Atualidades

Artigo Científico: Risco de deficiências nutricionais com uso de GLP-1 para obesidade

A obesidade é uma condição crônica multifatorial associada a alterações metabólicas, inflamatórias e nutricionais. Nos últimos anos, terapias baseadas em agonistas do receptor de GLP-1 e agonistas duplos têm se consolidado como estratégias eficazes para o manejo do peso corporal, promovendo perda ponderal significativa.

Essa evolução no tratamento é muito importante, pois exerce grande impacto na saúde pública. No entanto, apesar dos benefícios clínicos, essas terapias exercem mudanças no estado nutricional que precisam ser consideradas com atenção, como o risco de deficiências de micronutrientes.

Do ponto de vista fisiopatológico, a obesidade pode cursar com inadequações nutricionais, mas o tratamento com GLP-1 potencializa esse cenário ao reduzir o apetite, aumentar a saciedade e retardar o esvaziamento gástrico, promovendo redução significativa da ingestão energética diária.

Estima-se que com a medicação há redução da ingestão calórica em até 20–30%, impactando diretamente a ingestão de micronutrientes. Além disso, eventos adversos gastrointestinais, como náuseas e vômitos, relatados em até 20–40% dos pacientes, podem comprometer ainda mais o consumo alimentar.

Metodologia

O artigo em questão é uma revisão que sintetizou evidências publicadas entre 2010 e 2026 sobre o impacto das terapias incretínicas no estado nutricional de indivíduos com obesidade. Foram incluídos ensaios clínicos, estudos observacionais e análises de farmacovigilância que avaliaram ingestão alimentar, marcadores bioquímicos e desfechos clínicos relacionados a deficiências de micronutrientes em pacientes em uso de agonistas de GLP-1.

Resultados e Discussão

Dados de farmacovigilância e estudos observacionais mostram que até 22,4% dos pacientes apresentam diagnósticos relacionados a deficiências nutricionais cerca de 12 meses após o tratamento. Entre as alterações mais frequentes estão deficiências vitamínicas, anemia por deficiência de ferro e distúrbios hidroeletrolíticos.

Estudos de ingestão alimentar demonstram inadequação frequente no consumo de cálcio, ferro, magnésio e potássio, além de vitaminas A, D, E e K. Em alguns estudos, a ingestão proteica diária ficou abaixo das recomendações em mais de 30% dos pacientes, enquanto a ingestão de fibras permaneceu inferior ao recomendado ao longo do tratamento.

Além da ingestão reduzida, alterações fisiológicas podem contribuir para esse cenário. Evidências indicam redução significativa na absorção de ferro após o uso de semaglutida, com impacto em marcadores como ferritina e hemoglobina.

Eventos adversos gastrointestinais persistentes também contribuem para menor ingestão alimentar. Em casos mais graves, foram descritas complicações como deficiência de tiamina, evidenciando que o impacto pode ultrapassar alterações subclínicas e alcançar relevância clínica.

Limitações

Há predominância de estudos observacionais, heterogeneidade metodológica e ausência de padronização na avaliação de micronutrientes. Além disso, muitos estudos não consideram o estado nutricional basal, além da escassez de ensaios clínicos randomizados com foco em desfechos nutricionais.

Conclusão

As terapias com GLP-1 representam um avanço no tratamento da obesidade, promovendo uma perda de peso consistente e clinicamente significativa. No entanto, o tratamento está associado a um risco aumentado de inadequações e deficiências nutricionais. A incorporação de monitoramento nutricional sistemático e estratégias dietéticas individualizadas é essencial para garantir a segurança e a efetividade do tratamento a longo prazo.

Confira o artigo na íntegra: https://www.mdpi.com/2072-6643/18/4/677

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Artigo Científico: Efeitos terapêuticos da suplementação de vitaminas em pacientes com endometriose

A endometriose afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, é uma condição inflamatória crônica dependente de estrogênio, caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. 

Os principais sintomas incluem dismenorreia, dor pélvica crônica, dispareunia e infertilidade, frequentemente associados a impacto significativo na qualidade de vida.

A fisiopatologia da doença ainda não é completamente elucidada, mas existe desregulação da sinalização estrogênica, resistência à progesterona, inflamação crônica, estresse oxidativo e alterações na resposta imune. 

Embora o tratamento envolva principalmente terapias hormonais e cirurgia, essas abordagens podem apresentar limitações relacionadas a efeitos adversos e recorrência da doença.

Por isso, a suplementação de propriedades antioxidantes e imunomoduladoras, como as vitaminas D, C e E, têm sido investigada como terapia adjuvante capaz de modular vias fisiopatológicas. 

  • Metodologia:

A pergunta de pesquisa buscou avaliar se a suplementação em comparação com placebo ou tratamento padrão, reduz a dor relacionada à endometriose e os níveis de biomarcadores inflamatórios e de estresse oxidativo, além de possíveis efeitos sobre desfechos de fertilidade. A se restringiu a ensaios clínicos randomizados, publicados em inglês, 5639 registros foram identificados e 7 atenderam aos critérios de inclusão.

  • Efeitos da Vitamina D:

A vitamina D tem sido investigada em ensaios clínicos randomizados em mulheres com endometriose utilizando diferentes esquemas de suplementação, incluindo doses elevadas (50.000 UI semanais ou quinzenais) e doses diárias menores, como 2000 UI.

Ensaios que utilizaram doses elevadas de vitamina D observaram redução da dor pélvica, diminuição da proteína C-reativa ultrassensível e aumento da capacidade antioxidante total, após cerca de 12 semanas de intervenção. Também foram descritas alterações em vias moleculares associadas à progressão da doença, como redução da proteína β-catenina ativa no tecido endometrial.

Fonte: Int. J. Mol. Sci. 202627(3), 1476; https://doi.org/10.3390/ijms27031476

Por outro lado, resultados menos consistentes foram observados com doses menores ou em contextos específicos. Em um estudo com 2000 UI diárias por seis meses, a redução da dor foi semelhante à observada no grupo placebo, e a suplementação após cirurgia laparoscópica não demonstrou benefício adicional significativo.

Assim, embora alguns ensaios indiquem efeitos favoráveis sobre dor e marcadores inflamatórios, os resultados permanecem heterogêneos. Diferenças nos esquemas de dose, duração do tratamento e características das participantes, além da ausência de avaliação do status basal de vitamina D em muitos estudos, ainda limitam conclusões definitivas sobre seu papel no manejo da endometriose.

  • Impactos de vitaminas antioxidantes, C e E:

As vitaminas C e E atuam como antioxidantes, neutralizando espécies reativas de oxigênio e reduzindo a peroxidação lipídica, processos envolvidos na inflamação e na dor. A ação conjunta ocorre porque a vitamina E atua como antioxidante lipossolúvel nas membranas celulares, enquanto a vitamina C regenera sua forma ativa, prolongando a ação antioxidante.

A suplementação combinada, 1000 mg/dia de vitamina C e 800 UI/dia vitamina E por 8 a 12 semanas, apresenta potencial de reduzir marcadores de estresse oxidativo e mediadores inflamatórios no líquido peritoneal.

Também há melhora nos sintomas de dor, com reduções de aproximadamente 43% na dor pélvica diária, 37% na dismenorreia e 24% na dispareunia. Apesar desses resultados, os efeitos sobre desfechos de fertilidade permanecem incertos.

Fonte: Int. J. Mol. Sci. 202627(3), 1476; https://doi.org/10.3390/ijms27031476
  • Discussão dos mecanismos de ação:

Na endometriose há desregulação da sinalização estrogênica, resistência à progesterona, inflamação crônica, estresse oxidativo e alterações na resposta imune, processos que favorecem a persistência e a progressão das lesões.Por isso, faz sentido que essas vitaminas tenham atuação importante nessa doença.

A vitamina D pode exercer efeitos moduladores devido os receptores presentes em células endometriais e do sistema imunológico. Há redução na produção de citocinas pró-inflamatórias, como IL-6 e TNF-α, e modulação das vias de sinalização associadas à proliferação e invasão celular.

Já as vitaminas C e E atuam principalmente como antioxidantes, neutralizando espécies reativas de oxigênio e reduzindo a peroxidação lipídica, mecanismos relacionados à amplificação da inflamação e da dor. Ensaios clínicos que avaliaram a suplementação combinada dessas vitaminas observaram reduções em marcadores de estresse oxidativo e em citocinas inflamatórias.

  • Limitações importantes:

Apenas sete ensaios clínicos randomizados atenderam aos critérios de inclusão, e a maioria contou com tamanhos amostrais reduzidos. A heterogeneidade entre as formulações de vitaminas suplementadas, as dosagens, a duração do tratamento, os grupos controle e os desfechos avaliados impossibilitou a realização de uma meta-análise formal, além de limitar a comparação direta entre os estudos.

Futuras pesquisas devem contornar tais limitações, considerando desfechos como dor, qualidade de vida, biomarcadores relevantes e marcadores de fertilidade. Além disso, a estratificação dos dados segundo o status basal de vitaminas, a gravidade da doença e a presença de tratamentos hormonais ou cirúrgicos concomitantes pode ser fundamental para esclarecer quais subgrupos de mulheres com endometriose têm maior probabilidade de se beneficiar da suplementação.

  • Conclusões:

Ensaios clínicos randomizados sugerem que as vitaminas D, C e E podem reduzir a dor relacionada à endometriose e marcadores de estresse oxidativo. Já as evidências quanto aos desfechos de fertilidade ainda são limitadas e inconclusivas.

Considerando as limitações citadas, a suplementação vitamínica pode ser uma abordagem coadjuvante, com potencial benefício para os principais sintomas em mulheres com endometriose. No entanto, evidências mais robustas ainda são necessárias antes que recomendações clínicas mais firmes possam ser estabelecidas.

Confira o artigo na íntegra: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41683896/

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Artigo Científico: Evidências atualizadas sobre o consumo de cafeína na gestação

A cafeína, substância classificada como metilxantina, está presente em café, chás, refrigerantes e diversos produtos alimentares. Estima-se que até 85% da população mundial consuma cafeína diariamente.

A cafeína tem potencial de atravessar a placenta e é estimulante do sistema nervoso central. Por isso, a substância deve ser evitada no período gestacional e os seus impactos são estudados há anos.

Atualmente, as recomendações não são completamente uniformes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um consumo limitado, até 300mg/dia. Já o Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia (ACOG) orienta até 200mg/dia. As diferenças nas recomendações podem gerar confusão, baixa adesão à prescrição e um consumo superior ao limite seguro.

  • Biodisponibilidade e Metabolismo da Cafeína

Durante a gravidez alterações fisiológicas no metabolismo da cafeína ocorrem. A atividade da enzima CYP1A2 diminui ao longo dos trimestres, prolongando a meia-vida da substância, que normalmente varia de 4 a 5 horas, para até 15 horas no terceiro trimestre. A desaceleração desse processo torna a gestante mais suscetível aos efeitos adversos da cafeína, mesmo que padrão de consumo pré-gestação seja mantido.

  • Riscos e Implicações para a Saúde Materno-Fetal

Em relação aos desfechos maternos, não há evidência consistente de aumento do risco de diabetes gestacional com consumo moderado de cafeína. Inclusive, em alguns estudos, ingestões de até 100 mg/dia por 16 a 22 semanas foram associadas à redução de 47% no risco de Diabetes gestacional (DMG).

Também não foi identificada associação significativa entre consumo leve a moderado com a ocorrência de hipertensão gestacional ou pré-eclâmpsia. No entanto, o consumo habitual de café ou chá rico em cafeína esteve associado a risco aproximadamente duas vezes maior de anemia, possivelmente por interferência na absorção de ferro não-heme.

Quanto aos desfechos obstétricos, gestantes com o consumo mais elevado, entre 205 e 5080 mg/dia, apresentaram risco 94% maior de parto prematuro no segundo trimestre. Ingestões superiores a 300 mg/dia também foram associadas a maior risco de perda gestacional recorrente, embora sem significância estatística consistente.

Além disso, as evidências indicam associação dose-dependente entre ingestão materna de cafeína e redução do peso ao nascer, com maior risco de neonato pequeno para idade gestacional (PIG). Mesmo ingestões abaixo de 200 mg/dia foram associadas, em alguns estudos, a um menor peso ao nascer.

Estudos em modelos animais reforçam esses achados ao demonstrarem restrição de crescimento intrauterino, alterações hepáticas e metabólicas, disfunções ósseas e articulares, alterações epigenéticas e genotoxicidade. Contudo, muitos desses experimentos utilizaram doses proporcionalmente superiores às normalmente consumidas por humanos, limitando a extrapolação direta dos resultados.

  • Recomendações e orientações

Considerando que a depuração da cafeína torna-se reduzida durante a gestação, aumentar o intervalo entre ingestões pode ser uma orientação nutricional mais assertiva, sendo o período recomendado de 24 a 36 horas.

É importante também avaliar o teor de cafeína presente em cada alimento ou bebida consumida, uma vez que as concentrações variam conforme tipo de preparo, volume e marca. O artigo em questão apresentou em anexo a tabela abaixo.

  • Limitações

A formulação de recomendações mais precisas é dificultada pela alta variabilidade genética da atividade da CYP1A2. A ausência de mensuração da depuração plasmática de cafeína nos estudos também limita os resultados.

Além disso, a maioria dos estudos depende de autorrelato de consumo, o que introduz viés de mensuração. Fatores como tabagismo, IMC, padrão alimentar, status de ferro e polimorfismos genéticos nem sempre são plenamente controlados, contribuindo para inconsistências entre os achados.

  • Conclusões

O consumo de cafeína durante a gestação apresenta associação com neonato com baixo peso ao nascer, maior risco de prematuridade (altas doses) e possível aumento do risco de anemia materna.

Embora não exista consenso absoluto sobre um limite totalmente seguro, os dados reforçam a necessidade de moderação, avaliação individualizada e acompanhamento profissional durante o pré-natal.

Considerando que a meia-vida pode ultrapassar 15 horas no terceiro trimestre, estratégias baseadas apenas em “mg/dia” podem não refletir o risco acumulativo do consumo de cafeína. Por isso, uma orientação é aumentar o intervalo do consumo, para 24h a 36h.

O estudo analisado reconhece as limitações e propõe que estudos prospectivos robustos sejam realizados, com a finalidade de definir limites seguros baseados em dose-resposta.

Confira o artigo na íntegra: https://www.mdpi.com/2072-6643/17/19/3173

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Atualidades

Artigo Científico: Papel dos suplementos nutricionais e estilo de vida para o “timing” da menopausa

A idade da menopausa natural é um determinante relevante para a saúde feminina. As mulheres passam cerca de um terço da vida no período pós-menopausa, por isso que identificar os fatores que influenciam a ocorrência desse momento é uma questão muito importante.

A principal característica da menopausa é a ausência das menstruações, por pelo menos 12 meses, sem nenhuma intervenção ou causa médica. Geralmente ocorre entre os 48 e 52 anos. A fase de transição do período reprodutivo, ou fértil, para o não reprodutivo na vida da mulher é chamado de climatério.

