como serotonina, melatonina e acetilcolina (5,6);
Evitar falas/atitudes capacitistas: quando há pouco conhecimento sobre a condição apresentada, falas ou atitudes podem expressar a ideia de que pessoas com autismo são incapazes. Uma abordagem centrada na pessoa, respeitando suas individualidades, é essencial para um cuidado ético e efetivo (7).
A seguir, para complementar as pesquisas e estudos, indicações de artigos científicos:
A Review of the Nutritional Approach and the Role of Dietary Components in Children with Autism Spectrum Disorders in Light of the Latest Scientific Research, 2023: https://www.mdpi.com/2072-6643/15/23/4852
A glutamina é um aminoácido não essencial, naturalmente presente em nosso organismo, sendo inclusive o mais abundante (1). É comercializado e consumido na forma de peptídeos de glutamina, obtidos por diferentes métodos, a depender da funcionalidade desejada. Quando obtidos por hidrólise enzimática não oferecem risco de reações adversas ao organismo (2).
Em algumas doenças, células do sistema imunológico e órgãos como intestino e rins utilizam quantidades maiselevadas de glutamina, que superam a produção endógena, reduzindo os níveis plasmáticos e musculares para suprir tal demanda. Por isso que esse aminoácido também é classificado como condicionalmente essencial (1).
Há anos o papel da suplementação de glutamina para a imunidade e no contexto oncológico são estudados. Depois, pesquisas passaram a avaliar o mecanismo de ação no trato gastrointestinal; visto que o intestino está entre os tecidos de maiorconsumo, utilizando cerca de 30% da glutamina corporal total (1).
Associação com saúde intestinal:
A barreira intestinal é uma estrutura complexa, responsável por regular a troca de substâncias entre o meio externo e o organismo. Quando há comprometimento de sua integridade, ocorre prejuízo na digestão e absorção de nutrientes, redução da defesa contra patógenos e maior risco de doenças sistêmicas (2).
Diversas evidências indicam que a glutamina modula a expressão estruturas conhecidas como tight junctions. A manutenção da permeabilidade intestinal é especialmente relevante em condições como doença de Crohn e doença celíaca (1).
Além de auxiliar na integridade da barreira intestinal, estudos também indicam inibir a ativação de NF-κB e STAT, reduzir a expressão da enzima iNOS e de citocinas inflamatórias, como IL-6, TNF-α e IL-8 (1).
A glutamina também atua como principal fonte deenergia para os enterócitos e modula vias celulares de reparo endotelial. Com tantos benefícios, fica evidente o papel da glutamina na preservação da integridade estrutural e funcional do intestino, especialmente em condições fisiológicas e patológicas (2).
Evidentemente, dietas ricas em fibras e nutrientes específicos também se associam à manutenção da barreira intestinal. Como suplemento, a glutamina atua como combustível primário para enterócitos e células imunes, como leucócitos e linfócitos T. Entretanto, ainda existem inconsistências nos resultados apresentados a depender da dose e população estudada (3).
Estudos em humanos sugerem que suplementações por períodos inferiores a duassemanas, mas com doses superiores a 30 mg/dia, apresentam efeito mais consistente na redução da permeabilidade. Esses achados referem-se a indivíduos com doença de Crohn, câncer, HIV, pancreatite, pacientes críticos no pós-operatório, queimaduras e sepse (3).
Os estudos mais robustos realizados em humanos utilizam diferentes metodologias, dificultando assim conclusões mais definitivas sobre a eficácia clínica. É importante considerar que os resultados variam de acordo com população, dose e via de administração. Por isso, mais pesquisas são necessárias para definição de recomendações ideais (3).
Quanto à segurança de consumo e efeitos adversos, tanto em jovens quanto em idosos, a suplementação de glutamina demonstrou boa tolerabilidade. A dose considerada segura é de aproximadamente 0,15 mg/kg/dia, não foram observadas alterações em IMC, creatinina (toxicidade renal), AST/ALT (toxicidade hepática) ou ureia (catabolismo proteico). Em estudos com doses de 0,50 mg/kg/dia houve elevação dos níveis de ureia, creatinina e redução da taxa de filtração glomerular (4).
Associação com depressão:
Para além da saúde intestinal, esse aminoácido também exerce função como neurotransmissor. Evidências recentes mostram que a deficiência de glutamina na região pré-frontal medial, em modelos animais, induz comportamentodepressivo, leve déficit cognitivo e redução da neurotransmissão glutamatérgica (5).
A suplementação demonstrou efeitosantidepressivos e melhora cognitiva em estudos com animais e humanos. As doses variam conforme o objetivo e a população estudada. Em modelos animais para depressão e comprometimento cognitivo, as doses são muito menores do que em estudos clínicos, ainda assim demonstrando efeito benéfico (5).
Como mencionado anteriormente, a relação entre glutamina e câncer é estudada há anos. Na doença, as células tumorais podem utilizar glutamina como substrato metabólico, assim como glicose e leucina, contribuindo para processos celulares ligados ao desenvolvimento de processos tumorais (6.)
Por outro lado, o consumo de glutaminacomosuplemento também é relevante na defesa antioxidante, saúde intestinal, cognição e metabolismo celular sistêmico. Inclusive, a suplementação entre 10–30 g/dia em pacientes submetidos à quimioterapia e radioterapia não apresentaram impacto negativo no tumor ou em desfechos clínicos, indicando segurança de uso nessa dosagem para a população estudada (5).
Dessa forma, compreende-se as dúvidas quanto ao uso de glutamina durante o tratamento oncológico. Entretanto, é uma substância estudada há anos como terapia adjuvante. Além de seu papel estrutural para a membrana intestinal, pode auxiliar na função imunológica, reduzir toxicidades do tratamento, e contribuir para melhor qualidade de vida do paciente com câncer (7).
Ainda são necessários mais estudos para definir doses ideais, possíveis interações e segurança a longo prazo. As evidências disponíveis indicam que a glutamina não aumenta o crescimento tumoral nem compromete tratamentos. Em estudo com mulheres com câncer de mama, não houve diferença na redução tumoral entre suplementação e placebo (7).
Associação com desempenho esportivo:
Assim como em situações de doenças, a prática intensa de atividade física pode levar a uma alta utilização de glutamina pelo organismo, gerando uma depleção em tecidos como o intestino e afetando negativamente a barreira gastrointestinal.
Portanto, em teoria, ingerir glutamina antes ou durante o exercício poderia auxiliar na manutenção da saúde intestinal e compensar as depleções causadas pelo esforço físico.
Na prática o autor descreveu um estudo realizado com corredores em que de forma geral, uma dose alta (0,9 g/kg de massa livre de gordura) reduziu a permeabilidade gastrointestinal em comparação ao placebo. No entanto, o estudo em questão foi realizado em uma amostra pequena, apenas 8 participantes, e apresentou outras limitações.
Outras evidências indicam que a dependência das células intestinais em relação à glutamina pode ser reduzida quando glutamina e glicose estão disponíveis simultaneamente. Dessa forma, é incerto se a glutamina oferece benefícios adicionais quando existe consumo simultâneo de carboidrato.
Uma ressalva importante é que muitos estudos não avaliaram sintomasgastrointestinais, uma questão importante para a performance esportiva. Já em outros, > 50% da amostra declarou sintomas gastrointestinais leves a moderados nas duas horas iniciais após suplementação.
O autor conclui que até o momento a utilidade clínica de glutamina entre atletas ainda é especulativa (8).
O que achou do nosso resumo sobre o tema, nutri? Sentiu falta de alguma aplicabilidade? Deixe a sua sugestão aqui nos comentários! Até mais!
Referências:
Glutamine enhances intestinal barrier function and tight junction The Roles of Glutamine in the Intestine and Its Implication in Intestinal Diseases. Link de acesso: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5454963/
Glutamine Peptides: Preparation, Analysis, Applications, and Their Role in Intestinal Barrier Protection. Link de acesso: https://www.mdpi.com/2072-6643/17/6/1017
As doenças cardiovasculares costumam ser a principalcausa de morte no Brasil. Para a prevenção é essencial reduzir comportamentos de risco, como o sedentarismo, tabagismo e a alimentação inadequada (1). Sendo assim, a nutrição tem um papel importante na promoção de mudanças.
A dietaDASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension) começou a ser mais estudada a partir dos anos 90. Hoje é muito conhecida como uma proposta dietética de tratamento e prevenção para doenças cardiovasculares, principalmente a hipertensão arterial.
