Atualidades

Artigo Científico: Suplementação de glutamina

A glutamina é um aminoácido não essencial, naturalmente presente em nosso organismo, sendo inclusive o mais abundante (1). É comercializado e consumido na forma de peptídeos de glutamina, obtidos por diferentes métodos, a depender da funcionalidade desejada. Quando obtidos por hidrólise enzimática não oferecem risco de reações adversas ao organismo (2).

Em algumas doenças, células do sistema imunológico e órgãos como intestino e rins utilizam quantidades mais elevadas de glutamina, que superam a produção endógena, reduzindo os níveis plasmáticos e musculares para suprir tal demanda. Por isso que esse aminoácido também é classificado como condicionalmente essencial (1).

Há anos o papel da suplementação de glutamina para a imunidade e no contexto oncológico são estudados. Depois, pesquisas passaram a avaliar o mecanismo de ação no trato gastrointestinal; visto que o intestino está entre os tecidos de maior consumo, utilizando cerca de 30% da glutamina corporal total (1).

Associação com saúde intestinal:

A barreira intestinal é uma estrutura complexa, responsável por regular a troca de substâncias entre o meio externo e o organismo. Quando há comprometimento de sua integridade, ocorre prejuízo na digestão e absorção de nutrientes, redução da defesa contra patógenos e maior risco de doenças sistêmicas (2).

Diversas evidências indicam que a glutamina modula a expressão estruturas conhecidas como tight junctions. A manutenção da permeabilidade intestinal é especialmente relevante em condições como doença de Crohn e doença celíaca (1).

Além de auxiliar na integridade da barreira intestinal, estudos também indicam inibir a ativação de NF-κB e STAT, reduzir a expressão da enzima iNOS e de citocinas inflamatórias, como IL-6, TNF-α e IL-8 (1).

A glutamina também atua como principal fonte de energia para os enterócitos e modula vias celulares de reparo endotelial. Com tantos benefícios, fica evidente o papel da glutamina na preservação da integridade estrutural e funcional do intestino, especialmente em condições fisiológicas e patológicas (2).

Evidentemente, dietas ricas em fibras e nutrientes específicos também se associam à manutenção da barreira intestinal. Como suplemento, a glutamina atua como combustível primário para enterócitos e células imunes, como leucócitos e linfócitos T. Entretanto, ainda existem inconsistências nos resultados apresentados a depender da dose e população estudada (3).

Estudos em humanos sugerem que suplementações por períodos inferiores a duas semanas, mas com doses superiores a 30 mg/dia, apresentam efeito mais consistente na redução da permeabilidade. Esses achados referem-se a indivíduos com doença de Crohn, câncer, HIV, pancreatite, pacientes críticos no pós-operatório, queimaduras e sepse (3).

Os estudos mais robustos realizados em humanos utilizam diferentes metodologias, dificultando assim conclusões mais definitivas sobre a eficácia clínica. É importante considerar que os resultados variam de acordo com população, dose e via de administração. Por isso, mais pesquisas são necessárias para definição de recomendações ideais (3).

Quanto à segurança de consumo e efeitos adversos, tanto em jovens quanto em idosos, a suplementação de glutamina demonstrou boa tolerabilidade. A dose considerada segura é de aproximadamente 0,15 mg/kg/dia, não foram observadas alterações em IMC, creatinina (toxicidade renal), AST/ALT (toxicidade hepática) ou ureia (catabolismo proteico). Em estudos com doses de 0,50 mg/kg/dia houve elevação dos níveis de ureia, creatinina e redução da taxa de filtração glomerular (4).

Associação com depressão:

Para além da saúde intestinal, esse aminoácido também exerce função como neurotransmissor. Evidências recentes mostram que a deficiência de glutamina na região pré-frontal medial, em modelos animais, induz comportamento depressivo, leve déficit cognitivo e redução da neurotransmissão glutamatérgica (5).