A menopausa considerada precoce (antes dos 45 anos) está associada a maior risco de osteoporose, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, depressão e mortalidade geral. Já a menopausa chamada tardia (depois dos 55 anos) se relaciona ao risco de cânceres hormônio-dependentes.

O artigo em questão avaliou a associação entre a idade da menopausa com fatores de estilo de vida (tabagismo, consumo de álcool, prática de atividade física, etc.) e a utilização de suplementos dietéticos entre mulheres no Reino Unido.

Metodologia

Este estudo analisou dados de 3.566 mulheres do UK Women’s Cohort Study, uma coorte prospectiva. O uso de suplementos dietéticos antes da menopausa e hábitos de estilo de vida foram avaliados por questionários validados. As associações com a idade da menopausa natural foram examinadas por modelos de riscos proporcionais, ajustados para IMC, tabagismo, consumo de álcool, atividade física e nível socioeconômico.

Resultados e Discussão

O uso regular de óleo de peixe (ômega-3)vitaminas do complexo Bmisturas antioxidantes e vitamina C esteve associado a uma menopausa mais tardia, com redução significativa do risco de ocorrência precoce do evento. O ácido fólico apresentou tendência limítrofe, enquanto o uso de multivitamínicos não mostrou associação relevante.

As análises destacaram consumo de carne vermelha, IMC, nível educacional, duração do tabagismo e consumo de peixe como importantes preditores da idade da menopausa, reforçando o caráter multifatorial do envelhecimento reprodutivo.

As evidências sobre a associação com a idade da menopausa natural ainda são limitadas e inconsistentes. A maioria dos estudos anteriores avaliou nutrientes isolados ou padrões alimentares, sem integrar de forma sistemática o uso habitual de suplementos e variáveis de estilo de vida em grandes coortes populacionais.

Por se tratar de um estudo observacional, não é possível estabelecer causalidade. A idade da menopausa e o uso de suplementos foram autorreferidos, embora estudos de validação indiquem boa confiabilidade. Além disso, os dados refletem padrões alimentares e de suplementação dos anos 1990, o que pode limitar a extrapolação direta para populações contemporâneas.

Conclusão

Os achados sugerem que o uso habitual de determinados suplementos dietéticos, especialmente óleo de peixe, vitaminas do complexo B, antioxidantes e vitamina C, está associado a um início mais tardio da menopausa natural.

Em contrapartida, fatores como tabagismo e maior consumo de carne vermelha se associam a uma menopausa mais precoce. Embora promissores, esses resultados reforçam a necessidade de estudos intervencionais para confirmar relações causais.

Confira o artigo na íntegra: https://www.mdpi.com/2072-6643/17/18/2921

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Atualidades

Artigo Científico: Suplementação de glutamina

A glutamina é um aminoácido não essencial, naturalmente presente em nosso organismo, sendo inclusive o mais abundante (1). É comercializado e consumido na forma de peptídeos de glutamina, obtidos por diferentes métodos, a depender da funcionalidade desejada. Quando obtidos por hidrólise enzimática não oferecem risco de reações adversas ao organismo (2).

Em algumas doenças, células do sistema imunológico e órgãos como intestino e rins utilizam quantidades mais elevadas de glutamina, que superam a produção endógena, reduzindo os níveis plasmáticos e musculares para suprir tal demanda. Por isso que esse aminoácido também é classificado como condicionalmente essencial (1).

Há anos o papel da suplementação de glutamina para a imunidade e no contexto oncológico são estudados. Depois, pesquisas passaram a avaliar o mecanismo de ação no trato gastrointestinal; visto que o intestino está entre os tecidos de maior consumo, utilizando cerca de 30% da glutamina corporal total (1).

Associação com saúde intestinal:

A barreira intestinal é uma estrutura complexa, responsável por regular a troca de substâncias entre o meio externo e o organismo. Quando há comprometimento de sua integridade, ocorre prejuízo na digestão e absorção de nutrientes, redução da defesa contra patógenos e maior risco de doenças sistêmicas (2).

Diversas evidências indicam que a glutamina modula a expressão estruturas conhecidas como tight junctions. A manutenção da permeabilidade intestinal é especialmente relevante em condições como doença de Crohn e doença celíaca (1).

Além de auxiliar na integridade da barreira intestinal, estudos também indicam inibir a ativação de NF-κB e STAT, reduzir a expressão da enzima iNOS e de citocinas inflamatórias, como IL-6, TNF-α e IL-8 (1).

A glutamina também atua como principal fonte de energia para os enterócitos e modula vias celulares de reparo endotelial. Com tantos benefícios, fica evidente o papel da glutamina na preservação da integridade estrutural e funcional do intestino, especialmente em condições fisiológicas e patológicas (2).

Evidentemente, dietas ricas em fibras e nutrientes específicos também se associam à manutenção da barreira intestinal. Como suplemento, a glutamina atua como combustível primário para enterócitos e células imunes, como leucócitos e linfócitos T. Entretanto, ainda existem inconsistências nos resultados apresentados a depender da dose e população estudada (3).

Estudos em humanos sugerem que suplementações por períodos inferiores a duas semanas, mas com doses superiores a 30 mg/dia, apresentam efeito mais consistente na redução da permeabilidade. Esses achados referem-se a indivíduos com doença de Crohn, câncer, HIV, pancreatite, pacientes críticos no pós-operatório, queimaduras e sepse (3).

Os estudos mais robustos realizados em humanos utilizam diferentes metodologias, dificultando assim conclusões mais definitivas sobre a eficácia clínica. É importante considerar que os resultados variam de acordo com população, dose e via de administração. Por isso, mais pesquisas são necessárias para definição de recomendações ideais (3).

Quanto à segurança de consumo e efeitos adversos, tanto em jovens quanto em idosos, a suplementação de glutamina demonstrou boa tolerabilidade. A dose considerada segura é de aproximadamente 0,15 mg/kg/dia, não foram observadas alterações em IMC, creatinina (toxicidade renal), AST/ALT (toxicidade hepática) ou ureia (catabolismo proteico). Em estudos com doses de 0,50 mg/kg/dia houve elevação dos níveis de ureia, creatinina e redução da taxa de filtração glomerular (4).

Associação com depressão:

Para além da saúde intestinal, esse aminoácido também exerce função como neurotransmissor. Evidências recentes mostram que a deficiência de glutamina na região pré-frontal medial, em modelos animais, induz comportamento depressivo, leve déficit cognitivo e redução da neurotransmissão glutamatérgica (5).

A suplementação demonstrou efeitos antidepressivos e melhora cognitiva em estudos com animais e humanos. As doses variam conforme o objetivo e a população estudada. Em modelos animais para depressão e comprometimento cognitivo, as doses são muito menores do que em estudos clínicos, ainda assim demonstrando efeito benéfico (5).

Fonte imagem: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10816396/

Associação com câncer:

Como mencionado anteriormente, a relação entre glutamina e câncer é estudada há anos. Na doença, as células tumorais podem utilizar glutamina como substrato metabólico, assim como glicose e leucina, contribuindo para processos celulares ligados ao desenvolvimento de processos tumorais (6.)

Por outro lado, o consumo de glutamina como suplemento também é relevante na defesa antioxidante, saúde intestinal, cognição e metabolismo celular sistêmico. Inclusive, a suplementação entre 10–30 g/dia em pacientes submetidos à quimioterapia e radioterapia não apresentaram impacto negativo no tumor ou em desfechos clínicos, indicando segurança de uso nessa dosagem para a população estudada (5).

Fonte imagem: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10930819/

Dessa forma, compreende-se as dúvidas quanto ao uso de glutamina durante o tratamento oncológico. Entretanto, é uma substância estudada há anos como terapia adjuvante. Além de seu papel estrutural para a membrana intestinal, pode auxiliar na função imunológica, reduzir toxicidades do tratamento, e contribuir para melhor qualidade de vida do paciente com câncer (7).

Ainda são necessários mais estudos para definir doses ideais, possíveis interações e segurança a longo prazo. As evidências disponíveis indicam que a glutamina não aumenta o crescimento tumoral nem compromete tratamentos. Em estudo com mulheres com câncer de mama, não houve diferença na redução tumoral entre suplementação e placebo (7).

Associação com desempenho esportivo:

Assim como em situações de doenças, a prática intensa de atividade física pode levar a uma alta utilização de glutamina pelo organismo, gerando uma depleção em tecidos como o intestino e afetando negativamente a barreira gastrointestinal.

Portanto, em teoria, ingerir glutamina antes ou durante o exercício poderia auxiliar na manutenção da saúde intestinal e compensar as depleções causadas pelo esforço físico.

Na prática o autor descreveu um estudo realizado com corredores em que de forma geral, uma dose alta (0,9 g/kg de massa livre de gordura) reduziu a permeabilidade gastrointestinal em comparação ao placebo. No entanto, o estudo em questão foi realizado em uma amostra pequena, apenas 8 participantes, e apresentou outras limitações.

Outras evidências indicam que a dependência das células intestinais em relação à glutamina pode ser reduzida quando glutamina e glicose estão disponíveis simultaneamente. Dessa forma, é incerto se a glutamina oferece benefícios adicionais quando existe consumo simultâneo de carboidrato.

Uma ressalva importante é que muitos estudos não avaliaram sintomas gastrointestinais, uma questão importante para a performance esportiva. Já em outros, > 50% da amostra declarou sintomas gastrointestinais leves a moderados nas duas horas iniciais após suplementação.

O autor conclui que até o momento a utilidade clínica de glutamina entre atletas ainda é especulativa (8).

O que achou do nosso resumo sobre o tema, nutri? Sentiu falta de alguma aplicabilidade? Deixe a sua sugestão aqui nos comentários! Até mais!

Referências:

  1. Glutamine enhances intestinal barrier function and tight junction The Roles of Glutamine in the Intestine and Its Implication in Intestinal Diseases. Link de acesso: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5454963/
  2. Glutamine Peptides: Preparation, Analysis, Applications, and Their Role in Intestinal Barrier Protection. Link de acesso: https://www.mdpi.com/2072-6643/17/6/1017
  3. A systematic review and meta-analysis of clinical trials on the effects of glutamine supplementation on gut permeability in adults. Link de acesso: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/pmid/39397201/
  4. Tolerability of glutamine supplementation in older adults: a double-blind placebo-controlled randomized clinical trial. Link de acesso: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11136481/
  5. The Role of Glutamine Homeostasis in Emotional and Cognitive Functions: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10816396/
  6. Glutamine Metabolism: Molecular Regulation, Biological Functions, and Diseases. Link de acesso: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12188105/
  7. Glutamine Supplementation as an Anticancer Strategy: A Potential Therapeutic Alternative to the Convention. Link de acesso: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10930819/
  8. Sport Supplements and the Athlete’s Gut: A Review. Link de acesso: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34814219/
Atualidades

Nova diretriz sobre dislipidemias e prevenção da aterosclerose

A principal causa de morte em todo o mundo é a doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA). É essencial que diretrizes sejam atualizadas à realidade do país, assim os profissionais da saúde podem melhorar o diagnóstico precoce, a prevenção e o tratamento.

A aterosclerose é uma doença crônica, silenciosa e progressiva, que pode surgir já na primeira década de vida. Por isso, há oportunidades de intervenção e prevenção ao longo da vida. A diretriz atual divide a recomendação dessa forma, da infância à terceira idade; além de indicar diferenças no tratamento para populações específicas.

Sobre o diagnóstico, a avaliação laboratorial considera os parâmetros lipídios e das apolipoproteínas. A diretriz descreve aspectos essenciais para que os laboratórios adequem seus protocolos e garantam resultados confiáveis. Os valores referenciais e de alvo terapêutico do perfil lipídico são diferentes, dependendo se houve jejum prévio da coleta (12 horas) ou sem jejum.

A estratificação do risco cardiovascular é a base para a tomada de decisão clínica na prevenção da doença cardiovascular. A diretriz recomenda que o risco cardiovascular aterosclerótico seja categorizado em baixo, intermediário, alto, muito alto e extremo. Os parâmetros laboratoriais para cada marcador também variam.

A redução dos níveis de colesterol da lipoproteína de baixa densidade (LDL-c) tem sido o principal alvo terapêutico para prevenir o desenvolvimento da aterosclerose. Os níveis esperados dependem da categoria de risco do paciente, como demonstrado na figura acima.

A concentração sérica de triglicerídeos (TG) é um marcador de risco residual aterosclerótico. Níveis séricos ≥ 150 mg/dL em jejum, ou ≥ 175 mg/dL no estado pós-prandial, são considerados anormais. A meta terapêutica consiste em manter níveis séricos abaixo desses limites.

A dosagem dos níveis séricos de apolipoproteína B (ApoB) também é um marcador para o risco cardiovascular, pois reflete o número total de partículas aterogênicas plasmáticas, já que cada partícula lipoproteica potencialmente aterogênica presente na circulação (LDL, VLDL, etc.) contém exatamente uma molécula de ApoB.

No tratamento farmacológico as estatinas são a classe de medicamento mais comuns, apresentam eficácia comprovada na redução dos níveis de LDL-c e na prevenção de eventos cardiovasculares. Foi observado aumento da glicemia, maior risco de início de DM tipo 2 e da hemoglobina glicada (HbA1c) com o uso, mas esse é um risco para quem faz o uso em doses elevadas, em idosos e em indivíduos com fatores de risco para diabetes.

No entanto, existe a estimativa de 1 novo caso de diabetes, para cada 255 pessoas tratadas com estatinas por um período de 4 anos. Ou seja, fica claro que a redução absoluta do risco de DCV nesses pacientes supera os possíveis efeitos adversos de um pequeno aumento na incidência de diabetes.

Quanto ao tratamento não farmacológico, existem algumas intervenções nutricionais propostas:

Existem suplementos e alimentos funcionais com nível de evidência moderada para a redução dos níveis de LDL-c, são eles: arroz de levedura vermelha, fitoesteróis e probióticos. Chá verde, gergelim e proteína de soja também são estudados. Já o óleo de peixe (EPA/DHA) exerce impacto na redução dos níveis de TG.

Além disso, também é recomendado:

  • Cessação do tabagismo: o risco de doenças cardiovasculares é cinco vezes maior em fumantes;
  • Controle de peso: perder entre 8 e 10%, em casos de obesidade, leva à redução de 5-10 mg/dL nos níveis de LDL-c, de 20-30 mg/dL em TG e um aumento de 3-5 mg/dL em HDL-c;
  • Espiritualidade: promove melhor enfrentamento de doenças e menor prevalência de hábitos inadequados;
  • Prática de atividade física: 150 minutos de intensidade moderada, ou 75 minutos de intensa, por semana;
  • Limitar o consumo de bebidas alcoólicas: 100 g por semana, para homens ou mulheres.