Nesse modelodietético é preconizado o consumo de frutas, verduras, legumes, produtos lácteos com baixo teor de gordura, cereais integrais, peixes, aves e nozes; além disso, incentiva restringir o consumo de carnes vermelhas e processadas, alimentos com alto teor de sódio e bebidas açucaradas.
Os benefícios observados são principalmente atribuídos ao maior consumo de nutrientes que contribuem para redução dos níveis pressóricos, como potássio (K), magnésio (Mg), cálcio (Ca) e fibras alimentares (2).
Em solo brasileiro é um padrão alimentar com obstáculos para a adesão, mas temos o Manual de AlimentaçãoCardioprotetora. Além de eixos estruturantes com conceitos regionais, também há grupos alimentares de acordo com a bandeira nacional: verde, amarelo e azul (3).
Há dois estudos muito interessantes que utilizam esse manual:
Grupo verde: alimentos cardioprotetores, ou seja, que contêm vitaminas, minerais, fibras e antioxidantes (verduras, frutas, legumes, leguminosas, leite e iogurte desnatado);
Grupo amarelo: alimentos in natura, minimamente processados ou ingredientes culinários que devem ser consumidos com moderação, por conterem mais energia, gordura ou sal (pães, cereais, macarrão, tubérculos, castanhas, óleos vegetais, doces de frutas e mel);
Grupo azul: alimentos in natura, minimamente processados ou processados, com controle importante para cardiopatas e indivíduos com fatores de risco cardiovascular, por serem alimentos que contêm maior quantidade de gordura saturada, sal e colesterol (carnes, queijos, ovos, manteiga, doces caseiros).
Já conhecia esse material nacional? Aproveite para ler temas complementares:
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o consumo excessivo de sódio é uma preocupação de saúde pública. Quando se fala em alimentação, esse é um dos principais fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis, aumento da pressão arterial, osteoporose, doenças renais, cardiovasculares, cardíacas e cerebrovasculares.
No Brasil, segundo a última estimativa nacional, de 2013, o consumo de sal do brasileiro é quase o dobro da recomendação da OMS, cerca de 9,34 g/dia. Esse estudo também constatou que a percepção individual sobre o consumo elevado de sal é baixa.
Por isso, há necessidade não só de melhorar a conscientização populacional sobre o assunto, como também de estratégias que efetivamente promovam a redução na prática (1).
Diversas ações nacionais de saúde pública já abordaram a necessidade de reduzir o consumo de sódio. Por exemplo, o Guia Alimentar para a População Brasileira, as metas voluntárias de reformulação de alimentos processados e ultraprocessados e as mudanças na regulação da rotulagem nutricional de alimentos (2).
No novo posicionamento da OMS, a recomendação quantitativa para o consumo de sódio se mantém – até 2g/dia de sódio ou 5g/dia de sal, para adultos. No entanto, acrescenta-se, como proposta prática a substituição do tradicional sal de cozinha por sal baixo em sódio – recomendação para adultos e no contexto doméstico (3,4).
O sal baixo em sódio, também conhecido como sal light, contém adição de potássio em sua composição, tornando a sua composição nutricional com 50% menos sódio, em comparação ao sal de cozinha comum. Exemplificando: 1g de sal de cozinha apresenta 393 mg de sódio, já 1g de sal light apenas 197 mg. No entanto, ainda não existe uma padronização que garanta essa proporção na composição.
Em temos práticos, até parece ser uma boa substituição. No entanto, segundo o parecer técnico do Conselho Regional de São Paulo, a implementação dessa proposta deveconsiderar o contexto clínico, nutricional e social da população.
Inclusive, o próprio posicionamento da OMS indicou limitações e ressalvas sobre tal proposta:
Foto retirada de: “Guideline: Use of Lower-Sodium Salt Substitutes, 2025”.
Existem grupos que apresentam contraindicação ao uso de sal light, como: indivíduos em uso de fármacos poupadores de potássio, pessoas com doença renal crônica ou insuficiência cardíaca, ou outras condições que afetam o equilíbrio eletrolítico.
Além disso, também é necessário considerar o acesso individual a esse produto. No Brasil, o preço do sal light, por quilo, varia de R$18 a R$30. Já o sal refinado custa de R$2 a R$5. Por isso, mesmo que não haja contraindicação clínica que impeça o uso, fatores sociais e econômicos precisam ser considerados na prescrição nutricional.
Sendo assim, a proposta de substituição do sal tradicional por sal lightnão é para todos, nem deveria indicar que outras medidas de redução de sódio sejam descontinuadas. A educação nutricional em consultas nutricionais e as políticas públicas populacionais continuam sendo essenciais.
A prioridade dos nutricionistas, se tratando de ações de promoção da redução do consumo de sódio, pode continuar sendo: facilitar a redução do consumo de alimentos ultraprocessados, promover o uso de temperos naturais, como o sal de ervas, além de incentivar o desenvolvimento de habilidades culinárias.
Nutri, o que achou dessa proposta? Conte pra gente!
MILL, J. G. et al. Estimativa do consumo de sal pela população brasileira: resultado da Pesquisa Nacional de Saúde 2013. Rev. Bras. Epidemiol., v. 22 ,2019. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1980-549720190009.supl.2.
BRASIL. Ministério da Saúde. Policy brief: Redução do sódio em alimentos processados e ultraprocessados no Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde, Departamento de Promoção da Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://nutricao.saude.ms.gov.br/?p=2424.
Hoje iremos continuar o resumo de um artigo científico. Se está chegando por aqui agora, primeiro confira o texto anterior. O consumo de micronutrientes impacta na regulação hormonal, saúde do endométrio e fertilidade. Isso acontece porque muitos minerais estão associados com a regulação hormonal. Confira os principais minerais associados com a ovulação e fertilidade feminina!
Influência dos minerais na ovulação:
Cálcio: importante para a fase folicular e maturação dos óvulos, também facilita a liberação do óvulo (ovulação) armazenado nos folículos ovarianos. Modula mensageiros importantes para a fecundação, além de ter grande atuação no desenvolvimento zigótico. Manter um consumo ideal de cálcio é essencial para mulheres que desejam engravidar;
Zinco: cofator para diversas enzimas importantes, como DNA polimerase e ribonucleotídeo redutase, participantes da síntese e divisão celular. A deficiência de zinco pode impactar negativamente a fase folicular e maturação do óvulo, já a insuficiência do consumo compromete a qualidade do óvulo e a fertilidade como um todo;
Ferro: por atuar na oxigenação sanguínea, participa ativamente dos processos de fecundação e desenvolvimento embrionário. O mineral também desempenha um papel importante na função mitocondrial e síntese de DNA. A deficiência de ferro pode levar a quadros de anemia e baixos níveis de ferritina já foram associados com casos de infertilidade;
Fonte da imagem: https:// doi.org/10.3390/nu16071008
Estresse oxidativo e fertilidade:
O termo estresse oxidativo é referente ao desequilíbrio entre a produção de radicais livres e a capacidade do corpo de realizar a destoxificação adequada. Esse é um processo natural do organismo, que envolve substâncias antioxidantes (endógenas e dietéticas). Para colaborar com esse processo, existem minerais que podem ser consumidos com maior frequência: zinco, magnésio, selênio, ferro, cobre e manganês.
Fonte da imagem: https:// doi.org/10.3390/nu16071008
Fecundação e implantação embrionária: após a fecundação ainda existe o processo de implantação do blastocisto na parede uterina, por isso a saúde do endométrio impacta tanto na fertilidade. Zinco, magnésio, cálcio iodo e ferro são os minerais que apresentam maior impacto nesse processo; sendo assim, precisam ser consumidos/suplementados durante o período fértil quando se planeja engravidar.
Confira as recomendações de consumo e fontes alimentares para cada micronutriente:
Fonte da imagem: https:// doi.org/10.3390/nu16071008
A campanha Abril Azul visa conceder mais atenção ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), mais conhecido como autismo. Como essa condição atinge várias áreas da vida, a abordagem terapêutica deve sermultiprofissional. Desde 2012, com direito estabelecido por lei, esse público deve receber a atenção nutricional adequada, assim como acesso à terapia nutricional (1, 2).
No transtorno do espectro autista (TEA) há alterações do desenvolvimento neurológico. Não há características físicas ou comportamentais únicas, e sim uma série de condições atípicas em cada caso, por isso o diagnóstico e tratamento podem ser tão complexos (3).
Qual deve ser o cuidado nutricional com pessoas com TEA? Como o nutricionista pode auxiliar?