A suplementação demonstrou efeitos antidepressivos e melhora cognitiva em estudos com animais e humanos. As doses variam conforme o objetivo e a população estudada. Em modelos animais para depressão e comprometimento cognitivo, as doses são muito menores do que em estudos clínicos, ainda assim demonstrando efeito benéfico (5).

Fonte imagem: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10816396/

Associação com câncer:

Como mencionado anteriormente, a relação entre glutamina e câncer é estudada há anos. Na doença, as células tumorais podem utilizar glutamina como substrato metabólico, assim como glicose e leucina, contribuindo para processos celulares ligados ao desenvolvimento de processos tumorais (6.)

Por outro lado, o consumo de glutamina como suplemento também é relevante na defesa antioxidante, saúde intestinal, cognição e metabolismo celular sistêmico. Inclusive, a suplementação entre 10–30 g/dia em pacientes submetidos à quimioterapia e radioterapia não apresentaram impacto negativo no tumor ou em desfechos clínicos, indicando segurança de uso nessa dosagem para a população estudada (5).

Fonte imagem: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10930819/

Dessa forma, compreende-se as dúvidas quanto ao uso de glutamina durante o tratamento oncológico. Entretanto, é uma substância estudada há anos como terapia adjuvante. Além de seu papel estrutural para a membrana intestinal, pode auxiliar na função imunológica, reduzir toxicidades do tratamento, e contribuir para melhor qualidade de vida do paciente com câncer (7).

Ainda são necessários mais estudos para definir doses ideais, possíveis interações e segurança a longo prazo. As evidências disponíveis indicam que a glutamina não aumenta o crescimento tumoral nem compromete tratamentos. Em estudo com mulheres com câncer de mama, não houve diferença na redução tumoral entre suplementação e placebo (7).

Associação com desempenho esportivo:

Assim como em situações de doenças, a prática intensa de atividade física pode levar a uma alta utilização de glutamina pelo organismo, gerando uma depleção em tecidos como o intestino e afetando negativamente a barreira gastrointestinal.

Portanto, em teoria, ingerir glutamina antes ou durante o exercício poderia auxiliar na manutenção da saúde intestinal e compensar as depleções causadas pelo esforço físico.

Na prática o autor descreveu um estudo realizado com corredores em que de forma geral, uma dose alta (0,9 g/kg de massa livre de gordura) reduziu a permeabilidade gastrointestinal em comparação ao placebo. No entanto, o estudo em questão foi realizado em uma amostra pequena, apenas 8 participantes, e apresentou outras limitações.

Outras evidências indicam que a dependência das células intestinais em relação à glutamina pode ser reduzida quando glutamina e glicose estão disponíveis simultaneamente. Dessa forma, é incerto se a glutamina oferece benefícios adicionais quando existe consumo simultâneo de carboidrato.

Uma ressalva importante é que muitos estudos não avaliaram sintomas gastrointestinais, uma questão importante para a performance esportiva. Já em outros, > 50% da amostra declarou sintomas gastrointestinais leves a moderados nas duas horas iniciais após suplementação.

O autor conclui que até o momento a utilidade clínica de glutamina entre atletas ainda é especulativa (8).

O que achou do nosso resumo sobre o tema, nutri? Sentiu falta de alguma aplicabilidade? Deixe a sua sugestão aqui nos comentários! Até mais!