Reconhecendo a aterosclerose como um processo progressivo que começa cedo, a nova diretriz propõe um modelo mais contínuo e integrado de cuidado, com potencial de transformar a prática clínica e reduzir de forma significativa o risco cardiovascular da população brasileira.

A diretriz destaca que algumas populações exigem atenção diferenciada no manejo do risco cardiovascular. Entre elas estão pessoas com insuficiência cardíaca, HIV, diabetes, doença renal crônica, hipotireoidismo, obesidade e doenças hepáticas crônicas, além de transplantados e indivíduos com doenças imunomediadas.

Crianças, idosos, gestantes e mulheres com alterações específicas do ciclo reprodutivo também requerem abordagem individualizada, por conta das particularidades metabólicas em cada caso.

Reconhecer essas especificidades é essencial para ampliar a efetividade das intervenções e reduzir o risco ao longo do curso de vida. Por isso, confira o documento na íntegra: https://abccardiol.org/article/diretriz-brasileira-de-dislipidemias-e-prevencao-da-aterosclerose-2025/

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Parte II – Posicionamento: Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher

Os distúrbios cardiometabólicos são responsáveis por grande parte da taxa de morbimortalidade entre as mulheres brasileiras. São eles: obesidade e síndrome metabólica, diabetes mellitus tipo 2, doença hepática esteatótica metabólica (DHEM) e doença renal crônica (com destaque para a doença renal diabética). Sabia que há diferenças importantes entre homens e mulheres que apresentam as mesmas condições clínicas?

Além disso, condições como síndrome dos ovários policísticos, ganho excessivo de peso na gestação, complicações hipertensivas e menopausa precoce adicionam camadas de complexidade ao risco cardiometabólico feminino. Reconhecer os impactos dessas condições é essencial para a prevenção, rastreamento e intervenções nutricionais. Confira como cada fase de vida da mulher gera marcas no risco cardiometabólico!

1. Cardiometabolismo no período infanto-juvenil:

A puberdade e a adolescência constituem fases sensíveis para a programação metabólica. Alterações no timing puberal, como uma menarca precoce ou tardia, estão associadas com maior risco futuro de obesidade, dislipidemia, diabetes e eventos cardiovasculares.

Irregularidades menstruais persistentes durante a adolescência devem ser consideradas sinais de alerta, pois podem refletir resistência à insulina e predisposição para síndromes endócrinas, como a SOP, por exemplo. Por isso, a importância de uma avaliação clínica abrangente que inclua histórico menstrual, biomarcadores inflamatórios, HOMA-IR, perfil lipídico e composição corporal.

A relação com transtornos alimentares nessa fase é bidirecional: o excesso de peso eleva o risco de bulimia e compulsão alimentar, enquanto esses quadros favorecem ganho adicional de peso, intensificando as repercussões cardiometabólicas.

2. Risco cardiometabólico e idade reprodutiva:

Condições inflamatórias crônicas, como a endometriose e psoríase, também elevam o risco cardiovascular. Essas condições, geralmente, estão associadas à alterações de biomarcadores inflamatórios, hipertensão arterial, ocorrência de doença coronariana e acidente vascular cerebral (AVC).

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é um dos principais marcadores de risco cardiometabólico na idade reprodutiva. Essa condição está associada com obesidade central, resistência à insulina, dislipidemia aterogênica, apneia do sono, aterosclerose precoce, maior prevalência de depressão e doença hepática esteatótica metabólica.

A infertilidade e seus tratamentos também influenciam o risco cardiometabólico no futuro. Técnicas de estimulação ovariana podem aumentar a ocorrência de tromboembolismo, pré-eclâmpsia e outras complicações metabólicas, com repercussões que podem se prolongar por anos.

Há adaptações fisiológicas na gestação, como a resistência insulínica, alterações inflamatórias e dislipidemia gestacional, que ampliam o risco materno e fetal, o qual se estende ao pós-parto se houver manutenção do perfil lipídico alterado. Já a lactação, quando acontece, exerce um efeito protetor para a saúde da mulher.

3. Impactos da transição menopausal, menopausa e pós-menopausa:

A queda progressiva do estradiol amplifica adiposidade abdominal, aumenta a resistência à insulina e favorece a elevação do colesterol LDL, triglicerídeos e pressão arterial. Assim, com a chegada da menopausa há maior predisposição para aterosclerose, DM2 e disfunção endotelial.

Mulheres com menopausa precoce (40–45 anos), ou insuficiência ovariana prematura (<40 anos), apresentam risco ainda maior para eventos cardiovasculares, incluindo doença isquêmica do coração e AVC antes dos 60 anos. A literatura demonstra associação consistente entre menopausa precoce e mortalidade cardiovascular.

A terapia hormonal da menopausa tem papel limitado nesse cenário e não deve ser utilizada para prevenção primária ou secundária para distúrbios cardiometabólicos. A implantação de testosterona, ou combinações hormonais sem evidências, também não são recomendadas devido ao risco desconhecido de efeitos cardiovasculares e oncológicos.

Intervenções nutricionais práticas:

A nutrição ocupa lugar central na prevenção e manejo dos distúrbios cardiometabólicos ao longo da vida da mulher. Protocolos focados em reduzir carboidratos simples e gorduras saturadas, aumentar o consumo de fibras e adotar padrões alimentares como dieta mediterrânea demonstram eficácia na melhora da glicemia, do perfil lipídico e da resistência à insulina.

O posicionamento reforça a importância de estratégias individualizadas, respeitando a cultura alimentar, preferências regionais e condições socioeconômicas. O acompanhamento no longo prazo aumenta a adesão no tratamento e garante resultados clínicos mais duradouros.

O posicionamento deixa claro que a intervenção nutricional é muito importante. Seguir um padrão alimentar saudável, de forma consistente, auxilia na perda de peso ponderal, melhora os biomarcadores inflamatórios e colabora para a prevenção de doenças cardiovasculares.

Leia o resumo anterior sobre o tema: https://blog.allivici.com/index.php/2025/11/18/posicionamento-saude-cardiometabolica-ao-longo-do-ciclo-de-vida-da-mulher/

Confira o documento na íntegra: https://abccardiol.org/article/posicionamento-sobre-a-saude-cardiometabolica-ao-longo-do-ciclo-de-vida-da-mulher-2025/

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Atualidades

Posicionamento: Saúde Cardiometabólica ao Longo do Ciclo de Vida da Mulher

Introdução

A saúde cardiometabólica da mulher é influenciada por uma combinação de fatores biológicos, hormonais e comportamentais que se modificam ao longo da vida. O posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia destaca justamente marcadores importantes em cada período: puberdade, gestação, puerpério e menopausa.

Esses períodos representam mudanças profundas no metabolismo, no perfil inflamatório e na regulação hormonal. Inclusive, essas marcas podem gerar vulnerabilidades que se acumulam com o passar dos anos.

Por isso, compreender esses ciclos é essencial para identificar riscos mais precocemente e implementar estratégias de individualizadas de cuidado.

Implicações da inflamação no sistema cardiovascular

A inflamação é um mecanismo-chave no desenvolvimento das doenças cardiovasculares femininas. Processos inflamatórios persistentes, mesmo que discretos, podem desencadear disfunção endotelial, reduzir a capacidade de vasodilatação e favorecer a formação de placas ateroscleróticas.

Esse cenário pode ser intensificado por eventos específicos do ciclo de vida, como complicações gestacionais, que ampliam o estado inflamatório sistêmico e aumentam o risco cardiometabólico no futuro. Assim, a inflamação passa a ser um elo central entre eventos reprodutivos e desfechos cardiovasculares futuros.

Impacto dos esteroides sexuais na saúde cardiometabólica

Os esteroides sexuais exercem papel determinante na proteção cardiovascular feminina. Durante a vida reprodutiva, o estrógeno contribui para o equilíbrio lipídico, melhora a sensibilidade à insulina, favorece a vasodilatação e atenua processos inflamatórios.

Contudo, as flutuações hormonais reduzem essas defesas, principalmente com a queda progressiva desses hormônios na transição da menopausa. A diminuição do estrógeno favorece o acúmulo de gordura central, aumenta a resistência à insulina e eleva os níveis de lipoproteínas aterogênicas, configurando um terreno mais propício para o surgimento de doenças cardiometabólicas.

Indicadores de saúde cardiometabólica

Além dos marcadores clínicos clássicos, como glicemia, pressão arterial e perfil lipídico, o posicionamento reforça que características reprodutivas devem ser reconhecidas como indicadores adicionais de risco. A avaliação do ciclo menstrual possa ser usada como um sinal vital adicional na investigação do estado geral de saúde das mulheres.

História de diabetes ou hipertensão gestacional, parto prematuro, síndrome dos ovários policísticos, menopausa precoce e alterações menstruais recorrentes são exemplos de eventos que refletem disfunções metabólicas subjacentes.

Quando integrados à avaliação de rotina, esses indicadores permitem identificar mulheres com maior risco cardiovascular e orientar intervenções preventivas com mais precisão. Alguns biomarcadores importantes a serem considerados: perfil lipídico, glicemia e hemoglobina glicada, proteína C reativa, fibrinogênio, homocisteína e adipocinas.

No próximo texto abordaremos sobre os próximos capítulos desse posicionamento! Confira na íntegra: https://abccardiol.org/article/posicionamento-sobre-a-saude-cardiometabolica-ao-longo-do-ciclo-de-vida-da-mulher-2025/

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Artigo Científico: Efeito de intervenção nutricional nos sintomas psicológicos da síndrome pré-menstrual

A síndrome pré-menstrual (SPM) afeta quase metade (48%) da população mundial feminina em idade reprodutiva. Já a Síndrome disfórica pré-menstrual (SDPM), acomete até 8% das mulheres, apresentando sintomas emocionais mais intensos e recorrentes. Esses distúrbios podem ocasionar prejuízos à qualidade de vida, ao desempenho no trabalho ou nos estudos, além de custos indiretos significativos.

Os tratamentos convencionais envolvem anticoncepcionais hormonais, por vezes combinados com antidepressivos, para amenizar sintomas emocionais, principalmente inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS). Muitas abordagens também envolvem ansiolíticos, diuréticos e analgésicos.

Contudo, muitos desses tratamentos apresentam efeitos adversos ou resposta limitada em algumas mulheres, o que tem motivado a busca por alternativas complementares e menos invasivas. Assim, estratégias como mudanças no estilo de vida, prática regular de atividade física e manejo do estresse vêm sendo cada vez mais incorporadas aos protocolos de tratamento.

Da mesma forma, há crescente interesse em intervenções nutricionais como parte do tratamento. Porém, ainda existem lacunas no meio científico sobre o efeito de alimentos ou suplementos para os sintomas psicológicos da SPM (humor deprimido, irritabilidade, ansiedade ou alterações comportamentais).

Por isso, o estudo em questão teve como objetivo conduzir uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados para avaliar os efeitos de intervenções nutricionais nos sintomas psicológicos da SPM em mulheres em idade reprodutiva.

Metodologia

Foram realizadas buscas em cinco bases de dados, por ensaios clínicos randomizados (ECRs) em inglês publicados desde 2022, com análise de intervenções nutricionais em mulheres em idade fértil para mensuração de desfechos psicológicos associados à SPM. A triagem, extração de dados e avaliação de risco de viés foram conduzidas por três revisores independentes, utilizando o instrumento Cochrane Risk of Bias 2.

Resultados e Discussão

A busca resultou em 32 artigos, envolvendo 3.254 participantes com idades entre 15 e 50 anos. As intervenções que apresentaram efeitos consistentes e positivos sobre os sintomas psicológicos da SPM foram: suplementação com vitamina B6 (≥ 50 mg/dia), cálcio (≥ 1000 mg/dia) e zinco (≥ 30 mg/dia).

Por outro lado, as evidências foram insuficientes ou inconsistentes para vitamina B1, vitamina D, carboidratos integrais, isoflavonas de soja, ácidos graxos alimentares, magnésio, multivitamínicos ou dietas específicas para SPM. É importante destacar que apenas um estudo foi classificado com baixo risco de viés.

Oscilações hormonais no ciclo menstrual interagem com neurotransmissores e impactam em mecanismos de estresse oxidativo e inflamação, o que pode exacerbar sintomas emocionais na SPM. A suplementação de cálcio e zinco pode auxiliar via modulação de neurotransmissores e redução de estresse oxidativo, enquanto a vitamina B6 exerce papel como cofator na síntese de GABA, com potenciais efeitos ansiolíticos.

Contudo, algumas limitações precisam ser indicadas: a heterogeneidade entre os estudos (principalmente de dose e duração dos estudos), há muitas publicações com risco de viés elevado, além da impossibilidade de realizar uma meta-análise combinada devido à variabilidade metodológica.

Conclusão

Este trabalho reforça que existem evidências de que nutrientes podem melhorar os sintomas psicológicos associados à SPM em mulheres em idade reprodutiva, com destaque para vitamina B6, cálcio e zinco.

Esses achados estão alinhados com hipóteses anteriores, que relacionavam micronutrientes ao humor e bem-estar nessa fase do ciclo menstrual.

Contudo, ainda não é possível emitir recomendações conclusivas para a prática clínica. São necessários mais ensaios de alta qualidade, com protocolos padronizados e melhor avaliação dos níveis basais dos nutrientes.

Confira o artigo na íntegra: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38684926/

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Artigo Científico: Uma revisão sistemática e meta-análise do efeito da suplementação de vitamina D na depressão

Depressão e ansiedade são grandes preocupações na saúde pública global. Estima-se que cerca de 280 milhões de pessoas sofrem de depressão. A ansiedade também é um dos transtornos mentais mais comuns, com aumento de 50%, no número absoluto de pacientes, desde 1990. Durante a pandemia da COVID-19, observou-se um aumento nos sintomas de ansiedade e depressão em diversas populações ao redor do mundo.

Estudos observacionais já indicaram associação entre a deficiência de vitamina D e o risco aumentado de depressão. A vitamina D atua na regulação do sistema imunológico, promoção do crescimento celular e redução de processos inflamatórios. Além disso, influencia no funcionamento de genes essenciais para o sistema cerebral.

No entanto, é preciso analisar os efeitos da suplementação de vitamina D sobre os sintomas depressivos, considerando o impacto dose-resposta. Assim, o estudo em questão teve como objetivo realizar uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados com meta-análise de dose-resposta.

Metodologia

Buscas foram feitas em bases de dados como PudMed, Scopus e Web of Science, para encontrar estudos relevantes cientificamente, escritos em inglês e publicados após dezembro de 2022. Quanto aos critérios de inclusão, destaca-se: apenas artigos realizados em humanos, adultos, com grupo-controle e período de intervenção maior que quatro semanas.

Resultados e Discussão

A busca inicial teve como resultado 2243 publicações, após a revisão e exclusão, apenas 31 estudos foram incluídos na meta-análise de dose-resposta. A amostra total foi de 24.189 participantes, sendo 12.091 do grupo controle e 12.098 no grupo de intervenção.