Alimentação seletiva: é comum ocorrer aversão a certos alimentos, ou restrições por intolerância/alergia, ocasionando no baixo consumo de fibras, ômega 3, ferro, cálcio, zinco, cobre e vitaminas D, A, e C (4);
Estado nutricional e suplementação: exames bioquímicos devem ser monitorados para avaliar a necessidade de suplementação vitamínica. Existe maior potencial de estresse oxidativo e capacidade reduzida de transporte de energia, por isso há necessidade diferenciada de micronutrientes (4);
Educação alimentar: há frequente eletividade/aversão para cores, texturas, cheiros, temperatura, sabor e modos de preparo dos alimentos. Esse cenário interfere no consumo alimentar, por isso deve acontecer uma orientação cautelosa com os responsáveis e estratégias criativas com os pacientes para aumentar o consumo alimentar (4);
Estratégias nutricionais: uso de aminoácidos como cisteína e metionina, além de ácido fólico, vitamina B6 e B12, pois são nutrientes essenciais para a síntese de glutationa (GSH) e de S-adenosilmetionina (SAM) (4);
Alterações gastrointestinais: há maior recorrência de refluxo, dor abdominal, diarreia, constipação e alterações de permeabilidade na microbiota intestinal. Por isso, há benefício do uso de probióticos melhora dos sintomas e modulação de substâncias como serotonina, melatonina e acetilcolina (5,6);
Evitar falas/atitudes capacitistas: quando há pouco conhecimento sobre a condição apresentada, falas ou atitudes podem expressar a ideia de que pessoas com autismo são incapazes (7).
Para complementar as pesquisas e estudos, algumas indicações de artigos científicos:
A Review of the Nutritional Approach and the Role of Dietary Components in Children with Autism Spectrum Disorders in Light of the Latest Scientific Research, 2023: https://www.mdpi.com/2072-6643/15/23/4852
Muitos profissionais usam um sistema nutricional para montar planos alimentares, mas existem muitas ferramentas de gestão que podem contribuir para a organização do seu consultório e clínica.
No último texto falamos sobre algumas que o Software Allivici oferece. Agora, vamos conferir com detalhes como emitir recibos e atestados?
Para a emissão desses documentos vá até a página “Agenda” (no menu lateral), lá é possível conferir todas as consultas realizadas. Ao lado direito de cada atendimento existem os botões: recibo e atestado.
2. Ao clicar na opção desejada uma página é aberta em uma nova aba com o documento pronto. Preste atenção se os pop-ups do servidor estão liberados, para que a página abra corretamente. Ambos são emitidos com: as informações de cadastro de cada paciente, além da data, logo, assinatura e o seu carimbo.
Para alterar as suas informações que aparecem nesses documentos vá em “Meu perfil”, no menu lateral. Além de modificar os seus dados é nessa área que você poderá efetivar a sua assinatura ilimitada!
Emitir esses documentos com apenas um clique deixará a sua rotina clínica muito mais prática, não acha? Estamos trabalhando bastante para deixar o nosso sistema cada vez mais completo. Tem sugestões de mudanças? Entre em contato conosco 🙂
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A solicitação de exames é uma etapa muito importante para o acompanhamento nutricional. Pois, a partir dos resultados que a prescrição dietética, assim como a suplementação, podem ser ainda mais individualizadas!
É essencial que o profissional saiba quais exames solicitar em cada quadro clínico, assim como interpretar os seus resultados.
O Conselho Federal de Nutrição (CFN) tem uma recomendação bem estabelecida sobre essa atribuição, já que existem limitações. No entanto, algumas já estão sendo discutidas para que os nutricionistas possam desenvolver o seu trabalho com maior autonomia, como no PL nº 5881/2019.
Durante o desenvolvimento do Software Allivici a etapa de solicitação e avaliação de exames foi pensada com muito cuidado, para que fosse de fácil compreensão, principalmente para quem acabou de se formar:
Confira como fazer isso com o nosso sistema:
No menu lateral clique em Lista de Exames para encontrar os valores recomendados (diferente dos valores de laboratórios) para cada exame. É uma ótima ferramenta para quando o paciente chegar em consulta com exames realizados anteriormente.
2. Ao clicar em cada exame é possível visualizar um resumo sobre a importância do mesmo, os valores indicados pelos principais laboratórios, além das recomendações – para quem solicitar? atleta? gestante?
3. Agora, para solicitar exames é preciso estar “dentro” de uma consulta. Selecione um paciente, depois clique em nova consulta ou acessar consultas já realizadas. No menu lateral, clique em conduta dessa consulta e depois em Solicitar Exame.
Como ilustrado na imagem abaixo é possível selecionar o perfil do seu paciente e montar um pedido automático de exames, ou selecionar manualmente os exames que deseja solicitar. Não esqueça de clicar em salvar ao fim da página 🙂
4. Para a avaliação dos exames primeiro retorne na consulta em que houve a solicitação. Depois, no menu lateral clique em conduta dessa consulta e a seguir em exames solicitados.
Para incluir os resultados clique em editar todos os exames no topo da página, ou ao lado direito, em editar cada exame individualmente. Os resultados abaixo dos valores recomendados aparecerão em vermelho.
O que achou de mais um #TutorialAllivici? No próximo texto falaremos sobre as ferramentas de gestão de consultório e controle financeiro com o nosso sistema para nutricionistas.
A prescrição de chás é uma prática comum entre nutricionistas, pois muitas bebidas apresentam benefícios interessantes e são feitas partes de alimentos ou ervas.
Todo nutricionista pode prescrever plantas e chás medicinais. No entanto, a prescrição de fitoterápicos é exclusiva para quem apresenta essa especialidade. Em nosso sistema disponibilizamos uma lista completa com indicações de chás. Confira como utilizar essa funcionalidade:
Para acessar a “Lista de Chás”clique em “Alimentos” no menu lateral e escolha a opção desejada. Além das alegações, ou seja, qual a finalidade de cada chá, também indicamos qual parte deve ser utilizada, em qual quantidade e como realizar o preparo.
Durante o planejamento dietético é possível incluir a indicação de chás para o paciente, clique em “Conduta dessa Consulta” e “Prescrever Chás”. É só marcar quais deseja incluir na prescrição e editar os campos de texto se assim desejar. Um arquivo em pdf ficará disponível para ser enviado.
É importante citar que as alegações terapêuticas que disponibilizamos consideram a posologia citada. As recomendações da Lista de Chás são para adultos. As plantas medicinais não devem ser usadas em crianças menores de 3 anos, gestantes e mulheres que estejam amamentando.
Por último, apesar de disponibilizarmos uma lista bem completa, ainda é possível cadastrar outros chás em seu perfil:
Nutri, o que achou desse tutorial? Ter uma lista completa de chás, com indicações e a forma de preparo pode deixar a sua prescrição ainda mais personalizada! No próximo texto do #TutorialAllivici falaremos sobre a última atualização do nosso sistema, a Lista de Substituições.
Pré-diabetes é uma situação caracterizada pelo nível de glicose no sangue acima do valor de referência, mas que não cumpre os critérios diagnósticos para diabetes. No entanto, é um resultado muito importante, um sinal para realizar mudanças (1).
Durante esse período, em alguns casos, a situação ainda pode ser revertida. Para outros, existe a possibilidade de reduzir a evolução do diabetes e as suas complicações. Por isso, tantos estudosinvestigam estratégias para pacientes com pré-diabetes.
Confira no texto de hoje um estudo que analisou o efeito de canela na resposta glicêmica de adultos em pré-diabetes e obesidade!
Introdução
Estudos já demonstraram que o consumo de canela pode reduzir a concentração sanguínea de glicose e lipídios em pacientes com diabetes tipo 2, pré-diabetes, além de também afetar positivamente indivíduos saudáveis.
A hipótese é que essa resposta aconteça devido ao conteúdo de polifenóis na canela. As doses nos estudos variam de 0,5g até 6 g/dia, com um intervalo de quatro a doze semanas.
No entanto, ainda existem resultados controversos sobre o assunto com metodologias não compatíveis. Por isso, o estudo em questão buscou respostas para tais lacunas.
Metodologia
Os participantes foram observados por um período total de doze semanas, considerando o período de washout, em um estudo randomizado, controlado, duplo-cego e cruzado.
Os indivíduos (n=18) tinham mais de dezoito anos, consumiam uma dieta baixa em fibras e polifenóis, tinham sobrepeso ou obesidade (IMC 25-40 kg/m2) e apresentavam pré-diabetes definida por glicemia em jejum entre 100 e 125 mg/dL ou hemoglobina A1c entre 5,7 e 6,4%.
Antes da intervenção, por um período de duas semanas, todos os participantes iniciaram uma dieta baixa empolifenóis e não consumiram canela. Essa dieta foi seguida durante as doze semanas de estudo.