Referências:

  1. Glutamine enhances intestinal barrier function and tight junction The Roles of Glutamine in the Intestine and Its Implication in Intestinal Diseases. Link de acesso: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5454963/
  2. Glutamine Peptides: Preparation, Analysis, Applications, and Their Role in Intestinal Barrier Protection. Link de acesso: https://www.mdpi.com/2072-6643/17/6/1017
  3. A systematic review and meta-analysis of clinical trials on the effects of glutamine supplementation on gut permeability in adults. Link de acesso: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/pmid/39397201/
  4. Tolerability of glutamine supplementation in older adults: a double-blind placebo-controlled randomized clinical trial. Link de acesso: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11136481/
  5. The Role of Glutamine Homeostasis in Emotional and Cognitive Functions: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10816396/
  6. Glutamine Metabolism: Molecular Regulation, Biological Functions, and Diseases. Link de acesso: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12188105/
  7. Glutamine Supplementation as an Anticancer Strategy: A Potential Therapeutic Alternative to the Convention. Link de acesso: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10930819/
  8. Sport Supplements and the Athlete’s Gut: A Review. Link de acesso: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34814219/
Atualidades

Artigo Científico: Uma revisão sistemática e meta-análise do efeito da suplementação de vitamina D na depressão

Depressão e ansiedade são grandes preocupações na saúde pública global. Estima-se que cerca de 280 milhões de pessoas sofrem de depressão. A ansiedade também é um dos transtornos mentais mais comuns, com aumento de 50%, no número absoluto de pacientes, desde 1990. Durante a pandemia da COVID-19, observou-se um aumento nos sintomas de ansiedade e depressão em diversas populações ao redor do mundo.

Estudos observacionais já indicaram associação entre a deficiência de vitamina D e o risco aumentado de depressão. A vitamina D atua na regulação do sistema imunológico, promoção do crescimento celular e redução de processos inflamatórios. Além disso, influencia no funcionamento de genes essenciais para o sistema cerebral.

No entanto, é preciso analisar os efeitos da suplementação de vitamina D sobre os sintomas depressivos, considerando o impacto dose-resposta. Assim, o estudo em questão teve como objetivo realizar uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados com meta-análise de dose-resposta.

Metodologia

Buscas foram feitas em bases de dados como PudMed, Scopus e Web of Science, para encontrar estudos relevantes cientificamente, escritos em inglês e publicados após dezembro de 2022. Quanto aos critérios de inclusão, destaca-se: apenas artigos realizados em humanos, adultos, com grupo-controle e período de intervenção maior que quatro semanas.

Resultados e Discussão

A busca inicial teve como resultado 2243 publicações, após a revisão e exclusão, apenas 31 estudos foram incluídos na meta-análise de dose-resposta. A amostra total foi de 24.189 participantes, sendo 12.091 do grupo controle e 12.098 no grupo de intervenção.

Em 29 estudos a intervenção foi apenas de vitamina D3; mas, em um dos ensaios a vitamina D foi administrada combinada com cálcio, já em outro, com ômega-3. O período da intervenção da maioria dos estudos foi de 4 a 24 semanas, já as doses variaram de 1000 a 15.000 UI/dia.

Os resultados do estudo indicaram, com evidência de certeza moderada, que a suplementação com vitamina D tem efeitos benéficos sobre os sintomas depressivos em adultos. Verificou-se redução significativa dos sintomas depressivos a cada 1000 UI de vitamina D3 por dia. Essa melhora foi proporcional até a dose de 8000 UI/dia, ponto em que foi observado o maior efeito. Doses superiores não apresentaram benefícios adicionais.

A duração da intervenção influenciou os resultados. Estudos com até 8 semanas, ou aqueles entre 8 e 24 semanas, apresentaram efeitos mais fortes na redução dos sintomas depressivos. O período de 8 semanas parece ser o marco para que os efeitos da vitamina D começam a se manifestar, seja na prevenção ou no tratamento da depressão.

Em estudos com duração superior a 52 semanas, observou-se uma tendência de melhora, mas menos intensa. A redução da eficácia em intervenções mais longas pode estar associada à menor adesão, desistência dos participantes ou viés de atrito.

Há diversas hipóteses fisiológicas para os efeitos da vitamina D na depressão. Destacam-se suas ações na sinalização celular, neuroproteção, modulação imunológica, síntese de serotonina e redução de inflamações. Além disso, suas propriedades antioxidantes e influência nos ritmos circadianos podem contribuir para a melhora do humor.