Em 29 estudos a intervenção foi apenas de vitamina D3; mas, em um dos ensaios a vitamina D foi administrada combinada com cálcio, já em outro, com ômega-3. O período da intervenção da maioria dos estudos foi de 4 a 24 semanas, já as doses variaram de 1000 a 15.000 UI/dia.

Os resultados do estudo indicaram, com evidência de certeza moderada, que a suplementação com vitamina D tem efeitos benéficos sobre os sintomas depressivos em adultos. Verificou-se redução significativa dos sintomas depressivos a cada 1000 UI de vitamina D3 por dia. Essa melhora foi proporcional até a dose de 8000 UI/dia, ponto em que foi observado o maior efeito. Doses superiores não apresentaram benefícios adicionais.

A duração da intervenção influenciou os resultados. Estudos com até 8 semanas, ou aqueles entre 8 e 24 semanas, apresentaram efeitos mais fortes na redução dos sintomas depressivos. O período de 8 semanas parece ser o marco para que os efeitos da vitamina D começam a se manifestar, seja na prevenção ou no tratamento da depressão.

Em estudos com duração superior a 52 semanas, observou-se uma tendência de melhora, mas menos intensa. A redução da eficácia em intervenções mais longas pode estar associada à menor adesão, desistência dos participantes ou viés de atrito.

Há diversas hipóteses fisiológicas para os efeitos da vitamina D na depressão. Destacam-se suas ações na sinalização celular, neuroproteção, modulação imunológica, síntese de serotonina e redução de inflamações. Além disso, suas propriedades antioxidantes e influência nos ritmos circadianos podem contribuir para a melhora do humor.

Apesar dos pontos fortes deste estudo, uma limitação importante a ser destacada é que existem outros fatores além da suplementação que podem influenciar os sintomas depressivos. Além disso, ainda há evidências limitadas sobre os efeitos da vitamina D na ansiedade e na remissão da depressão. Essas variações podem ser explicadas por diferenças na dose, tipo de suplemento, duração do tratamento e características dos participantes.

Conclusão

Estudos epidemiológicos populacionais já haviam apontado uma associação entre baixos níveis séricos de vitamina D e maior risco de depressão. Os achados do estudo atual estão alinhados com essa hipótese, além de demonstrar que também há evidências que sugerem benefícios da vitamina D na redução de sintomas depressivos.

A suplementação pode melhorar significativamente os sintomas depressivos em intervenções de até 24 semanas, especialmente na dose de 8000 UI/dia. No entanto, não houve efeito sobre a remissão da depressão ou sintomas de ansiedade. São necessários mais estudos de alta qualidade para avaliar sua eficácia a longo prazo, que considerem os níveis iniciais de vitamina D dos participantes.

Confira o artigo na íntegra: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39552387/

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Atualidades

Nutrição e Saúde Cardiovascular: Dia Mundial do Coração

As doenças cardiovasculares costumam ser a principal causa de morte no Brasil. Para a prevenção é essencial reduzir comportamentos de risco, como o sedentarismo, tabagismo e a alimentação inadequada (1). Sendo assim, a nutrição tem um papel importante na promoção de mudanças.

A dieta DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension) começou a ser mais estudada a partir dos anos 90. Hoje é muito conhecida como uma proposta dietética de tratamento e prevenção para doenças cardiovasculares, principalmente a hipertensão arterial.

Nesse modelo dietético é preconizado o consumo de frutas, verduras, legumes, produtos lácteos com baixo teor de gordura, cereais integrais, peixes, aves e nozes; além disso, incentiva restringir o consumo de carnes vermelhas e processadas, alimentos com alto teor de sódio e bebidas açucaradas.

Os benefícios observados são principalmente atribuídos ao maior consumo de nutrientes que contribuem para redução dos níveis pressóricos, como potássio (K), magnésio (Mg), cálcio (Ca) e fibras alimentares (2).

Em solo brasileiro é um padrão alimentar com obstáculos para a adesão, mas temos o Manual de Alimentação Cardioprotetora. Além de eixos estruturantes com conceitos regionais, também há grupos alimentares de acordo com a bandeira nacional: verde, amarelo e azul (3).

Há dois estudos muito interessantes que utilizam esse manual:

Grupo verde: alimentos cardioprotetores, ou seja, que contêm vitaminas, minerais, fibras e antioxidantes (verduras, frutas, legumes, leguminosas, leite e iogurte desnatado);

Grupo amarelo: alimentos in natura, minimamente processados ou ingredientes culinários que devem ser consumidos com moderação, por conterem mais energia, gordura ou sal (pães, cereais, macarrão, tubérculos, castanhas, óleos vegetais, doces de frutas e mel);

Grupo azul: alimentos in natura, minimamente processados ou processados, com controle importante para cardiopatas e indivíduos com fatores de risco cardiovascular, por serem alimentos que contêm maior quantidade de gordura saturada, sal e colesterol (carnes, queijos, ovos, manteiga, doces caseiros).

Já conhecia esse material nacional? Aproveite para ler temas complementares:

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Atualidades

Artigo Científico: Qual é a segurança e eficácia de glucosamina com condroitina para adultos?

Doenças articulares, ou disfunções articulares, impactam muito na qualidade de vida e podem se manifestar de diversas formas. Em alguns casos há dores que parecem vir das articulações, mas têm origem em outras estruturas, como nos ligamentos, tendões ou músculos.

No caso das doenças articulares podemos citar três principais: osteoartrite (relacionada ao envelhecimento e ao estresse mecânico), artrite reumatóide (dano articular mediado por autoimunidade) e o transtorno temporomandibular (fatores físicos e psicológicos, como estresse, enxaqueca e distúrbios do sono).

glucosamina e a condroitina são substâncias usadas como suplementos visando a prevenção da degradação da cartilagem, regulação de processos anabólicos e o potencial anti-inflamatório.

O objetivo do estudo em questão foi avaliar se a suplementação de glucosamina e/ou condroitina em humanos é segura e eficaz para disfunções articulares; além de determinar as dosagens mais utilizadas. Confira!

Metodologia

Foi realizada uma revisão sistemática, com buscas feitas nas bases de dados PubMed e Web of Science, para publicações entre 1990 e 2024. Os resultados foram carregados em uma plataforma, na qual dois pesquisadores independentes revisaram os artigos de acordo com critérios de inclusão e exclusão. A avaliação da qualidade foi feita utilizando a ferramenta Mixed Methods Appraisal Tool (MMAT).

Resultados e Discussão

Dos 2013 artigos avaliados, 146 estudos foram incluídos na revisão atual, sendo quase 60% ensaios clínicos randomizados. A maioria focou em osteoartrite e dor articular, com mais de 90% dos estudos de eficácia relatando resultados positivos e a maioria dos estudos de segurança indicando efeitos adversos mínimos ou inexistentes.

dose diária mais frequente de glucosamina foi de 1500 mg, com uma variação nos estudos de 10 mg a 2250 mg por dia. Para a condroitina, a dose diária mais comum foi de 1200 mg, variando de 2,5 mg a 1600 mg por dia.

A maioria dos estudos administrou glucosamina e condroitina em duas ou três doses divididas ao longo do dia. Além do placebo, o comparador de eficácia mais comum nos estudos foi o celecoxibe (medicamento analgésico e anti-inflamatório), com dose de 200 mg por dia.

Os principais biomarcadores analisados para avaliar a eficácia foram: proteína C reativa (PCR), velocidade de hemossedimentação (VHS), interleucinas (ILs) e o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α). Marcadores de degradação da cartilagem/osso também foram avaliados, como o telopetídeo C-terminal entrecruzado do colágeno tipo II (CTX-II) e as metaloproteinases da matriz (MMPs).

Para avaliar a eficácia de diferentes intervenções na saúde articular, diversos questionários foram utilizados nos estudos. Os principais foram: Índice de Osteoartrite das Universidades de Western Ontario e McMaster (WOMAC), o Índice de Lequesne (LI) e o Índice Funcional de Lequesne (LFI). 

Analisando a eficácia, a maioria dos estudos verificou resultados satisfatórios nos efeitos de glucosamina e/ou condroitina comparados com placebo. Além disso, os efeitos benéficos também foram observados quando os resultados foram comparados ao uso de medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios.

Mediadores inflamatórios foram reduzidos em muitos estudos com a suplementação, incluindo PCR, IL-1β e IL-6, VHS e TNF-α. Estudos também observaram a prevenção ou redução da taxa de degradação da cartilagem, por exemplo ao reduzir o estreitamento do espaço articular, ou diminuir marcadores de degradação da cartilagem.

Os achados objetivos somados às melhoras subjetivas, analisadas a partir dos questionários de satisfação do paciente, redução da dor e melhora da qualidade de vida, demonstraram que a suplementação de glicosamina e condroitina pode oferecer diversas vantagens no tratamento de condições articulares.

Em relação à segurança, a maioria dos estudos relatou nenhum efeito colateral ou eventos adversos mínimos/brandos. Os mais comuns foram relacionados ao sistema gastrointestinal, como náusea, diarreia, constipação, dispepsia e distensão abdominal.

Ambos compostos atuam com ação anti-inflamatória, contribuindo para a proteção da cartilagem, além de inibir enzimas católicas, promovendo efeitos anabólicos. Por conta desses mecanismos, acredita-se que esses dois suplementos nutricionais atuem de forma benéfica no manejo condições que afetam as articulações e cartilagens.

Conclusão

No geral, as evidências sugerem que a glucosamina e a condroitina são geralmente eficazes e bem toleradas, especialmente para o manejo da osteoartrite e dor articular. A dose diária mais comum foi de 1500 mg para glucosamina e 1200 mg para condroitina, com fracionamento de consumo em três vezes ao dia.

A pesquisa foi centrada na osteoartrite e dor articular, por isso mais estudos são necessários para uma avaliação aprofundada dessa suplementação para outras condições clínicas. Além disso, também é essencial avaliar a eficácia, segurança e dosagem ideal de uso dessas substâncias de acordo com a idade, sexo e comorbidades clínicas.

Confira o artigo na íntegra: https://www.mdpi.com/2072-6643/17/13/2093

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Atualidades

Artigo Científico: Associação entre imagem corporal, transtornos alimentares e comparação em mídias sociais

Introdução

A comparação com outras pessoas é um comportamento comum devido a necessidade humana de autoavaliação. Mas, dependendo da intensidade e frequência pode gerar diversos afetos negativos. Nos últimos anos o tema se tornou mais relevante devido o crescimento das mídias sociais e as consequências sociais e psíquicas observadas.

Com o crescimento das mídias sociais o comportamento de comparação ocorre em maior frequência e intensidade, já que as pessoas possuem acesso aos conteúdos que estimulam isso com mais facilidade, via celular, por exemplo.

Diversas pesquisas já demonstraram que o uso das mídias sociais é particularmente prejudicial à imagem corporal e a sintomas relacionados a transtornos alimentares.

No entanto, são as plataformas que apresentam uso predominante de imagens e vídeos que exercem maior impacto negativo sobre as impressões corporais, do que mídias sociais mais texto, por exemplo.

Também é importante entender que mulheres são mais expostas a imagens idealizadas e experienciam pressões estéticas mais intensas do que os homens.

A revisão sistemática em questão sintetizou os dados referentes à associação entre a comparação social nas redes sociais, as preocupações com a imagem corporal e os sintomas de transtornos alimentares nesse contexto.

Resultados e Discussão

Entre os 1122 estudos encontrados sobre o tema, apenas 82 atenderam aos critérios de inclusão e foram utilizados nessa análise. A amostra foi abrangente, 55.440 participantes, sendo mais de 80% do sexo feminino e com idade inferior a 36 anos.

A correlação entre maior comparação social online e maiores preocupações com a imagem corporal foi significativa, assim como a correlação entre maior comparação social e sintomas de transtornos alimentares. A associação média entre maior comparação social e menor imagem corporal positiva também foi significativa.

No entanto, o estudo não analisou causalidade. Ou seja, não é possível afirmar se a maior tendência à comparação social resulta em maiores preocupações com a imagem corporal, comportamentos alimentares disfuncionais e menor imagem corporal positiva, ou se preocupações pré-existentes com a imagem corporal e comportamentos alimentares disfuncionais levam a uma tendência aumentada à comparação social em mídias sociais.

Tampouco foi possível excluir a influência de outras variáveis que podem impactar na associação em questão. Por fim, a alta representação de mulheres e jovens na maioria dos estudos torna incerto se os efeitos de comparação social online podem variar em amostras mais velhas, do sexo masculino ou de gêneros diversos.

Conclusão

Os resultados desta meta-análise sugerem que a associação analisada (maior comparação social online x maiores preocupações com a imagem corporal e comportamentos alimentares disfuncionais) apresenta força moderada.

Foram identificadas variáveis importantes que atuaram como moderadores, como: a qualidade dos estudos, tipo de rede social utilizada, país do estudo, tipo de comparação social observada e percentual de participantes do sexo feminino.

Apesar da importância da revisão atual, ainda são necessárias pesquisas futuras que considerem os diferentes usos nas mídias sociais, bem como características individuais que possam alterar as relações bidirecionais entre uso de redes sociais, imagem corporal e sintomas de transtornos alimentares.

Confira o artigo na íntegra: https://doi.org/10.1016/j.bodyim.2024.101841

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Atualidades

Artigo Científico: Rinite e o papel preventivo de suplementos nutricionais

Com o avanço das pautas ambientais, fica cada vez mais evidente a necessidade de reduzir a poluição do ar. Na área da saúde, também há interesse em descobrir tratamentos e estratégias preventivas que melhorem a qualidade de vida e a saúde respiratória da população.

A poluição do ar também está associada a outras doenças, como cardiovasculares, autoimunes, tumores e inflamação nos tecidos. Em pesquisas sobre imunidade e capacidade anti-inflamatória, os suplementos nutricionais demonstraram ser uma alternativa viável promissora .

Afinal, quais compostos poderiam auxiliar na prevenção de sintomas ou doenças respiratórias causados pela poluição do ar? Esse foi o objetivo da revisão em questão, além de explicar os impactos negativos da poluição para a saúde respiratória.

Resultados e Discussão

Um dos componentes mais estudados na poluição do ar é o material particulado (MP), uma mistura de partículas sólidas e/ou líquidas suspensas no ar que contém várias substâncias perigosas; como aerossóis de carbono, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAPs), benzoquinona e metais pesados.

Existe associação entre esse componente com a rinite alérgica, pois ele atua como irritante da mucosa nasal, potencializando a resposta alérgica. Essa associação foi corroborada por um estudo americano que avaliou a correlação entre a exposição a partículas finas e rinossinusite. Foi indicado um risco maior de rinossinusite com o aumento da exposição à MP.