A dose utilizada foi de 4 g/dia de canela (C. burmannii), com o consumo de dezesseis cápsulas todos os dias, oito no café da manhã e oito no jantar. Já aqueles que consumiram placebo (cápsulas de maltodextrina), também seguiram a mesma rotina.
Um porta-cápsula foi fornecido a cada semana, em geral, os participantes consumiram 75% do que foi fornecido durante o período. O nível de glicemia da amostra durante o estudo foi monitorado por dispositivos de monitoramento contínuo da glicose (CGM).
Resultados
Durante o período observado, o consumo de 4 g/dia de canela reduziu a concentração sérica de glicose, em comparação com placebo. Após quatro semanas de suplementação houve redução na concentração de triglicerídeos, assim como aumento na expressão do hormônio peptídeo inibidor gástrico (GIP).
Houve boa aderência dos participantes e sem efeitos controversos ou digestivos. Na prática, 4 g de canela, dose utilizada no estudo, pode ser consumida com facilidade, tanto na forma de suplemento, como acrescentada nas refeições.
Conclusão
Canela é facilmente encontrada e pode servir como suplemento de baixo custo com ótimos resultados. Quando acrescentada na dieta, principalmente dentro da dosagem consumida no estudo, pode contribuir para redução da glicemia em pacientes com pré-diabetes e obesidade.
No texto de hoje vamos conhecer mais sobre os possíveis tratamentos para pacientes com Síndrome do Intestino Irritável.
Retomamos a análise de um artigo que avaliou o papel que a microbiota intestinal na SII, com a explicação da eficácia de probióticos, prebióticos, simbióticos e do transplante de microbiota fecal.
Apenas relembrando, a Síndrome do Intestino Irritável (SII) é uma condição crônica de saúde muito comum entre as doenças gastrointestinais; caracterizada por dores recorrentes, distensão abdominal e hábito intestinal irregular.
Os tratamentos convencionais focam na redução do sintoma e no uso de medicamentos como loperamida para diarreia e laxativos para constipação.
Por isso, conforme as pesquisas avançam, probióticos e similares ganham espaço como possibilidade de tratamento; já que impactam na regulação da microbiota intestinal, dores e distensão abdominal.
Vamos avaliar quais as evidências para os principais tratamentos complementares existentes?
Probióticos
Analisando os estudos incluídos, vinte e dois foram realizados com um mix de probióticos, enquanto onze foram com Lactobacillus ou combinações e nove com Bifidobacterium ou combinações; em outros utilizaram Bacillus, Saccharomyces,Clostridium and Escherichia. Coli.
O consumo de probióticos mostrou uma melhora significativa nos sintomas em comparação com uso de placebo, principalmente quando combinados. Esse resultado foi obtido por uma análise de 36 estudos, com grupo controle e uso de placebo.
Constaram melhora na dor, como também na qualidade de vida dos pacientes avaliados – através de um questionário que avaliou dor abdominal, sintomas extra-intestinais e crises da doença.
No caso de distensão abdominal, algumas combinações demonstraram maior efeito: Lactobacillus rhamnosus, Propionibacterium freudenreichii, Propionibacterium shermanii, e Bifidobacterium (42), Bifidobacterium com Lactobacillus (75) e Lactobacillus com Lactobacillus acidophilus (40).
Prebióticos
Sete estudos foram incluídos e analisados, em todos não houve diferença significativa nos sintomas (dor e distensão abdominal) com uso de prebióticos. Três estudos identificaram melhora na qualidade de vida – através dos questionários respondidos.
Simbióticos
Dos sete estudos incluídos na análise, cinco não apresentaram melhoras significativas. Para os sintomas individuais também não foram encontrados resultados estatisticamente relevantes.
Transplante de microbiota fecal
Seis estudos foram analisados, em cinco os resultados indicaram uma melhora significativa dos sintomas, em comparação com placebo. Quanto aos sintomas individuais após as intervenções, dois estudos apresentaram melhora na dor abdominal, enquanto apenas um demonstrou melhora significativa na distensão.
Conclusão
Para a melhora dos sintomas analisados, o uso de probióticos e o transplante de microbiota fecal foram os tratamentos com melhores resultados. Enquanto simbióticos e prebióticos não apresentaram diferenças significativas.
Mais estudos são necessários para avaliar e definir combinações de probióticos e dosagens que promoveriam impacto positivo nos sintomas e melhora da qualidade de vida.
No texto de hoje vamos conhecer um pouco mais sobre os possíveis tratamentos para pacientes com Síndrome do Intestino Irritável.
O artigo em questão avaliou o papel que a microbiota intestinal exerce nessa condição de saúde, além de explicar com profundidade a eficácia de probióticos, prebióticos, simbióticos e do transplante de microbiota fecal.
Síndrome do Intestino Irritável (SII) é uma condição crônica de saúde muito comum entre as doenças gastrointestinais. É caracterizada por dores recorrentes, distensão abdominal e hábito intestinal irregular.
O diagnóstico é médico e baseado em critérios clínicos, que consideram os sintomas, além da intensidade e recorrência dos mesmos. Também é importante uma prévia exclusão de outras condições comuns, como intolerâncias e alergias alimentares.
Existem muitos fatores que interferem na ocorrência e progressão da doença, como:
nível de função e inflamação intestinal;
a capacidade de resposta do sistema imunológico;
quadros de disbiose e estresse psicológico;
desregulação do eixo microbiota-intestino-cérebro.
Muitos estudos já demonstraram que existe diferença no perfil de microbiota intestinal entre os pacientes saudáveis e aqueles com síndrome do intestino irritável.
Por exemplo, pacientes com ISS apresentam maior abundância de Enterobacteriaceae, Streptococcus, Clostridium, Gemella e Ruminococcus. Além de menor expressão para Roseburia e Faecalibacterium.
No entanto, ainda não existe um método em comum nos estudos que controle fatores que são importantes e interferentes nos resultados, como: idade, gênero, raça, dieta e consumo de antibióticos.
Os tratamentos convencionais focam na redução do sintoma e no uso de medicamentos como loperamida para diarreia e laxativos para constipação. Mas, existem alternativas limitadas para distensão e dor abdominal.
Além disso, conforme as pesquisas avançam fica mais evidente o impacto que a microbiota intestinal exerce na fisiopatologia da ISS. Dessa forma, probióticos e similares ganham espaço como possibilidade de tratamento.
A principal consequência para o paciente está no impacto para a sua qualidade de vida, pois o mesmo pode deixar de se alimentar “normalmente” com receio de novas crises. Por isso, o tratamento e acompanhamento com uma equipe multiprofissional é essencial!
Explicaremos mais sobre os possíveis tratamentos e a relevância de cada um para a literatura científica no próximo texto. Confira o artigo na íntegra: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38999862/
Sarcopenia é uma condição caracterizada pela perda progressiva de massa e função muscular (1). Atinge a maioria dos idosos, mas pode acontecer mais cedo na vida, principalmente nas mulheres, durante ou após o período da menopausa (2).
O tema ganhou muita relevância na prática clínica, principalmente pelo aumento do risco para outras complicações e o impacto que gera na qualidade de vida. Em 2016, a sarcopenia foi reconhecida na Classificação Internacional de Doenças (CID) (4).
A prevalência da sarcopenia varia entre os estudos realizados, a depender do método ou ponto de corte que foram considerados. No entanto, a média é de 10 a 16% entre os idosos (1).
Fatores de risco
Estilo de vida: obesidade e gordura visceral, inatividade física, desnutrição, tabagismo e sono desregulado;
Condições preexistentes: diabetes, osteoporose, depressão, anorexia, doenças cardiovasculares ou respiratórias, Doença de Parkinson e outras condições neurodegenerativas;
Biológicos: marcadores inflamatórios, níveis de colesterol, vitamina D, adiponectina e a microbiota intestinal (1).
Consequências/aumento do risco:
Pacientes: maior tempo de internação, complicações e infecções pós-operatórias, mortalidade no curto ou longo prazo;
Não pacientes: hospitalização, institucionalização, disfagia, depressão, hipertensão, fibrose hepática, doença hepática gordurosa não alcoólica, síndrome metabólica, diabetes, declínio das funções motoras e cognitivas, maior risco de osteoporose, queda e fratura (1).
Qual o papel da nutrição?
Há poucos estudos que traçaram um perfil longitudinal do consumo alimentar em indivíduos que desenvolveram sarcopenia. A maioria dos achados são revisões sistemáticas, estudos observacionais ou intervenções, que buscaram avaliar quais fatores minimizam ou previnem as consequências/riscos da sarcopenia (3).
O “público-alvo” nos estudos que aplicam mudanças alimentares para promover melhor manutenção e função da massa muscular são pessoas com menos de 70 anos, justamente visando a prevenção (3).
O estado nutricional e o consumo alimentar impactam diretamente na regulação da síntese e manutenção muscular. Além disso, existem nutrientes que precisam ser consumidos para a saúde muscular e óssea. Por isso, uma dieta nutricionalmente adequada é essencial, principalmente para a prevenção da sarcopenia (4).
Conclusões
Proteína: consumir fontes alimentares com aminoácidos essenciais, ricas principalmente em leucina (2,5 – 2,8 g por refeição); priorizar o consumo diário de 1 – 1,2 g/kg para pessoas saudáveis, ou 1,2 – 1,5 g/kg com doenças crônicas, complicações físicas, hospitalizadas ou mal nutridas (4,5);
Vitamina D: manter níveis de 40 a 60 ng/mL, no caso de suplementação há indicação de 800 – 1,000 UI/dia (5);
Minerais: consumir 300 mg/dia de magnésio para homens e 270 mg/dia para mulheres; já cálcio 1.000 – 1.200 mg/dia; selênio 25 – 75 μg/dia (5); além de fósforo, potássio, zinco (4);
Nutrientes antioxidantes: é adequado >500 mg de polifenois (5), consumindo fontes alimentares de carotenoides, licopeno zeaxantina, luteína; além de vitamina E (400 UI/dia e vitamina C (45 to 90 mg/dia);
Creatina: é preciso avaliar questões individuais, pois não há consenso de consumo e estudos longitudinais em população idosa. No entanto, é uma possibilidade para indivíduos que praticam atividades como musculação (~5g/dia) (5);
HMB: é um metabólito da leucina, o seu consumo (3g/dia) apresentou indícios benéficos para indivíduos acima de 65 anos, principalmente acamados ou sem treinamento físico; no entanto, ainda há inconsistências sobre a recomendação dessa suplementação (5);
Atividade física: Prática de fortalecimento muscular e atividade aeróbia – 150 min. intensidade moderada, ou 75 min de intensidade vigorosa (4);
Hidratação adequada: há maior risco de desidratação em idosos, mas não há recomendações específicas para sarcopenia. Seguir o consenso de consumo médio de 3 litros para mulheres e 4 litros para homens, sempre considerando condições individuais que podem aumentar ou reduzir tal consumo (4).
Até mais!
Referências
YUAN, S.; LARSSON, S. C. Epidemiology of sarcopenia: Prevalence, risk factors, and consequences. Metabolism, vol. 144, 2023. Disponível: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36907247/
LU, L.; TIAN, L. Postmenopausal osteoporosis coexisting with sarcopenia: the role and mechanisms of estrogen. Journal of Endocrinology, vol. 259, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1530/JOE-23-0116
ROBINSON, S. et al. The role of nutrition in the prevention of sarcopenia. Am J Clin Nutr., vol. 118, pg. 852-864, 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37657521/
No atendimento nutricional avaliar o consumo de micronutrientes é uma etapa muito importante. Existem métodos diretos, como a dosagem sérica de vitaminas e minerais através de exames laboratoriais, assim como formas indiretas de avaliação.
Uma possibilidade é estimar o consumo de micronutrientes a partir do plano alimentar ou recordatório alimentar, por exemplo. Outra maneira é avaliar sinais e sintomas, pois muitos já demonstraram associação com a deficiência de micronutrientes (unhas fracas, palidez, fadiga, etc.).
O Questionário de Rastreamento Metabólico (QRM) também é uma ferramenta de avaliação indireta, com modelo original do Centro Brasileiro de Nutrição Funcional. Ele indica possíveis associações entre os sintomas citados com a deficiência ou o excesso de micronutrientes.
Nós disponibilizamos esse recurso no Software Allivici. Confira como funciona:
Ainda na etapa de anamnese vá em “rastreamento metabólico”. É possível acessar informações de consultas anteriores em “histórico completo”.
Isso será importante para avaliar o progresso/melhora de sintomas ao longo do acompanhamento nutricional. Então, a cada consulta, ou em um intervalo determinado, realize o QRM com o seu paciente/cliente!
2. Ao iniciar o QRM uma lista de sintomas aparecem, o paciente/cliente deve responder a partir da frequência e severidade que o mesmo os sente. Aconselhamos que a pessoa preencha junto com o nutricionista durante o atendimento.
3. Ao fim das questões um relatório é gerado, com a pontuação total e um diagnóstico do próprio QRM, o qual indica as chances de hipersensibilidade. Além disso, também indica as possíveis associações dos sintomas citados com micronutrientes.
4. Existem sintomas que já foram associados com a contaminação por metais pesados, por isso essa relação também é indicada. Ao fim da página, clicando em “principais contaminantes” é possível identificar as principais fontes, alimentares ou não.
5. Como em outras ferramentas, também existe a possibilidade de fazer uma análise temporal dos resultados do QRM. Assim, fica mais simples de avaliar a melhora dos sintomas a partir da mudança alimentar proposta para o paciente/cliente!
Então nutri, você utiliza o Rastreamento Metabólico em suas consultas? Nos conte o que achou! Nos próximos tutoriais explicaremos outras ferramentas importantes!
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Na suplementação nutricional muitas orientações passam por mudanças ao longo dos anos; algo que era promissor em uma época passa a não ser tão interessante em outra, e vice e versa.
Por isso, a importância do nutricionista se manter atualizado. Principalmente para obter resultados seguros e eficazes junto aos seus pacientes/clientes.
Para a performance esportiva há suplementos que já são bem difundidos, como a cafeína. Também é essencial entender que a efetividade de cada suplemento dependerá da modalidade esportiva, entre outros fatores.
No caso do suco de beterraba, ou de produtos derivados, o efeito ergogênico acontece por um alto teor de nitrato (NO3 −). Essa substância promove um aumento nos níveis de óxido nítrico e melhor vasodilatação, aumentando o fluxo sanguíneo para o músculo e reduzindo a fadiga.
No texto de hoje, leia o resumo de uma revisão da literatura sobre a efetividade dessa estratégia para a performance esportiva.
Materiais e Métodos
Na atual revisão foram utilizados artigos dos últimos cinco anos, com indivíduos entre dezoito e sessenta e cinco anos de idade. Após a avaliação da qualidade e nível de evidência, apenas seis estudos foram selecionados.
Resultados e Discussão
Para avaliar o efeito da suplementação, quatro estudos aplicaram testes aeróbicos, enquanto os outros exercícios de força. Quatro estudos foram realizados com atletas e dois com indivíduos ativos fisicamente.
Em todos os estudos o suco de beterraba foi consumido em combinação com outro suplemento. Sempre havendo também o consumo de placebo ou suco de beterraba puro no grupo controle.
Em três estudos resultados significativos não foram demonstrados com a combinação de suco de beterraba com cafeína; ou com nitrato; nem nitrato com arginina ou nitrato com citrulina.
Já em outros três estudos, efeitos positivos foram encontrados com a combinação de suco de beterraba com cafeína, também com citrulina e com carboidratos.
É importante compreender que a variação de resultados pode acontecer por diversos fatores, como o tipo de exercício, nível de treinamento do indivíduo, efeito placebo, quantidade ou frequência de consumo de outros suplementos.
Conclusão
Poucos estudos que avaliam a combinação de suco de beterraba com outros suplementos foram conduzidos até o momento.
A análise das evidências atuais indicam que há efetividade na estratégia, especialmente quando há um uso crônico e o exercício praticado é de alta intensidade.
Estudos que avaliaram o efeito agudo da combinação de suco de beterraba com outro suplemento indicaram um menor impacto na performance esportiva.
O padrão alimentar de cada população, ou seja, os alimentos e nutrientes que são ou não consumidos por um grupo, já demonstrou ter grande impacto em múltiplas condições de saúde (1).
No Brasil, há destaque para a prevalência e mortalidade das doenças cardiovasculares, quadro de saúde que também é impactado pelo consumo alimentar (2).
Por mais de uma década se discute sobre o consumo equilibrado entre ácidos graxos ômega 3 e 6 para a saúde cardiovascular e outras condições de saúde (3).
O artigo traduzido e resumido a seguir irá expor evidências mais recentes sobre essa pauta, além de esclarecer como essa proporção de consumo impacta o metabolismo da glicose.