Os suplementos nutricionais ganham espaço nesse contexto por sua capacidade de modulação do sistema imunológico e proteção contra agentes inflamatórios. Confira quais apresentam potencial preventivo para rinite alérgica associada à poluição do ar:

  • Kefir: com potencial de exercer efeitos antialérgicos por meio da modulação imunológica e da influência que exerce na microbiota intestinal. No entanto, os estudos clínicos que investiguem essa associação (kefir x rinite induzida por MP) ainda são limitados;
  • Lactoferrina: tem sido usada como suplemento em várias condições clínicas, devido à capacidade de modulação imunológica. Apesar de demonstrar potencial nesse contexto, estudos clínicos que avaliem a eficácia da suplementação de lactoferrina na rinite associada à MP são escassos;
  • Vitamina D: pode suprimir a produção de citocinas pró-inflamatórias, como IL-4 e IL-17, além de promover a secreção da citocina anti-inflamatória IL-10. Vários estudos clínicos investigaram a correlação entre vitamina D e rinite. Os achados indicam associação entre baixos níveis séricos da vitamina e rinossinusite crônica, assim como a redução de sintomas com a suplementação. No entanto, estudos clínicos sobre os efeitos preventivos da suplementação de vitamina D na rinite relacionada à exposição à PM são limitados;
  • Ácidos graxos ômega-3: são reconhecidos por suas propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras. Por isso, são candidatos para reduzir os efeitos adversos da exposição à MP, como a rinite. Nesse contexto, os mediadores lipídicos anti-inflamatórios poderiam auxiliar na redução a inflamação nasal, na produção de muco e na redução de outros sintomas alérgicos. Apenas um estudo foi realizado avaliando essa associação;
  • Probióticos: a microbiota intestinal desempenha um papel crucial no sistema imunológico. Alterações na sua composição têm sido associadas a várias doenças respiratórias, incluindo asma e rinite alérgica. A modulação do eixo intestino-pulmão pode contribuir para os efeitos benéficos dos probióticos na rinite relacionada à poluição do ar. Um estudo realizado em crianças com rinite alérgica testou o tratamento profilático com a mistura de Bifidobacterium animalis subsp. lactis e Enterococcus faecium. Os sintomas das crianças tratadas com probióticos foram menos graves em comparação ao grupo de controle.

Conclusão

Apesar de os suplementos serem uma possibilidade complementar promissora, não devem ser encarados como substitutos de políticas ambientais para melhorar a qualidade do ar e a saúde respiratória da população. Existem evidências limitadas sobre o assunto, mas grande potencial de que tais suplementos — assim como outros a serem pesquisados — sejam alternativas terapêuticas interessantes na prevenção da rinite induzida por MP.

Confira o artigo na íntegra: https://www.mdpi.com/2072-6643/17/5/829

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Atualidades

Artigo Científico: Estratégias nutricionais para a recuperação pós-exercício

A nutrição adequada desempenha um importante papel a recuperação pós-exercício, principalmente no reparo muscular, reposição de energia, reidratação e equilíbrio de fluidos.

Por isso, pensando no desempenho esportivo, estratégias personalizadas devem ser utilizadas. É com uma recuperação adequada que o paciente/cliente mantém um bem-estar físico e mental, reduz o risco de lesões e maximiza os benefícios do exercício físico.

Suplementos tradicionais, como proteína, carboidratos, creatina e aminoácidos de cadeia ramificada (BCAAs), já são amplamente conhecidos. No entanto, nos últimos anos, alimentos ricos em compostos bioativos estão sendo utilizados com a mesma finalidade – melhor recuperação após o exercício físico.

Quais são esses alimentos? Existem evidências robustas para essa prescrição? Confira!

  • Laticínios: acrescentar leite e iogurte nas refeições é uma estratégia interessante, pois são alimentos com bom teor proteico e naturalmente com caseína em sua composição. Também apresentam bom teor de cálcio, potássio, magnésio e vitamina D. No entanto, é preciso atenção para intolerância e alergias alimentares.
  • Alimentos anti-inflamatórios: cúrcuma, mirtilo, suco de abacaxi e de cereja azeda (tart cherry) apresentam potencial antioxidante devido o alto teor de compostos bioativas, como polifenóis e antocianinas, por exemplo.
  • Alimentos ricos em ômega 3: suplementar óleo de peixe é a forma mais popular de consumo/prescrição, mas semente de linhaça ou chia e nozes também são boas fontes de ômega 3 via ácido alfa-linolênico (ALA). Promovem melhor recuperação pós-exercício ao auxiliar na redução da dor e rigidez muscular.

Com o avanço da nanotecnologia a produção de suplementos apresentará cada vez mais melhor biodisponibilidade de nutrientes. Outra tendência é considerar testes genéticos, metabólicos e a análise da microbiota para uma prescrição nutricional personalizada.

Por fim, o artigo em questão também abordou a fisiologia da recuperação muscular e fez uma comparação muito interessante entre os suplementos tradicionais mais estudados e prescritos. Vale conferir!

O artigo apontou limitações encontradas para desenvolver essa revisão e também indicou a importância que pesquisas continuem se aprofundando sobre os benefícios de alimentos e suplementos, promovendo protocolos ainda mais personalizados para a recuperação pós-exercício. 

O que achou, nutri? Não esqueça de ler o artigo na íntegra: https://www.mdpi.com/2072-6643/16/23/4081

Até mais!

Atualidades

Artigo Científico: Suplementação proteica e de nutrientes neuroprotetores para a cognição e composição corporal de idosos

Nota do autor: é importante considerar que o estudo foi realizado em uma amostra reduzida, com um produto pronto, dependente de disponibilidade e acesso. Assim, não é um estudo no qual indicamos basear condutas clínicas. No entanto, o mesmo ainda se mantém importante por indicar possibilidades no cuidado nutricional.  

Introdução

A sarcopenia e o declínio cognitivo são duas questões de saúde comum entre idosos, com grande impacto no estilo de vida e que demandam bastante atenção, tanto dos cuidadores, quanto dos profissionais da saúde.

Para a nutrição, algumas estratégias visam retardar ou prevenir o desenvolvimento de ambas condições clínicas. Além da ingestão adequada de macro e micronutrientes, estudos recentes têm avaliado o impacto dos suplementos para a saúde dessa população. 

O estudo em questão analisou os efeitos de um suplemento hiperproteico enriquecido com nutrientes associados com a neuroproteção no estado nutricional, risco de sarcopenia e melhora da função cognitiva de idosos. 

Metodologia 

A amostra foi composta de mulheres idosas, residentes em uma instituição de cuidado. O estudo foi prospectivo, randomizado, cross-over, placebo-controlado e duplo-cego. 

O suplemento utilizado foi o “All Nutri Senior”, já o grupo controle recebeu o “Cereal Senior”, um suplemento padrão à base de cereais, isocalórico, sem acréscimo de proteína ou mix de nutrientes. 

Para avaliar o impacto na cognição foi aplicado o questionário Mini-Exame do Estado Mental (MEEM). Já a avaliação do risco de sarcopenia foi feita por meio da aplicação do questionário SARC-F + CP. 

Resultados e Discussão 

O suplemento teve boa aceitação, com preferência de consumo no desjejum ou lanche da tarde. Entre as participantes, treze relataram maior saciedade com o consumo do mesmo. Também foi observada a redução de idosas com alterações gastrointestinais, como a constipação. 

Quanto ao risco de sarcopenia, o valor médio do SARC-F reduziu de 5,9 para 4,3, após o período de uso (oito semanas) do suplemento “All Nutri Senior”; o valor sugestivo de sarcopenia é superior a 11.

Por fim, também houve melhora nos resultados do MEEM, com aumento da pontuação média de 24,9 para 25,8; o valor indicativo de demência é menor ou igual a 24.

Conclusão 

A partir dos resultados foi possível concluir que o uso do suplemento por oito semanas gerou impactos positivos na capacidade cognitiva e redução do risco de sarcopenia. Também foi observado melhora da constipação e saciedade, além da redução do percentual de gordura corporal e ganho de massa muscular. 

O que achou? Não esqueça de conferir o artigo na íntegra: 

https://braspenjournal.org/article/doi/10.37111/braspenj.2023.38.2.08

Atualidades

Artigo Científico: Efeito do uso de canela na resposta glicêmica de adultos em pré-diabetes

Pré-diabetes é uma situação caracterizada pelo nível de glicose no sangue acima do valor de referência, mas que não cumpre os critérios diagnósticos para diabetes. No entanto, é um resultado muito importante, um sinal para realizar mudanças (1).  

Durante esse período, em alguns casos, a situação ainda pode ser revertida. Para outros, existe a possibilidade de reduzir a evolução do diabetes e as suas complicações. Por isso, tantos estudos investigam estratégias para pacientes com pré-diabetes. 

Confira no texto de hoje um estudo que analisou o efeito de canela na resposta glicêmica de adultos em pré-diabetes e obesidade!

Introdução

Estudos já demonstraram que o consumo de canela pode reduzir a concentração sanguínea de glicose e lipídios em pacientes com diabetes tipo 2, pré-diabetes, além de também afetar positivamente indivíduos saudáveis. 

A hipótese é que essa resposta aconteça devido ao conteúdo de polifenóis na canela. As doses nos estudos variam de 0,5g até 6 g/dia, com um intervalo de quatro a doze semanas. 

No entanto, ainda existem resultados controversos sobre o assunto com metodologias não compatíveis. Por isso, o estudo em questão buscou respostas para tais lacunas. 

Metodologia 

Os participantes foram observados por um período total de doze semanas, considerando o período de washout, em um estudo randomizado, controlado, duplo-cego e cruzado. 

Os indivíduos (n=18) tinham mais de dezoito anos, consumiam uma dieta baixa em fibras e polifenóis, tinham sobrepeso ou obesidade (IMC 25-40 kg/m2) e apresentavam pré-diabetes definida por glicemia em jejum entre 100 e 125 mg/dL ou hemoglobina A1c entre 5,7 e 6,4%. 

Antes da intervenção, por um período de duas semanas, todos os participantes iniciaram uma dieta baixa em polifenóis e não consumiram canela. Essa dieta foi seguida durante as doze semanas de estudo. 

A dose utilizada foi de 4 g/dia de canela (C. burmannii), com o consumo de dezesseis cápsulas todos os dias, oito no café da manhã e oito no jantar. Já aqueles que consumiram placebo (cápsulas de maltodextrina), também seguiram a mesma rotina. 

Um porta-cápsula foi fornecido a cada semana, em geral, os participantes consumiram 75% do que foi fornecido durante o período. O nível de glicemia da amostra durante o estudo foi monitorado por dispositivos de monitoramento contínuo da glicose (CGM).

Resultados

Durante o período observado, o consumo de 4 g/dia de canela reduziu a concentração sérica de glicose, em comparação com placebo. Após quatro semanas de suplementação houve redução na concentração de triglicerídeos, assim como aumento na expressão do hormônio peptídeo inibidor gástrico (GIP).

Houve boa aderência dos participantes e sem efeitos controversos ou digestivos. Na prática, 4 g de canela, dose utilizada no estudo, pode ser consumida com facilidade, tanto na forma de suplemento, como acrescentada nas refeições.

Conclusão

Canela é facilmente encontrada e pode servir como suplemento de baixo custo com ótimos resultados. Quando acrescentada na dieta, principalmente dentro da dosagem consumida no estudo, pode contribuir para redução da glicemia em pacientes com pré-diabetes e obesidade.

O que achou do nosso resumo? Não esqueça de conferir o artigo na íntegra: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38290699/ 

Até mais! 

Atualidades

Artigo Científico: Tratamentos para Síndrome do Intestino Irritável (Parte II)

No texto de hoje vamos conhecer mais sobre os possíveis tratamentos para pacientes com Síndrome do Intestino Irritável. 

Retomamos a análise de um artigo que avaliou o papel que a microbiota intestinal na SII, com a explicação da eficácia de probióticos, prebióticos, simbióticos e do transplante de microbiota fecal.

Apenas relembrando, a Síndrome do Intestino Irritável (SII) é uma condição crônica de saúde muito comum entre as doenças gastrointestinais; caracterizada por dores recorrentes, distensão abdominal e hábito intestinal irregular. 

Os tratamentos convencionais focam na redução do sintoma e no uso de medicamentos como loperamida para diarreia e laxativos para constipação. 

Por isso, conforme as pesquisas avançam, probióticos e similares ganham espaço como possibilidade de tratamento; já que impactam na regulação da microbiota intestinal, dores e distensão abdominal.

Vamos avaliar quais as evidências para os principais tratamentos complementares existentes? 

Probióticos 

Analisando os estudos incluídos, vinte e dois foram realizados com um mix de probióticos, enquanto onze foram com Lactobacillus ou combinações e nove com Bifidobacterium ou combinações; em outros utilizaram Bacillus, Saccharomyces,Clostridium and Escherichia. Coli.

O consumo de probióticos mostrou uma melhora significativa nos sintomas em comparação com uso de placebo, principalmente quando combinados. Esse resultado foi obtido por uma análise de 36 estudos, com grupo controle e uso de placebo.  

Constaram melhora na dor, como também na qualidade de vida dos pacientes avaliados – através de um questionário que avaliou dor abdominal, sintomas extra-intestinais e crises da doença. 

No caso de distensão abdominal, algumas combinações demonstraram maior efeito: Lactobacillus rhamnosus, Propionibacterium freudenreichii, Propionibacterium shermanii, e Bifidobacterium (42), Bifidobacterium com Lactobacillus (75) e Lactobacillus com Lactobacillus acidophilus (40). 

Prebióticos 

Sete estudos foram incluídos e analisados, em todos não houve diferença significativa nos sintomas (dor e distensão abdominal) com uso de prebióticos. Três estudos identificaram melhora na qualidade de vida – através dos questionários respondidos.

Simbióticos

Dos sete estudos incluídos na análise, cinco não apresentaram melhoras significativas. Para os sintomas individuais também não foram encontrados resultados estatisticamente relevantes.

Transplante de microbiota fecal 

Seis estudos foram analisados, em cinco os resultados indicaram uma melhora significativa dos sintomas, em comparação com placebo. Quanto aos sintomas individuais após as intervenções, dois estudos apresentaram melhora na dor abdominal, enquanto apenas um demonstrou melhora significativa na distensão. 

Conclusão

Para a melhora dos sintomas analisados, o uso de probióticos e o transplante de microbiota fecal foram os tratamentos com melhores resultados. Enquanto simbióticos e prebióticos não apresentaram diferenças significativas. 

Mais estudos são necessários para avaliar e definir combinações de probióticos e dosagens que promoveriam impacto positivo nos sintomas e melhora da qualidade de vida. 

Confira o artigo na íntegra: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38999862/

Até mais!

Atualidades

Artigo Científico: Tratamentos para Síndrome do Intestino Irritável (Parte I)

No texto de hoje vamos conhecer um pouco mais sobre os possíveis tratamentos para pacientes com Síndrome do Intestino Irritável.  

O artigo em questão avaliou o papel que a microbiota intestinal exerce nessa condição de saúde, além de explicar com profundidade a eficácia de probióticos, prebióticos, simbióticos e do transplante de microbiota fecal. 