Introdução
Ácidos graxos polinsaturados são divididos em duas classes, ômega 3 ácido graxo alfa linolênico (ALA, 18:3 w-3) e ômega 6 ácido linoléico (LA, 18:2 w-6).
Ambos estão presentes em diversos alimentos, assim como outros (saturados e monoinsaturados), mas a proporção varia. Alimentos como oleaginosas, óleo de milho, soja e girassol são fontes de ômega 6. Já as sementes, como o óleo, de chia e linhaça se destacam para ômega 3, além do peixe.
Tabela com proporção de ácidos graxos ALA e LA, por fonte alimentar. https://www.mdpi.com/2072-6643/15/12/2672
O ácido graxo linoléico (LA ômega 6) quando consumido e metabolizado é convertido em ácido araquidônico, já o ácido graxo alfa linolênico (ALA ômega 3) em ácido docosahexaenoico (EPA) eácido eicosapentaenoico (DHA).
Além disso, ômega 3 e 6 competem pelas mesmas enzimas dessaturases. Por isso, a conversão de ALA em EPA e DHA pode ser impactada quando há excesso de LA. O equilíbrio de consumo entre ambos apresenta ser importante baseado nos possíveis efeitos fisiológicos.
O metabolismo do ácido araquidônico produz produtos como prostaglandinas e leucotrienos, mediadores inflamatórios. No caso da conversão de ALA em EPA e DHA há produção de resolvinas, maresinas e protectinas, que apresentam potencial antiinflamatório.
Resultados e Discussão
Mudanças no padrão alimentar
Principalmente para o ocidente, o consumo alimentar tem se tornado desequilibrado na relação ômega 3 e 6. Não apenas pelo maior consumo de óleos vegetais, mas o próprio conteúdo de ômega 3 em ovos e peixes têm se alterado.
A carne de peixe é considerada a maior fonte animal de ômega 3, mas estudos comparativos mostram que o conteúdo de EPA e DHA têm reduzido ao longo dos anos.
O próprio processo comercial e produtivo de peixes impacta o ecossistema marinho e a existência das microalgas, as fontes originais dos nutrientes em questão. Alguns autores incentivam que fontes plant-based de EPA e DHA são alternativas mais sustentáveis.
Para os ovos também se nota grande diferença. Isso acontece pela alteração na alimentação das espécies, cada vez mais criadas em cativeiros e sem acesso a plantas diversas e selvagens.
Recomendação de consumo
Para a população em geral, a recomendação de consumo de ácidos graxos poliinsaturados (PUFAs) ômega 3 é de 250 a 500 mg/dia, equivalente a duas porções de peixe por dia.
A prescriçãode consumo para indivíduos com doenças cardiovasculares e triglicerídes elevados, mesmo em uso de estatinas, é de 4g por dia de EPA. Uma alimentação rica em fontes alimentares de PUFAs ômega 3 também deve ser incentivada, além da suplementação.
Interação com metabolismo da glicose
É possível que o próprio metabolismo do ácido linoléico (ômega 6), quando em desequilíbrio, impacte no desenvolvimento da resistência à insulina; isso pela maior produção de mediadores inflamatórios na conversão em ácido araquidônico, como prostaglandinas e leucotrienos.
O consumo de carboidratos refinados também pode estimular a ativação das enzimas 5 e 6 dessaturases, responsáveis pela conversão de LA em AA.
Em estudos com tratamento in vitro houve maior captação de glicose por células musculares quando havia suplementação de EPA. Possivelmente impactando na translocação de GLUT 4.
Em modelos animais, os sintomas de hiperglicemia e resistência à insulina foram amenizados em ratos com diabetes; além de impactar na microbiota intestinal e na secreção de peptídeo semelhante a glucagon 1 (GLP-1).
Em estudos populacionais, amostras com consumo alimentar rico em peixe e outras fontes de ômega 3 apresentaram menor índice de diabetes e doenças cardiovasculares.
Apesar de muitos estudos estarem avaliando a associação em questão, os mesmos ainda são inconclusivos quando à dosagem ou tipo de ômega 3 a ser consumido para tal benefício clínico.
Diabetes Mellitus (DM) é uma doença crônica multifatorial, em que o organismo apresenta deficiência na utilização (DM tipo 2) ou síntese de insulina (DM tipo 1). Quase a totalidade das pessoas com diabetes, cerca de 90%, convivem com o tipo 2; já 5 a 10% com o tipo 1 (1).
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No entanto, além das peculiaridades nutricionais em cada caso, o profissional também precisa considerar em suas prescrições o quanto a condição atual do paciente impacta não apenas em seu cotidiano, mas também nos momentos de lazer.
Por exemplo, o paciente pode aprender a aproveitar com segurança uma festa de aniversário, ou um almoço de família. Aprender sobre contagem de carboidratos e a dosagem adequada de insulina possibilita mais qualidade de vida ao paciente com DM1.
A prática de atividade física também é outro exemplo, pois interfere nos níveis de glicemia e consequentemente na quantidade de carboidratos que precisa ser ingerida e dosagem de insulina a ser aplicada.
Diante de tantas variantes, torna-se ainda mais importante o nutricionista ser especializado na área e manter um ótimo contato e interação com o médico atuante em cada caso. Assim, a qualidade e segurança do tratamento será muito maior.
Aproveite e confira o nosso conteúdo complementar, uma aula completa, sobre o tema:
Na prática clínica a atualização é imprescindível, principalmente para se obter resultados seguros e eficazes. Acompanhar as mudanças de posicionamento da comunidade científica é uma ótima estratégia.
Na suplementação nutricional muitas orientações passam por mudanças ao longo dos anos; algo que era promissor passa a não ser interessante, e vice e versa. Por isso, a importância de se manter atualizado.
A creatina é um suplemento utilizado, em geral, por praticantes de atividade física com o objetivo de otimizar o ganho de massa muscular. Entretanto, outras finalidades também estão sendo estudadas e aplicadas. Inclusive, já escrevemos sobre esse tema aqui!
No texto de hoje, o resumo de um artigo publicado na Nutrients. Os autores avaliaram as evidências disponíveis sobre a creatina, quais são os riscos, benefícios e a melhor forma de suplementar.
Introdução
A creatina é um dos suplementos dietéticos mais populares, o seu consumo oral melhora o conteúdo de creatina muscular; sendo utilizado por indivíduos que desejam melhorar o desempenho em atividades esportivas, ou os sintomas de condições clínicas (doenças reumáticas, neurodegenerativas e metabólicas).
Ao longo dos anos, preocupações surgiram com o uso de creatina, principalmente quanto a possibilidade de danos renais. No estudo a seguir, os possíveis riscos ou impactos da suplementação para a saúde foram discutidos, além de também sugerir recomendações seguras para o seu uso.
Resultados e Discussão
A creatinina sérica, produto final do metabolismo da cretina, em geral é o parâmetro mais utilizado para avaliar a função renal, como também para estimar a taxa de filtração glomerular.
O uso crônico de creatina interfere nos níveis de creatinina, por exemplo, esse é um cuidado necessário para não gerar falha na interpretação de exames e diagnósticos
Assim, múltiplos marcadores (hematúria, albuminúria, proteinúria, etc) devem sempre ser avaliados, ao invés de associar o aumento de um parâmetro, a creatinina, com a possibilidade de disfunção renal.
Efeitos da suplementação de creatina no metabolismo, imagem obtida em: https://www.mdpi.com/2072-6643/15/6/1466#
A revisão científica em questão também analisa as evidências disponíveis em três diferentes níveis: em estudos com modelos animais, em estudos de caso e em estudos controlados.
Ainda existem lacunas quanto aos possíveis efeitos para a função renal no longo prazo, poucos estudos com temporalidade superior a 16 semanas, por exemplo. Assim, algumas recomendações podem possibilitar um uso mais seguro da creatina:
Utilizar até 20g por dia, de forma racionada;
Abster-se do uso em caso de doença renal pré-existente ou condição clínica que induz à baixa filtração glomerular;
Monitorar a função renal de indivíduos que fazem o uso por longo prazo e são idosos ou apresentam condições clínicas agravadas.
Ter cautela ao indicar produtos com novas formulações;
Os suplementos devem ter nível de pureza atestado e livre de contaminantes.
Conclusão
A creatina é um dos suplementos mais consumidos ao redor do mundo. Apesar dos questionamentos ainda existentes sobre a sua segurança, os resultados de ensaios clínicos não corroboram com tal preocupação.
A suplementação pode aumentar a creatinina sérica de alguns indivíduos, mas esse fator não deve ser considerado isoladamente como indicativo para disfunção clínica. É contraindicada para aqueles com doenças renais pré-existentes, ou com risco de diminuição da taxa de filtração glomerular por condições clínicas, genéticas ou etárias.
Na escolha do produto, os consumidores devem priorizar marcas devidamente testadas e com certificado de pureza, evitando riscos à saúde associados com possíveis contaminantes.
A saúde digestiva engloba diversos fatores importantes do nosso cotidiano. Por exemplo, desde a alimentação até fatores emocionais podem causar impacto no que é chamado de microbiota. Ou seja, no conjunto de microrganismos que habitam o trato gastrointestinal (1).
Além dos sintomas e desconfortos diários, que podem ser melhorados com mudanças na dieta, gerando mais qualidade de vida, com a doença também há interferência na absorção de nutrientes e no funcionamento da microbiota (2).
Como o nutricionista pode auxiliar no cuidado da saúde digestiva?
Avaliar os principais sinais e sintomas, e os impactos na qualidade de vida do paciente;
Analisar o consumo alimentar, histórico de peso ao longo do tempo e risco para desnutrição (principalmente em crianças);
Adaptar a dieta e o consumo alimentar, de acordo com as possibilidades do paciente, para minimizar os sintomas apresentados;
Orientar a restrição e adaptação do consumo de alimentos fermentativos (repolho, couve-flor, feijões, etc.);
Atenção para o uso de produtos com polióis (xilitol, sorbitol, eritritol, etc.);
Investigar carências nutricionais existentes e realizar a suplementação;
Considerar a suplementação de prebióticos e probióticos;
Conscientizar o paciente sobre os fatores externos que interferem nos sintomas (estilo de vida, atividade física, ansiedade, etc.).
Edulcorantes são substâncias com potencial de adoçar preparos, classificadas e regulamentadas como aditivos; podem estar na composição de produtos e suplementos alimentares, ou serem vendidas separadamente (1, 2).
O principal objetivo com o uso de edulcorantes, ou seja, adoçantes, é a substituição do açúcar na alimentação. No entanto, ao longo dos anos, questionamentos científicos surgiram sobre a segurança de certas substâncias e os riscos para a saúde no longo prazo (3).
Confira a seguir o resumo de uma revisão publicada na Nutrients que avaliou as atuais evidências acerca do edulcorante eritritol, atualmente muito utilizado e considerado como “saudável”.
Introdução
Em uma pesquisa com consumidores, no ano de 2015, o mel estava classificado no topo da lista como “mais saudável”, acima do açúcar de coco, estévia, agave e adoçante da fruta-dos-monges (monk fruit). Adoçantes como eritritol, xilitol, sacarina e aspartame estavam no fim da lista.
A classificação desses consumidores partiu de uma percepção que ao ser “mais natural”, uma substância seria “mais saudável”. No entanto, ser natural ou artificial são características que correspondem ao processamento de tais edulcorantes; não a sua saudabilidade.
Apesar da percepção e consumo sobre o eritritol ter mudado nos últimos anos, se tornado mais consumido e considerado saudável, ainda há questionamentos a serem esclarecidos.
Resultados e discussão
Produção: Eritritol é naturalmente encontrado em frutas, como melão, melancia, uvas, ou alimentos fermentados. Também é produzido de forma endógena, a partir de glicose pela via das pentoses-fosfato. Comercialmente a produção acontece via fermentação de monossacarídeos (glicose, frutose, xilose, etc), com novas tecnologias implementadas a cada ano.
Segurança: Os órgãos regulamentadores afirmam que não há riscos toxicológicos, reprodutivos, mutagênicos ou carcinogênicos quanto ao uso de eritritol. Os sintomas gastrointestinais, com o consumo de polióis, acontecem pela retenção de água no intestino, por efeito osmótico, e pela fermentação do que não foi absorvido/excretado. Doses de até 1g/kg/dia são bem toleradas.
Metabolismo: Todos os polióis são metabolizados de maneira similar, absorvidos no intestino delgado e excretados, de 80 a 90%, via urina. Há estudos que sugerem que parte não excretada é oxidada, em eritritose e eritronato. O eritritol apresenta apenas quatro carbonos em sua composição e peso molecular inferior a outros polióis, por isso é absorvido com maior rapidez e não apresenta tanto desconforto gastrointestinal comparado a outros polióis.
Efeitos para a saúde: Apresenta capacidade de inibir a formação de placa dentária, com maior efetividade que o sorbitol ou xilitol. O consumo de grandes doses, 20 a 75 g, não impactou nos níveis de glicose ou insulina. Há investigações sobre um potencial efeito na saciedade. Não apresenta riscos metabólicos, até o momento.
Conclusão
Eritritol é uma substância naturalmente encontrada, com segurança comprovada e um adoçante não calórico. Comparado a outros polióis, xilitol e sorbitol, não causa tantos efeitos gastrointestinais.
Pode ser utilizado como substituto ao açúcar, pois o seu consumo não gera aumento da glicose ou insulina. Apesar de estudos de longo prazo ainda serem escassos, até então, apresenta-se como uma boa alternativa, em comparação aos edulcorantes artificiais.
A suplementação nutricional exerce um importante papel para a adequação clínica em diversas condições de saúde.
Toda suplementação precisa ser realizada com orientação profissional, em dosagens adequadas e de eficácia comprovada por estudos científicos, para não gerar riscos à saúde ou apresentar resultados aquém dos desejados.
Confira o resumo de um artigo científico que avaliou a eficácia da suplementação de potássio para a saúde cardiovascular e melhora da função endotelial.
Introdução
Potássio é um dos principais minerais para a nutrição humana, pois está envolvido em diversos processos biológicos, especialmente na regulação da pressão arterial. Inclusive, o consumo alimentar de potássio está associado inversamente com hipertensão.
Estudos experimentais e observacionais indicam que o potássio aumenta a produção de óxido nítrico e minimiza o efeito deletério de espécies reativas de oxigênio (EROS), processo que apresenta relação com as alterações vasculares na aterosclerose.
A revisão sistemática e meta-análise em questão foi realizada para avaliar os resultados das intervenções clínicas com a suplementação de potássio para melhora da função endotelial.
Metodologia
Os estudos avaliados seguiram os seguintes critérios de inclusão: originais, amostra de idade adulta, comparação de resultados entre grupo controle e grupo experimental. Entre 110 as publicações identificadas, apenas 5 se adequaram aos critérios previamente definidos e análises subsequentes.
Resultados e Discussão
Os resultados de 332 participantes de 4 países foram avaliados, com amostras variadas entre gênero, idade, raça e massa corporal. Todos os estudos avaliaram os resultados de suas intervenções da mesma forma, a excreção de potássio na urina 24h.
A duração dos estudos não foi homogênea, variando entre 6 dias e 6 semanas.
Uma parte dos estudos utilizou placebo como substância controle, outra o consumo usual de potássio. A excreção de potássio foi mais elevada quando a suplementação aconteceu via cápsula, em comparação ao maior consumo do mineral via dieta.
Os resultados avaliados não são suficientes para propor indicações, principalmente quanto ao uso no longo termo, já que o mesmo não foi avaliado. Apesar dos estudos apresentarem metodologias sólidas, entre si, eram heterogêneas, não possibilitando uma comparação viável.
Conclusão
A suplementação de potássio pode contribuir com a função endotelial, e os resultados são diretamente associados à dosagem. Ainda, é necessário maior avaliação quanto aos parâmetros clínicos a serem avaliados e uma dose-resposta a ser indicada.
Abril começa com um marco, no segundo dia do mês, o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. O propósito da Organização das Nações Unidas (ONU) com a criação da data foi atrair mais atenção da população para essa temática (1). Durante todo o mês diversas ações da campanha “Abril Azul” também acontecem.
No autismo, ou seja, no transtorno do espectro autista (TEA) há alterações do desenvolvimento neurológico. Não há características físicas ou comportamentais únicas, e sim uma série de condições atípicas em cada caso, por isso o diagnóstico e tratamento podem ser tão complexos (2,3).
No ano de 2012, a lei brasileira de n. 12.764/2012 instituiu a política nacional de proteção dos direitos da pessoa com transtorno do espectro autista. No artigo terceiro da mesma, é garantido o atendimento multiprofissional e atenção nutricional adequada, assim como acesso à terapia nutricional.
Afinal, qual deve ser a atenção nutricional com pessoas com TEA?