Síndrome do Intestino Irritável (SII) é uma condição crônica de saúde muito comum entre as doenças gastrointestinais. É caracterizada por dores recorrentes, distensão abdominal e hábito intestinal irregular. 

O diagnóstico é médico e baseado em critérios clínicos, que consideram os sintomas, além da intensidade e recorrência dos mesmos. Também é importante uma prévia exclusão de outras condições comuns, como intolerâncias e alergias alimentares. 

Existem muitos fatores que interferem na ocorrência e progressão da doença, como: 

  • nível de função e inflamação intestinal;
  • a capacidade de resposta do sistema imunológico;
  • quadros de disbiose e estresse psicológico;
  • desregulação do eixo microbiota-intestino-cérebro. 

Muitos estudos já demonstraram que existe diferença no perfil de microbiota intestinal entre os pacientes saudáveis e aqueles com síndrome do intestino irritável. 

Por exemplo, pacientes com ISS apresentam maior abundância de Enterobacteriaceae, Streptococcus, Clostridium, Gemella e Ruminococcus. Além de menor expressão para Roseburia e Faecalibacterium

No entanto, ainda não existe um método em comum nos estudos que controle fatores que são importantes e interferentes nos resultados, como: idade, gênero, raça, dieta e consumo de antibióticos. 

Os tratamentos convencionais focam na redução do sintoma e no uso de medicamentos como loperamida para diarreia e laxativos para constipação. Mas, existem alternativas limitadas para distensão e dor abdominal. 

Além disso, conforme as pesquisas avançam fica mais evidente o impacto que a microbiota intestinal exerce na fisiopatologia da ISS. Dessa forma, probióticos e similares ganham espaço como possibilidade de tratamento. 

A principal consequência para o paciente está no impacto para a sua qualidade de vida, pois o mesmo pode deixar de se alimentar “normalmente” com receio de novas crises. Por isso, o tratamento e acompanhamento com uma equipe multiprofissional é essencial! 

Explicaremos mais sobre os possíveis tratamentos e a relevância de cada um para a literatura científica no próximo texto. Confira o artigo na íntegra: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38999862/ 

Até mais! 

Atualidades

Cuidado Nutricional: Sarcopenia

Sarcopenia é uma condição caracterizada pela perda progressiva de massa e função muscular (1). Atinge a maioria dos idosos, mas pode acontecer mais cedo na vida, principalmente nas mulheres, durante ou após o período da menopausa (2). 

O tema ganhou muita relevância na prática clínica, principalmente pelo aumento do risco para outras complicações e o impacto que gera na qualidade de vida. Em 2016, a sarcopenia foi reconhecida na Classificação Internacional de Doenças (CID) (4). 

A prevalência da sarcopenia varia entre os estudos realizados, a depender do método ou ponto de corte que foram considerados. No entanto, a média é de 10 a 16% entre os idosos (1).

Fatores de risco 

  • Estilo de vida: obesidade e gordura visceral, inatividade física, desnutrição, tabagismo e sono desregulado; 
  • Condições preexistentes: diabetes, osteoporose, depressão, anorexia, doenças cardiovasculares ou respiratórias, Doença de Parkinson e outras condições neurodegenerativas; 
  • Biológicos: marcadores inflamatórios, níveis de colesterol, vitamina D, adiponectina e a microbiota intestinal (1).

Consequências/aumento do risco: 

  • Pacientes: maior tempo de internação, complicações e infecções pós-operatórias, mortalidade no curto ou longo prazo; 
  • Não pacientes: hospitalização, institucionalização, disfagia, depressão, hipertensão, fibrose hepática, doença hepática gordurosa não alcoólica, síndrome metabólica, diabetes, declínio das funções motoras e cognitivas, maior risco de osteoporose, queda e fratura (1). 

Qual o papel da nutrição?

Há poucos estudos que traçaram um perfil longitudinal do consumo alimentar em indivíduos que desenvolveram sarcopenia. A maioria dos achados são revisões sistemáticas, estudos observacionais ou intervenções, que buscaram avaliar quais fatores minimizam ou previnem as consequências/riscos da sarcopenia (3). 

O “público-alvo” nos estudos que aplicam mudanças alimentares para promover melhor manutenção e função da massa muscular são pessoas com menos de 70 anos, justamente visando a prevenção (3). 

O estado nutricional e o consumo alimentar impactam diretamente na regulação da síntese e manutenção muscular. Além disso, existem nutrientes que precisam ser consumidos para a saúde muscular e óssea. Por isso, uma dieta nutricionalmente adequada é essencial, principalmente para a prevenção da sarcopenia (4). 

Conclusões 

  • Proteína: consumir fontes alimentares com aminoácidos essenciais, ricas principalmente em leucina (2,5 – 2,8 g por refeição); priorizar o consumo diário de 1 – 1,2 g/kg para pessoas saudáveis, ou 1,2 – 1,5 g/kg com doenças crônicas, complicações físicas, hospitalizadas ou mal nutridas (4,5);
  • Vitamina D: manter níveis de 40 a 60 ng/mL, no caso de suplementação há indicação de 800 – 1,000 UI/dia (5);
  • Minerais: consumir 300 mg/dia de magnésio para homens e 270 mg/dia para mulheres; já cálcio 1.000 – 1.200 mg/dia; selênio 25 – 75 μg/dia (5); além de fósforo, potássio, zinco (4);
  • Nutrientes antioxidantes: é adequado >500 mg de polifenois (5), consumindo fontes alimentares de carotenoides, licopeno zeaxantina, luteína; além de vitamina E (400 UI/dia e vitamina C (45 to 90 mg/dia);
  • Creatina: é preciso avaliar questões individuais, pois não há consenso de consumo e estudos longitudinais em população idosa. No entanto, é uma possibilidade para indivíduos que praticam atividades como musculação (~5g/dia) (5); 
  • HMB: é um metabólito da leucina, o seu consumo (3g/dia) apresentou indícios benéficos para indivíduos acima de 65 anos, principalmente acamados ou sem treinamento físico; no entanto, ainda há inconsistências sobre a recomendação dessa suplementação (5); 
  • Atividade física: Prática de fortalecimento muscular e atividade aeróbia – 150 min. intensidade moderada, ou 75 min de intensidade vigorosa (4); 
  • Hidratação adequada: há maior risco de desidratação em idosos, mas não há recomendações específicas para sarcopenia. Seguir o consenso de consumo médio de 3 litros para mulheres e 4 litros para homens, sempre considerando condições individuais que podem aumentar ou reduzir tal consumo (4). 

Até mais! 

Referências 

  1. YUAN, S.; LARSSON, S. C. Epidemiology of sarcopenia: Prevalence, risk factors, and consequences. Metabolism, vol. 144, 2023. Disponível:  https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36907247/ 
  1. LU, L.; TIAN, L. Postmenopausal osteoporosis coexisting with sarcopenia: the role and mechanisms of estrogen. Journal of Endocrinology, vol. 259, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1530/JOE-23-0116 
  1. ROBINSON, S. et al. The role of nutrition in the prevention of sarcopenia. Am J Clin Nutr., vol. 118, pg. 852-864, 2023. Disponível em:  https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37657521/ 
  1. CALVANI, R. et al. Diet for the prevention and management of sarcopenia. Metabolism, vol. 146, 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37352971/
  1. LIU, S.; ZHANG, L.; LI, S. Advances in nutritional supplementation for sarcopenia management. Front. Nutr. Clinical Nutrition, vol. 10, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fnut.2023.1189522 
Atualidades

Artigo Científico: Determinantes e indicadores de um envelhecimento bem-sucedido

O conceito de envelhecimento bem-sucedido foi descrito em 1997 por um pesquisador, o qual indicava uma combinação de longevidade e saúde com bem-estar físico, mental e social. Desde então, outros estudiosos têm se aprofundado no assunto para entender quais são os determinantes e indicadores para tal fenômeno. 

A revisão em questão teve o objetivo de reunir as evidências mais recentes, a partir de estudos longitudinais, para apresentar evidências atualizadas e uma visão mais panorâmica do tema; além de indicar fatores ainda não esclarecidos e guiar futuras pesquisas. 

Materiais e Métodos 

A busca das publicações aconteceu entre agosto de 2016 e junho de 2023, com o propósito de avaliar artigos publicados após a última revisão realizada sobre o tema em 2016.

Foram incluídos apenas estudos longitudinais e que seguiam a definição proposta de Rowe and Kahn para “envelhecimento bem-sucedido”.

Resultados e Discussão 

Inicialmente foram encontradas 3.191 publicações, 289 foram selecionadas para análise e 22 foram incluídas na presente revisão. 

A maioria dos estudos apresentaram amostras mistas, com homens e mulheres, e participantes acima de 45 anos. O tempo de acompanhamento variou entre 5 e 36 anos. Quanto à representatividade geográfica, grande parte foi realizada em países da Europa e nos Estados Unidos. 

O estudo em questão apresentou, em formato de quadro, os determinantes positivos, negativos e neutros a partir dos aspectos sociais e demográficos, nutricionais e de estilo de vida, saúde metabólica, autopercepção da saúde e psicológicos. 

Ainda nos fatores dietéticos, foram observados os seguintes fatores positivos: 

  • Alto consumo de frutas, verduras, peixes e cereais; 
  • Ingestão moderada de carne vermelha; 
  • Alto consumo de fibras, ácidos graxos poliinsaturados ômega-3, EPA e DHA;

Quais seriam os determinantes negativos, ou seja, que exercem impacto negativo na trajetória de um envelhecimento saudável?

  • Social e demográficos: apresentar dívidas ou condição financeira instável, etnicidade (negros ou hispanos); 
  • Estilo de vida e dietéticos: tabagismo, obesidade ou sobrepeso, alta ingestão calórica, alto consumo alimentar de carne vermelha, açúcar, bolos ou biscoitos e drinks sem álcool;  
  • Saúde metabólica: alto nível de colesterol total e de PCR, síndrome metabólica.

Conclusão 

Em geral, apresentar um status socioeconômico mais elevado, aderência à dieta baseada em plantas (como a mediterrânea), não fumar, ser fisicamente ativo e metabolicamente saudável são fatores associados positivamente com um envelhecimento saudável. 

Estudos mais recentes incluíram otimismo, planos para o futuro e a “sensação de ser útil” como fatores psicológicos e de bem-estar relevantes. 

É esperado que mais trabalhos de investigação sobre o tema sejam desenvolvidos, além do desenvolvimento de políticas de promoção da saúde que levem tais fatores em consideração. 

Confira o artigo na íntegra: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38074742

Até mais!

Atualidades

Artigo Científico: Relação entre deficiência de ferro e função tireoidiana

Ferro é um nutriente essencial para diversas funções fisiológicas, por isso que a sua deficiência é tão grave e está associada com muitas disfunções clínicas; a mais conhecida e comum é a anemia. O artigo que foi traduzido e resumido a seguir irá expor quais são as evidências atuais para o impacto da deficiência de ferro nas doenças tireoidianas!  

Introdução

Em pacientes com doenças tireoidianas a anemia por deficiência de ferro é uma comorbidade comum, afetando quase 5% da população. 

O funcionamento da enzima peroxidase tireoidiana (TPO), importante para produção de hormônios tireoidianos, é afetado pela deficiência de ferro, gerando impacto negativo na síntese e função dos hormônios tireoidianos. 

A deficiência de ferro também é comum entre mulheres grávidas e em idade fértil. Os hormônios tireoidianos desempenham um papel crucial no desenvolvimento fetal.

O objetivo do estudo em questão é resumir e avaliar as evidências disponíveis sobre a associação entre o estado de ferro e a função tireoidiana, a prevalência de deficiência de ferro em pacientes com doenças da tireoide e o impacto da suplementação de ferro na a função da tireoide. 

Materiais e Métodos 

A pesquisa foi conduzida em 2023 nas bases de dados Pubmed e Scopus. Foram incluídos estudos com modelo transversal, ensaio clínico randomizado controlado, caso-controle e coorte. Consideraram apenas estudos em que a amostra era composta por adultos, ou mulheres grávidas 

Entre os critérios de exclusão: estudos realizados em pacientes com comorbidades, ou em uso de medicamentos que afetem a função tireoidiana ou o nível de ferro; idade inferior a 18 anos; modelo de estudo in vitro, em animais, relatos de casos.

Resultados e Discussão 

Apenas dez estudos, de quatrocentos e dezoito encontrados, foram considerados para essa revisão. Nove avaliaram a associação entre deficiência de ferro (DI) e a função tireoidiana em mulheres grávidas ou em idade fértil. Apenas um estudo foi realizado na população geral.

Sete relataram uma relação direta com a gravidade da deficiência de ferro e os níveis do hormônio estimulador da tireoide (TSH). Os pacientes com DI apresentaram valores mais elevados, em comparação ao grupo controle. No entanto, três estudos não mostraram diferenças significativas nos níveis de TSH entre pacientes com e sem DI. 

Em quatro estudos, pacientes com DI, apresentaram aumento na prevalência de positividade para anti-tireoperoxidase (anti-TPO); já para anti-tireoglobulina (anti-Tg) em dois estudos. Apenas um estudo não encontrou diferenças nos níveis de anti-TPO e anti-Tg em relação aos níveis de ferritina sérica.

Níveis mais baixos de TSH, FT4 e FT3 foram encontrados em mulheres grávidas. As mulheres não grávidas apresentaram significativamente níveis séricos mais baixos de FT4 e FT3, mas sem diferença nos valores de TSH. 

É possível que as variações encontradas sejam por conta das diferentes populações incluídas nos estudos, alguns avaliaram gestantes, outros mulheres em idade fértil e alguns população em geral. 

Esta revisão sistemática e metanálise tem algumas limitações. Diferentes populações foram incluídas nos estudos, sendo a maioria realizada em mulheres grávidas. 

Os estudos consideraram diferentes pontos de corte de ferritina sérica para o diagnóstico de DI, apesar de <20 ng/dL ser comumente o ponto de corte. Além disso, muitos não consideram o nível sérico de iodo. 

A maioria dos estudos da literatura que incluem grupo controle são transversais. Ensaios prospectivos randomizados e controlados são necessários para esclarecer a importância do estado nutricional do ferro na saúde da tireoide, inclusive na população em geral ou em outros grupos de pacientes.

Alguns estudos sugerem que a DI está associada a um risco aumentado de disfunção tireoidiana, mas outros não encontraram nenhuma associação significativa. As evidências científicas ainda são inconclusivas e os resultados conflitantes. 

Conclusão 

Estudos publicados atualmente na literatura indicam uma possível relação entre ID, função tireoidiana e autoimunidade, especialmente em alguns grupos de pacientes. 

Análise de dados mostra que os níveis de hormônio tireoidiano são mais baixos em pacientes com DI, principalmente em gestantes. 

Apesar das limitações, a revisão em questão observou que a deficiência de ferro está associada com um aumento significante da prevalência de positividade de autoanticorpos tireoidianos (anticorpos antitireoglobulina e anticorpos antiperoxidase tireoidiana). 