Evitar falas/atitudes capacitistas: quando há pouco conhecimento sobre a condição apresentada, falas ou atitudes podem expressar a ideia de que pessoas com autismo são incapazes (7). Destaque para algumas orientações:
“A pessoa autista é uma pessoa com TEA. Lembre-se de evitar dizer que uma pessoa é portadora de autismo, pois o autismo não é algo que ela possa deixar de portar, mas faz parte dela (…) autismo não é apenas um diagnóstico, mas também uma característica. Sem o autismo, a pessoa autista não existiria. Esta regra vale também para outras deficiências. O autismo é considerado um espectro porque, em cada pessoa, o transtorno se manifesta de maneira específica (…) cada autista é único.”
Alimentação seletiva: pode haver aversão para certos alimentos, ou restrições por intolerância/alergia, resultando na carência do consumo de fibras, ômega 3, ferro, cálcio, zinco, cobre e vitaminas D, A, e C (4);
Alterações gastrointestinais: há maior recorrência de refluxo, dor abdominal, diarreia, constipação e alterações de permeabilidade na microbiota intestinal. Por isso, há benefício do uso de probióticos melhora dos sintomas e modulação de substâncias como serotonina, melatonina e acetilcolina (5,6);
Estado nutricional e suplementação: monitorar exames bioquímicos para avaliar a necessidade de suplementação vitamínica. Não apenas pelo consumo, muitas vezes, limitado de nutrientes, mas também pelo maior potencial de estresse oxidativo e capacidade reduzida de transporte de energia (4);
Estratégias alimentares e nutricionais: há impacto no consumo alimentar pela seletividade/aversão por cores, texturas, cheiros, temperatura, sabor e modos de preparo dos alimentos. O uso estratégico de aminoácidos como cisteína e metionina, além de ácido fólico, vitamina B6 e B12, pode ser interessante; pois são nutrientes essenciais para a síntese de glutationa (GSH) e de S-adenosilmetionina (SAM) (4);
Condutas dietéticas especiais para TEA, como a dieta sem glúten ou caseína (GFCF), dieta dos carboidratos específicos (SCD), dieta mediterrânea e dieta cetogênica ainda apresentam resultados conflitantes entre si e diversas limitações científicas (8).
O principal cuidado a ser adotado é que as mudanças comportamentais no TEA, como a seletividade alimentar, não causem impacto negativo no estado nutricional. Por isso, é essencial que o nutricionista esteja inserido em uma equipe multiprofissional, ou em contato com aqueles que realizam o acompanhamento clínico.
Ser nutricionista autônomo no atendimento nutricional de consultório não é tarefa fácil. Principalmente por quão pouco é aprendido sobre a área ainda na faculdade. Não é incomum escutar relatos de nutricionistas que gostariam de ter aprendido mais sobre a área durante a graduação.
Mesmo para aqueles que se dedicaram aos estágios e cursos durante a formação, a maioria só descobre depois quanto trabalho há por trás da dinâmica dos atendimentos, especializações, ou identificação das próprias habilidades e pontos de melhoria.
Por isso, adquirir mais segurança e obter conhecimento técnico são pontos muito importantes para o nutricionista. Para auxiliar nessa jornada, confira essas quatro dicas essenciais para gerenciar um consultório de nutrição:
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Doenças raras são todas aquelas que atingem um número reduzido de pessoas, 65 em cada 100.000 indivíduos. Podem ter origem genética, que é o caso da maioria, ou infecciosa, inflamatória e autoimune (1).
A Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doenças Raras foi instituída em 2014 no Brasil, com o objetivo de promover ações de prevenção, detecção precoce, tratamento oportuno e redução de incapacidade e cuidados paliativos (2).
Dessa forma, também foi possível instituir incentivos de custeio para a doença na rede de saúde pública. Por não serem medicamentos ou tratamentos desenvolvidos em grande escala, o acesso torna-se caro e difícil (3).
O custo dessas doenças para o orçamento familiar precisa ser considerado no desenvolvimento de políticas públicas, pois muitos deixam os seus empregos para estarem com o paciente, ou vendem bens e pegam empréstimos para bancar os gastos financeiros (4).
O tratamento, muitas vezes, não é apenas farmacológico. Entre as mais de 7 mil doenças descritas como raras, algumas demandam grande atuação do nutricionista, como (5):
Fenilcetonúria;
Doença de Crohn;
Síndrome nefrótica primária;
Síndrome de Cushing;
Lúpus eritematoso sistêmico;
Hipotireoidismo congênito;
Esclerose múltipla;
Entre outras…
Na rede de saúde pública, segundo a Portaria nº 199/2014, o nutricionista apenas é requerido na equipe de tratamento quando a doença fizer parte do grupo “erros inatos do metabolismo” (EIM).
As alterações metabólicas são distintas entre as condições classificadas como EIM. Há duas categorias, a primeira inclui as alterações de um único sistema corporal ou órgão.
A segunda abrange doenças que por alteração bioquímica há o comprometimento de uma via metabólica comum entre diversos órgãos; por serem mais complexas se dividem em três grupos:
Grupo I: Distúrbios de síntese ou catabolismo de moléculas complexas;
Grupo II: Erros inatos do metabolismo intermediário que culminam em intoxicação aguda ou crônica;
Grupo III: Deficiência na produção ou utilização de energia (6).
A atuação do nutricionista em doenças raras acaba sendo mais comum para a área da pediatria, pois é nessa fase da vida que o diagnóstico acontece, por via do teste do pezinho, o qual já teve a ampliação aprovada.
No entanto, como a maioria das condições não tem cura, o paciente precisa conviver com os sintomas e complicações para toda a vida. Nesses casos, a nutrição pode atuar impedindo o agravamento de algumas condições ou melhorando a qualidade de vida dos pacientes.
O câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens, cerca de 15 mil mortes/ano foram registradas para o biênio 2018/2019 e é estimado que 3 milhões de homens convivam com a doença (1).
A campanha Novembro Azul é dedicada para a conscientização da população, buscando mais prevenção e cuidados dedicados ao bem-estar e saúde do homem.
O câncer é uma condição de saúde multifatorial e os fatores ambientais exercem grande participação, principalmente na prevenção. Destaca-se assim a importância da adoção e manutenção de hábitos mais saudáveis (2).
A alimentação está entre os fatores que merecem maior atenção e cuidado. Há um conhecimento geral da população sobre o impacto da alimentação no câncer, mas nem sempre o mesmo é suficiente para favorecer um consumo alimentar estratégico e preventivo (3).
Por isso, a importância da educação nutricional e avaliação do comportamento alimentar. O consumo de certos nutrientes demonstram uma associação interessante com a prevenção do câncer, como o de próstata (4).
Confira:
Selênio e Zinco: além de serem micronutrientes importantes para a resposta imunológica, também atuam na regulação de diversas enzimas importantes.
Figure 2. Possível papel do selênio e zinco para a progressão do câncer de próstata. Fonte: https://doi.org/10.3390/nu13020496
Observa-se que diversos mecanismos estão associados com essa resposta protetora do selênio. Os metabólitos desse nutriente têm o potencial de reduzir a expressão de PSA (Antígeno Prostático Específico). Um estudo baseado em uma amostra de 34.901 participantes demonstrou que havia um menor risco de câncer de próstata em homens com o selênio sérico adequado.
Quanto ao zinco, o mineral atua contribuindo para a regulação da proliferação celular. Um estudo de coorte, com 525 homens diagnosticados com câncer de próstata, mostrou que um consumo aproximado entre 15 a 20 mg/dia foi associado com uma redução em 36% na taxa de mortalidade, comparado com o consumo de 9 a 12.8 mg/dia de zinco.
Licopeno: É um carotenóide com grande potencial antioxidante e atuação no processo de peroxidação. Pode ser encontrado com maior concentração em tomates e seus derivados, como em molhos, pasta e no suco. Também está presente em outros alimentos, como melancia, goji berry e papaia, mas em menor concentração.
Um estudo de coorte mostrou que o papel protetor do consumo de licopeno está mais associado com o período de pré expressão de PSA. Dessa forma, homens saudáveis que consumiram licopeno reportaram um menor risco, em 28%, de apresentarem uma forma letal da doença.
Flavonóides: Isoflavonas, catequinas, resveratrol e outros compostos são encontrados em alta concentração em diferentes alimentos, como em pimentas, maçã, cebola, chá-verde, cereais e grãos.
Figure 3 Possíveis mecanismos de compostos flavonoides nas células no câncer de próstata. https://doi.org/10.3390/nu13020496
Diversos mecanismos estão sendo estudados, principalmente associados aos polifenóis do chá-verde, resveratrol e seus análogos e com isoflavonas. Todos esses demonstram associação com a inibição do crescimento de células cancerígenas, regulação de funções celular e redução do estresse oxidativo.