Confira o artigo na íntegra aqui: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38004184/ 

Até mais! 

Atualidades

Efeitos da fórmula infantil e leite de vaca: uma revisão sistemática e meta-análise

O aleitamento materno exclusivo durante os primeiros seis meses de vida é uma orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS). 

Também é recomendado que a amamentação seja continuada até os dois anos de idade, em conjunto com uma alimentação sólida complementar.

No entanto, essa não é uma realidade absoluta. Muitos bebês são alimentados com bebidas lácteas alternativas, como fórmulas infantis ou produtos lácteos de animais não exclusivos da alimentação infantil. 

A revisão sistemática em questão teve o objetivo de reunir e analisar os efeitos para a saúde da criança ao comparar o consumo de leite animal com a fórmula infantil; considerando uma amostra entre 6 e 11 meses de idade que não recebia leite materno ou era alimentada de forma mista.

Materiais e Métodos 

A pesquisa foi realizada em diversas bases de dados, incluindo ensaios clínicos randomizados (ECR) e estudos observacionais com grupo controle. Foram excluídos estudos de caso-controle, séries de casos e relatos de casos.

Resultados e Discussão 

Nove estudos foram incluídos na presente revisão com uma amostra total de 2.536 indivíduos. Quatro foram ensaios clínicos randomizados e cinco de coorte observacionais. 

Todos os estudos utilizaram como leite animal o leite de vaca, assim, os resultados dessa revisão não podem ser generalizados para outros leite de outros animais. Houve variabilidade na composição das fórmulas infantis apresentadas.  

O uso de leite de vaca comparado ao leite artificial em bebês de 6 a 11 meses de idade em bebês amamentados/alimentados de forma mista parece aumentar o risco de anemia. 

É necessário considerar que a fórmula infantil não é um produto acessível para todos em países de baixa e média renda, por isso, o leite de vaca é utilizado como alternativa. 

Estratégias para reduzir o risco de anemia em bebês nessa faixa etária que não são amamentados, como a utilização de alimentos complementares fortificados, devem ser estudadas.

Já que o número de artigos incluídos na revisão sistemática foi baixo, os resultados encontrados receberam uma classificação baixa ou muito baixa de evidência. 

Conclusão 

Manter uma alimentação de bebês, entre 6 a 11 meses de idade, com leite de vaca, em comparação com a fórmula infantil, aumenta o risco de anemia, incluindo anemia por deficiência de ferro, diminuição da hemoglobina e ferritina no sangue.

No entanto, não houve diferença relevante para peso corporal ou crescimento entre os bebês quando se comparou a alimentação por fórmula infantil ou leite de vaca. 

Quanto ao neurodesenvolvimento e efeitos adversos, como diarréia e constipação, os dados são limitados e nenhuma conclusão foi determinada. 

A maioria dos estudos utilizados como base para a revisão em questão foram realizados em países de alta renda. Por isso, estudos futuros são necessários em países de baixa e média renda. 

Confira o artigo na íntegra aqui: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35276848/ 

Atualidades

Artigo Científico: Insegurança Alimentar e a Deficiência de Micronutrientes entre Adultos

A insegurança alimentar é definida por falta de acesso regular, permanente e irrestrito a alimentos seguros e de qualidade; em quantidade e qualidade adequadas para cada um, considerando também a cultura alimentar local (1). 

No Brasil, os dados mais recentes apontam que 70,3 milhões de pessoas vivem em situação de insegurança alimentar, que pode ser moderada ou severa. Os principais grupos que vivem em vulnerabilidade são: populações rurais, povos indígenas e a comunidade de baixa renda (2). 

Confira no texto de hoje o resumo de um artigo científico que avaliou a existência de associação entre insegurança alimentar e a deficiência de micronutrientes entre adultos. 

Introdução

De acordo com a FAO, em 2021, estima-se que 40,6% da população (268 milhões de pessoas) enfrentava algum nível de insegurança alimentar. A deficiência de micronutrientes está muito atrelada a esse contexto, além de ser mais um agravante ao estado de saúde. 

As principais deficiências nutricionais são de ferro, iodo, zinco, folato e vitamina A; as quais têm impacto em funções corporais, na capacidade de aprendizagem e na produtividade.  

O presente estudo avaliou se existe associação entre insegurança alimentar e a deficiência de micronutrientes em adultos, com o propósito de mensurar a importância de tal avaliação para a saúde pública. 

Métodos 

Foi realizada uma revisão sistemática de meta-análise, baseada no protocolo PRISMA. Nos artigos selecionados a amostra era adulta, homens e mulheres, com a avaliação de micronutrientes realizada por exames bioquímicos nos indivíduos. 

Resultados e Discussão 

Foram selecionados dezoito artigos, todos com modelo transversal e publicados entre 2001 e 2022. Demonstrou-se associação entre insegurança alimentar com a deficiência de micronutrientes em 16 estudos.  

Em sua maioria, 94% (n = 17), os estudos avaliaram a deficiência de ferro, a hemoglobina como marcador escolhido, mas alguns também incluíram ferritina e transferrina. Anemia foi um resultado presente em 

Há poucos artigos que avaliam, em um contexto de insegurança alimentar, as deficiências nutricionais por meio de exames bioquímicos em adultos. Inclusive, esses estudos são mais encontrados com crianças na literatura. 

No entanto, é um tema muito importante a ser estudado, além de monitorado, se possível. Já que a desnutrição proteico-energética e/ou a deficiência de micronutrientes (fome oculta) é um fator de risco para o desenvolvimento de algumas doenças, ou para a redução da produtividade e disposição. 

Os testes bioquímicos são indicadores diretos, mais propensos a serem utilizados em análises individuais. Para a população em geral, tal avaliação pode ser feita através da análise do consumo alimentar, apesar de ser uma ferramenta indireta e apresentar maior potencial de erro, pode ser eficaz. 

A avaliação do estudo em questão apresenta algumas limitações, como: não considerar a presença de outros fatores relacionados à deficiência de micronutrientes, não podendo estabelecer uma relação de causa e efeito, apenas de associação. 

Além disso, na maioria, a amostra era composta por mulheres, as quais são mais vulneráveis para deficiências nutricionais. 

Conclusão 

Uma associação, nos estudos revisados, entre insegurança alimentar e deficiência de micronutrientes foi encontrada, especialmente para ferro e vitamina A. 

Os dados encontrados indicam a importância de avaliar a existência de deficiências nutricionais entre a população, pois as mesmas podem causar custos sociais e econômicos ao país. 

Confira o artigo na íntegra aqui: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC10005365/

Até mais!

Atualidades

Artigo Científico: Suplementação de Moringa na gestação e amamentação

Há diversos cuidados nutricionais que são requeridos durante o período da gestação e lactação. Adequações na alimentação são muito importantes, pois é preciso garantir o desenvolvimento fetal, e da criança após o nascimento, além da nutrição de quem gesta e amamenta (1).

Por uma demanda nutricional aumentada durante essas etapas da vida, só a ingestão alimentar nem sempre atende às necessidades, por isso a suplementação tem um papel muito importante (2). 

Quais são as novidades na nutrição para gestantes quanto à suplementação? Por aqui no Allivici sempre buscamos referências atualizadas para manter o profissional atualizado. 

Pensando nisso, no texto de hoje, segue o resumo de um artigo científico que avaliou o impacto da suplementação de Moringa oleifera para gestantes e lactantes. 

Introdução

O consumo nutricional da gestante ou lactante impacta diretamente no desenvolvimento do feto e da criança. Inclusive, a prática da amamentação é indicada para prevenção de deficiências nutricionais. 

Moringa oleifera é uma planta conhecida por propriedades medicinais, além de conter uma composição nutricional rica em vitaminas e minerais, como ferro, cálcio e vitamina C. O seu uso também tem sido utilizado para aumentar a produção de leite materno.

No artigo em questão, estudos atestando a segurança e dosagem de uso foram avaliados.

Métodos

Uma revisão sistemática foi conduzida para avaliar o impacto do consumo de Moringa em mulheres gestantes ou lactantes. Os doze estudos selecionados foram publicados entre 2018 e 2023, com grupo controle e realizados apenas com humanos. 

Resultados e Discussão 

Moringa e gestação

A anemia é uma das complicações clínicas mais frequentes durante a gestação e a deficiência de ferro impacta no desenvolvimento fetal. 

A suplementação de moringa oleifera demonstrou aumentar o nível de hemoglobina e melhora dos parâmetros VCM, HCM e CHCM; em comparação ao uso de suplementos com ferro e ácido fólico. Esses resultados podem ser atribuídos à concentração de ferro na composição da planta. 

As doses utilizadas nos estudos avaliados variaram, em média, de 500 mg a 1.6 g, na forma de extract, powder e até mesmo presente em receitas. Em doses mais altas o consumo era fragmentado ao longo do dia. 

Moringa e amamentação

Moringa oleifera também é estudada por ser uma substância classificada como galactagogo, ou seja, que promove o início e a manutenção da produção adequada de leite em mamíferos. Também aumenta a produção de prolactina e ocitocina. 

Entre os artigos selecionados, alguns avaliaram o maior crescimento e ganho de peso nas crianças em que as mães consumiram produtos com Moringa. Esses efeitos também podem ser atribuídos ao maior consumo de polifenóis e nutrientes com a suplementação em questão. 

Conclusão

Há indícios de que pode ser uma suplementação interessante para prevenir deficiências nutricionais, mas novos estudos são necessários para monitorar dosagem e efeitos adversos. 

Confira o artigo na íntegra aqui: https://www.mdpi.com/2072-6643/15/12/2674

Até mais!

Atualidades

Dia Mundial da Saúde Digestiva: Como cuidar?

A saúde digestiva engloba diversos fatores importantes do nosso cotidiano. Por exemplo, desde a alimentação até fatores emocionais podem causar impacto no que é chamado de microbiota. Ou seja, no conjunto de microrganismos que habitam o trato gastrointestinal (1). 

Pensando na maior conscientização do assunto, o “Dia Mundial da Saúde Digestiva” foi criado. Em harmonia, no mesmo mês, também há outro lembrete sobre a importância de cuidar da saúde intestinal, com a data “Dia Mundial da Doença Inflamatória Intestinal”. 

Além dos sintomas e desconfortos diários, que podem ser melhorados com mudanças na dieta, gerando mais qualidade de vida, com a doença também há interferência na absorção de nutrientes e no funcionamento da microbiota (2). 

Como o nutricionista pode auxiliar no cuidado da saúde digestiva?  

  • Avaliar os principais sinais e sintomas, e os impactos na qualidade de vida do paciente;
  • Analisar o consumo alimentar, histórico de peso ao longo do tempo e risco para desnutrição (principalmente em crianças); 
  • Adaptar a dieta e o consumo alimentar, de acordo com as possibilidades do paciente, para minimizar os sintomas apresentados; 
  • Orientar a restrição e adaptação do consumo de alimentos fermentativos (repolho, couve-flor, feijões, etc.); 
  • Atenção para o uso de produtos com polióis (xilitol, sorbitol, eritritol, etc.); 
  • Investigar carências nutricionais existentes e realizar a suplementação; 
  • Considerar a suplementação de prebióticos e probióticos; 
  • Conscientizar o paciente sobre os fatores externos que interferem nos sintomas (estilo de vida, atividade física, ansiedade, etc.). 

Materiais complementares: 

Página institucional com eventos e novidades sobre a pauta: https://www.abcd.org.br 

Artigo sobre as recomendações dietéticas aos pacientes com doença inflamatória intestinal: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC9966256/

Texto anterior sobre fatores interferentes em nossa microbiota intestinal: https://blog.allivici.com/index.php/2022/03/10/nutricao-e-doencas-digestivas/ 

Pós-graduação sobre o tema, para se especializar:​​ https://saocamilo-sp.br/pos_graduacao/lato_sensu/nutricao_microbioma_intestinal

Até mais,

Atualidades

Artigo Científico: Eritritol – O que é? É saudável?

Edulcorantes são substâncias com potencial de adoçar preparos, classificadas e regulamentadas como aditivos; podem estar na composição de produtos e suplementos alimentares, ou serem vendidas separadamente (1, 2). 

O principal objetivo com o uso de edulcorantes, ou seja, adoçantes, é a substituição do açúcar na alimentação. No entanto, ao longo dos anos, questionamentos científicos surgiram sobre a segurança de certas substâncias e os riscos para a saúde no longo prazo (3). 

Confira a seguir o resumo de uma revisão publicada na Nutrients que avaliou as atuais evidências acerca do edulcorante eritritol, atualmente muito utilizado e considerado como “saudável”.

Introdução

Em uma pesquisa com consumidores, no ano de 2015, o mel estava classificado no topo da lista como “mais saudável”, acima do açúcar de coco, estévia, agave e adoçante da fruta-dos-monges (monk fruit). Adoçantes como eritritol, xilitol, sacarina e aspartame estavam no fim da lista. 

A classificação desses consumidores partiu de uma percepção que ao ser “mais natural”, uma substância seria “mais saudável”. No entanto, ser natural ou artificial são características que correspondem ao processamento de tais edulcorantes; não a sua saudabilidade. 

Apesar da percepção e consumo sobre o eritritol ter mudado nos últimos anos, se tornado mais consumido e considerado saudável, ainda há questionamentos a serem esclarecidos.

Resultados e discussão 

  • Produção: Eritritol é naturalmente encontrado em frutas, como melão, melancia, uvas, ou alimentos fermentados. Também é produzido de forma endógena, a partir de glicose pela via das pentoses-fosfato. Comercialmente a produção acontece via fermentação de monossacarídeos (glicose, frutose, xilose, etc), com novas tecnologias implementadas a cada ano. 
  • Segurança: Os órgãos regulamentadores afirmam que não há riscos toxicológicos, reprodutivos, mutagênicos ou carcinogênicos quanto ao uso de eritritol. Os sintomas gastrointestinais, com o consumo de polióis, acontecem pela retenção de água no intestino, por efeito osmótico, e pela fermentação do que não foi absorvido/excretado. Doses de até 1g/kg/dia são bem toleradas. 
  • Metabolismo: Todos os polióis são metabolizados de maneira similar, absorvidos no intestino delgado e excretados, de 80 a 90%, via urina. Há estudos que sugerem que parte não excretada é oxidada, em eritritose e eritronato. O eritritol apresenta apenas quatro carbonos em sua composição e peso molecular inferior a outros polióis, por isso é absorvido com maior rapidez e não apresenta tanto desconforto gastrointestinal comparado a outros polióis. 
  • Efeitos para a saúde: Apresenta capacidade de inibir a formação de placa dentária, com maior efetividade que o sorbitol ou xilitol. O consumo de grandes doses, 20 a 75 g, não impactou nos níveis de glicose ou insulina. Há investigações sobre um potencial efeito na saciedade. Não apresenta riscos metabólicos, até o momento. 

Conclusão 

Eritritol é uma substância naturalmente encontrada, com segurança comprovada e um adoçante não calórico. Comparado a outros polióis, xilitol e sorbitol, não causa tantos efeitos gastrointestinais. 

Pode ser utilizado como substituto ao açúcar, pois o seu consumo não gera aumento da glicose ou insulina. Apesar de estudos de longo prazo ainda serem escassos, até então, apresenta-se como uma boa alternativa, em comparação aos edulcorantes artificiais. 

Confira o artigo em questão na íntegra acessando: https://www.mdpi.com/2072-6643/15/1/204

Até mais, 

Atualidades, Sem categoria

Artigo Científico: Suplementação de Potássio e a Saúde Cardiovascular

A suplementação nutricional exerce um importante papel para a adequação clínica em diversas condições de saúde.

Toda suplementação precisa ser realizada com orientação profissional, em dosagens adequadas e de eficácia comprovada por estudos científicos, para não gerar riscos à saúde ou apresentar resultados aquém dos desejados.

Confira o resumo de um artigo científico que avaliou a eficácia da suplementação de potássio para a saúde cardiovascular e melhora da função endotelial. 

Introdução 

Potássio é um dos principais minerais para a nutrição humana, pois está envolvido em diversos processos biológicos, especialmente na regulação da pressão arterial. Inclusive, o consumo alimentar de potássio está associado inversamente com hipertensão.

Estudos experimentais e observacionais indicam que o potássio aumenta a produção de óxido nítrico e minimiza o efeito deletério de espécies reativas de oxigênio (EROS), processo que apresenta relação com as alterações vasculares na aterosclerose. 

A revisão sistemática e meta-análise em questão foi realizada para avaliar os resultados das intervenções clínicas com a suplementação de potássio para melhora da função endotelial. 

Metodologia 

Os estudos avaliados seguiram os seguintes critérios de inclusão: originais, amostra de idade adulta, comparação de resultados entre grupo controle e grupo experimental. Entre 110 as publicações identificadas, apenas 5 se adequaram aos critérios previamente definidos e análises subsequentes.

Resultados e Discussão

Os resultados de 332 participantes de 4 países foram avaliados, com amostras variadas entre gênero, idade, raça e massa corporal. Todos os estudos avaliaram os resultados de suas intervenções da mesma forma, a excreção de potássio na urina 24h. 

A duração dos estudos não foi homogênea, variando entre 6 dias e 6 semanas. 

Uma parte dos estudos utilizou placebo como substância controle, outra o consumo usual de potássio. A excreção de potássio foi mais elevada quando a suplementação aconteceu via cápsula, em comparação ao maior consumo do mineral via dieta. 

Os resultados avaliados não são suficientes para propor indicações, principalmente quanto ao uso no longo termo, já que o mesmo não foi avaliado. Apesar dos estudos apresentarem metodologias sólidas, entre si, eram heterogêneas, não possibilitando uma comparação viável.  

Conclusão 

A suplementação de potássio pode contribuir com a função endotelial, e os resultados são diretamente associados à dosagem. Ainda, é necessário maior avaliação quanto aos parâmetros clínicos a serem avaliados e uma dose-resposta a ser indicada. 

Confira o artigo na íntegra aqui: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC9961878/ 

Até mais. 

Atualidades

Artigo Científico: Existe um consumo saudável de vinho?

O etanol é uma substância tóxica que precisa ser degradada pelo organismo. Por isso, o consumo de bebidas alcoólicas em altas doses é tão prejudicial e é de consenso que gera diversas consequências para a saúde.

Podem ser momentâneas após o consumo, como a desidratação e o desnorteamento; ou crônicas, como a doença hepática alcoólica. Por ser uma substância entorpecente também está associada com o agravamento de comportamentos de risco (2).

No entanto, quando o assunto é vinho, sempre parece haver uma sutil diferença em como o assunto é abordado, não é? 

No texto de hoje, leia o resumo de uma revisão da literatura sobre os impactos do consumo de vinho para a saúde e saiba o que a ciência tem a dizer sobre isso.

Introdução 

Toda a literatura científica deixa claro o posicionamento de que o abuso de consumo de bebidas alcoólicas causa grandes danos para a saúde. 

Porém, alguns estudos epidemiológicos apontam o consumo moderado de álcool, em particular de vinho, como um fator protetor. 

As associações entre tipo e dose de bebida alcoólica com o risco de determinadas doenças foram reavaliadas nesta revisão, assim como as diferenças entre vinho e outras bebidas alcoólicas. 

Metodologia 

Busca em base de dados por artigos publicados entre 2010 e 2022. Foram identificados 1867 artigos e apenas 24 foram selecionados por preencherem os critérios de inclusão necessários. 

Resultados 

  • Perfil fenólico do vinho e seus compostos bioativos

O vinho contém diversos compostos bioativos. O resveratrol, classificado no grupo dos estilbenos, é um dos mais estudados. O seu nível é alterado pelo tipo e variedade da uva, assim como as suas condições de cultivo. 

Quanto maior for a concentração de resveratrol nas uvas, maior será no vinho. Em geral, estará mais presente em uvas vermelhas, cultivadas em clima mais frio e em posição alta geograficamente. A maior concentração de resveratrol, de acordo com a literatura, é de 36 mg/L. 

​​Porém, o resveratrol não é o único composto capaz ou responsável pelos benefícios associados ao consumo moderado de vinho, os efeitos devem ser atribuídos ao conjunto dos compostos antioxidantes presentes e toda a sua complexidade e potencialidade de ação. 

O vinho também apresenta teor significante de outros compostos fenólicos. A concentração no vinho de quercetina, um flavonoide, é de aproximadamente 50 mg/L. O mesmo é conhecido por reduzir a inflamação, inibir NF-kB e reduzir a expressão de TLR2 e TLR4.

Outros compostos devem ser explanados com maior profundidade, como os taninos, ácidos fenólicos e flavonoides. Já há estudos que demonstram participação de quercetina, catequina, epicatequina e outros como protetores contra fatores oxidativos e atuantes na regulação de enzimas como glutationa-s-transferase (GST), glutationa reduzida (GSH), heme oxigenase I (HO-1) e superóxido dismutase (SOD). 

  • Dados epidemiológicos para o consumo baixo/moderado de vinho em: 
    1. Doenças cardiovasculares (DCV): o vinho tem demonstrado superioridade em comparação ao consumo de outras bebidas alcóolicas. Há evidências epidemiológicas que indicam que não há razão para os que bebem vinho com moderação (até 15g/dia) parem de beber. Não há indicação que abstêmios devem começar a beber álcool para a prevenção de DCV,
    2. Diabetes tipo 2 (DM2): há indícios de que o vinho tinto protege contra o DM2 e está associado à melhora da sensibilidade à insulina, quando há consumo moderado (150ml/dia). Resultados deletérios foram observados em quantidade de álcool > 50-60 g/dia.
    3. Doenças Neurodegenerativas: o consumo excessivo e crônico de álcool está associado com a ativação de processos neurodegenerativos. Em estudos prospectivos, o consumo de vinho foi associado com a redução do risco para demência, Alzheimer e derrame.
    4. Câncer: há aumento do risco com o consumo de álcool, principalmente do câncer de cabeça e pescoço, esôfago, fígado, mama, cólon e reto. O risco está relacionado à dose, com aumento para ingestão de álcool > 30 g/dia. Para a prevenção do câncer, álcool não deve ser uma substância consumida com regularidade. 
    5. Longevidade: há efeito protetor na ingestão média de 20 g de álcool por dia. Segundo os estudos, os efeitos benéficos, atribuídos ao resveratrol, da ingestão moderada de álcool são maiores do que a abstinência completa, mas são perdidos quando o consumo é excessivo.
  • Estilo de vida mediterrâneo e o vinho 

Na dieta mediterrânea é um padrão alimentar associado como protetor para diversas condições de saúde, apresenta um grande consumo de alimentos vegetais, azeite de oliva e um consumo baixo/moderado de alimentos de origem animal e de bebidas como o vinho. 

Os benefícios associados a esse padrão alimentar são atribuídos ao alto nível de consumo de compostos bioativos, fibras, gorduras mono e polinsaturadas. Quanto ao consumo de vinho, há um limite, que pode variar em cada país, de até 30g de álcool para homens e 15g para mulheres; duas ou uma taça de vinho, respectivamente.

Conclusão

O vinho é uma substância complexa, rica em compostos bioativos, os quais apresentam propriedades protetoras. Por isso, estuda-se a associação positiva existente entre o consumo baixo e moderado de vinho e proteção para doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e distúrbios neurológicos.

Os componentes bioativos não são a única explicação dos efeitos benéficos demonstrados em estudos epidemiológicos, há fortes fatores sociais associados ao consumo de vinho. 

Na dieta mediterrânea, por exemplo, o consumo de vinho ocorre durante as refeições, quando há presença de alimentos no estômago existe um retardo da absorção de etanol, auxiliando no metabolismo e degradação do mesmo. 

O estudo em questão apresenta limitações, tanto aos possíveis vieses nos estudos encontrados, quanto em avaliações individuais que são necessárias para estabelecer níveis seguros para o consumo de álcool. 

Por fim, profissionais de saúde não devem recomendar o consumo de álcool, pois pesquisas adicionais ainda precisam ser realizadas para mais esclarecimentos. Todas as ações devem focar em promover educação comportamental para prevenir abuso de substâncias. 

Confira o artigo na íntegra aqui: https://www.mdpi.com/2072-6643/15/1/175  

Até mais,

Atualidades

Artigo Científico: Suplementação de melatonina na nutrição

A suplementação de melatonina tem se popularizado entre muitas pessoas. Em geral, é utilizada visando a melhora do sono e ajuste do ciclo circadiano. No entanto, não deve ser tida como uma substância “para dormir”. 

A produção de melatonina acontece naturalmente para todos, a suplementação visa auxiliar essa via, principalmente se está em “deficit“. Sabemos que é um composto interessante, ainda mais por muitos estudos apresentarem o seu uso associado com diversos benefícios para a saúde. 

No entanto, quando o assunto é suplementação, muita atenção precisa ser concedida ao tema. Como a imagem abaixo indica, sempre há uma cadeia de fatores interferentes, os quais precisam ser avaliados individualmente. 

Por exemplo, para obter melhora no sono, há fatores mais importantes que a suplementação de melatonina, como a adequação da luz e do ambiente, o padrão alimentar e o consumo de determinados nutrientes. 

No texto de hoje, selecionamos os pontos principais de um artigo científico, para deixar o nutricionista atualizado sobre a suplementação de melatonina. Confira! 

  • Mecanismo de ação:

A suplementação de melatonina tem sido associada com a melhora da defesa antioxidante, redução do estresse oxidativo e efeitos anti inflamatórios. Há indícios de que a microbiota intestinal tenha participação na produção de melatonina, e que o funcionamento mitocondrial também exerce importante papel nesse sentido.

  • Uso clínico:

Aplicações têm ocorrido visando a modulação do ciclo circadiano, regulação do sono e distúrbios noturnos, melhora de condições cognitivas de saúde, como também há uso para casos de demência, TDH, autismo e enxaqueca. 

Alguns estudos avaliam o impacto da suplementação em outras condições como hipercolesterolemia, hipertensão, síndrome metabólica, regulação da glicemia, osteopenia fertilidade, SOP e tratamento conjunto para endometriose, doença do refluxo gastroesofágico, úlceras e Síndrome do Intestino Irritável, doenças autoimunes, melhora da imunidade em atletas e outras condições estressantes. 

  • Considerações Terapêuticas: 

A quantidade disponível de melatonina via fonte alimentar é relativamente baixa, mas há indícios de que o consumo de alimentos ricos em melatonina (ou seus precursores, o aminoácido triptofano, por exemplo) pode aumentar a disponibilidade da mesma no corpo. 

Ao comparar fontes alimentares vegetais com animais, o seguinte fator precisa ser considerado: a melatonina é encontrada em menor quantidade em alimentos de origem vegetal, no entanto, nesses alimentos há mais triptofano disponível. Por isso, a conversão final precisa ser levada em consideração. 

Alimentos ricos em triptofano facilitam a produção endógena de melatonina (banana, maçã, cereja, abacaxi, morango, amêndoas, nozes, linhaça e semente de girassol, lentilha, soja, leite e derivados); também é importante considerar a disponibilidade das enzimas N-acetiltransferase (NAT) e Hidroxindol-O-metiltransferase (HIOMT), para que ocorra a conversão de serotonina em N-acetilserotonina e por fim em melatonina.

  • Dosagem da Suplementação: 

Como suplemento dietético, a melatonina pode ser encontrada em variadas doses, desde 0.3 mg até 200 mg. No entanto, a orientação é que sempre seja utilizada a menor dose com maior eficiência. 

Os limites máximos ainda não foram definidos. A produção endógena varia de 0.1 a 0.9mg de melatonina diariamente. Resultados favoráveis foram encontrados com as seguintes dosagens: 0.3mg/dia (para a melhora do sono). 

Produtos com dose de 3 a 5 mg são comumente escolhidos por apresentarem uma errônea percepção de serem superiores. No entanto, suplementar acima do que é requerido fisiologicamente não acarreta em nenhum benefício. 

O indicado é que a suplementação se inicie em 0.3 mg e seja aumentada, se necessário, dependendo da finalidade pretendida. Em citação de outro estudo (Trends in Use of Melatonin Supplements Among US Adults, 1999-2018), há recomendação de que as pessoas não tomem melatonina em alta dose (>5mg), pois não há estudos de longo prazo avaliando a segurança de tal consumo na população em geral”. 

  • Recomendações: 

Consumir com 30 a 60 minutos de antecedência, já com as luzes baixas e sem uso de televisões ou equipamentos com luz azul. 

Não há estudos suficientes que indiquem a suplementação de melatonina em associação a outro composto. No entanto, os seguintes nutrientes têm sido estudados para tal finalidade: vitamina C, vitamina B12, glutationa, vitamina D e ácido fólico. 

Para escolher qual produto obter, considere seis fatores importantes: 

  • fonte (sintética e fitomelatonina – formas mais comuns), 
  • via (oral, sublingual, intravenosa, intranasal, intramuscular, etc) 
  • delivery (cápsula, comprimido, goma, mastigável)
  • ativos (isolada ou composta com outros nutrientes – ainda não há evidências de melhor efetividade por estar combinada)  
  • qualidade (certificação de boas práticas, livre de metais pesados e contaminantes, embalagem com garantia de shelf-life) 
  • dosagem (0.3-1.0mg é o comum) 
  • Contraindicações:

A melatonina é metabolizada com grande atividade da CYP1A2, e em menor proporção da CYP1A1, CYP1B1, CYP2C19. Cuidados devem ser tidos quando há uso de medicações do tipo sedativas e antidepressivos. Não há estudos que demonstrem a segurança da suplementação para gestantes ou lactantes.  

Confira o artigo na íntegra aqui: https://www.mdpi.com/2072-6643/14/19/3934/htm 

Até mais,