Apesar dos pontos fortes deste estudo, uma limitação importante a ser destacada é que existem outros fatores além da suplementação que podem influenciar os sintomas depressivos. Além disso, ainda há evidências limitadas sobre os efeitos da vitamina D na ansiedade e na remissão da depressão. Essas variações podem ser explicadas por diferenças na dose, tipo de suplemento, duração do tratamento e características dos participantes.

Conclusão

Estudos epidemiológicos populacionais já haviam apontado uma associação entre baixos níveis séricos de vitamina D e maior risco de depressão. Os achados do estudo atual estão alinhados com essa hipótese, além de demonstrar que também há evidências que sugerem benefícios da vitamina D na redução de sintomas depressivos.

A suplementação pode melhorar significativamente os sintomas depressivos em intervenções de até 24 semanas, especialmente na dose de 8000 UI/dia. No entanto, não houve efeito sobre a remissão da depressão ou sintomas de ansiedade. São necessários mais estudos de alta qualidade para avaliar sua eficácia a longo prazo, que considerem os níveis iniciais de vitamina D dos participantes.

Confira o artigo na íntegra: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39552387/

Até mais!

Atualidades

Artigo Científico: Suplementação proteica e de nutrientes neuroprotetores para a cognição e composição corporal de idosos

Nota do autor: é importante considerar que o estudo foi realizado em uma amostra reduzida, com um produto pronto, dependente de disponibilidade e acesso. Assim, não é um estudo no qual indicamos basear condutas clínicas. No entanto, o mesmo ainda se mantém importante por indicar possibilidades no cuidado nutricional.  

Introdução

A sarcopenia e o declínio cognitivo são duas questões de saúde comum entre idosos, com grande impacto no estilo de vida e que demandam bastante atenção, tanto dos cuidadores, quanto dos profissionais da saúde.

Para a nutrição, algumas estratégias visam retardar ou prevenir o desenvolvimento de ambas condições clínicas. Além da ingestão adequada de macro e micronutrientes, estudos recentes têm avaliado o impacto dos suplementos para a saúde dessa população. 

O estudo em questão analisou os efeitos de um suplemento hiperproteico enriquecido com nutrientes associados com a neuroproteção no estado nutricional, risco de sarcopenia e melhora da função cognitiva de idosos. 

Metodologia 

A amostra foi composta de mulheres idosas, residentes em uma instituição de cuidado. O estudo foi prospectivo, randomizado, cross-over, placebo-controlado e duplo-cego. 

O suplemento utilizado foi o “All Nutri Senior”, já o grupo controle recebeu o “Cereal Senior”, um suplemento padrão à base de cereais, isocalórico, sem acréscimo de proteína ou mix de nutrientes. 

Para avaliar o impacto na cognição foi aplicado o questionário Mini-Exame do Estado Mental (MEEM). Já a avaliação do risco de sarcopenia foi feita por meio da aplicação do questionário SARC-F + CP. 

Resultados e Discussão 

O suplemento teve boa aceitação, com preferência de consumo no desjejum ou lanche da tarde. Entre as participantes, treze relataram maior saciedade com o consumo do mesmo. Também foi observada a redução de idosas com alterações gastrointestinais, como a constipação. 

Quanto ao risco de sarcopenia, o valor médio do SARC-F reduziu de 5,9 para 4,3, após o período de uso (oito semanas) do suplemento “All Nutri Senior”; o valor sugestivo de sarcopenia é superior a 11.

Por fim, também houve melhora nos resultados do MEEM, com aumento da pontuação média de 24,9 para 25,8; o valor indicativo de demência é menor ou igual a 24.

Conclusão 

A partir dos resultados foi possível concluir que o uso do suplemento por oito semanas gerou impactos positivos na capacidade cognitiva e redução do risco de sarcopenia. Também foi observado melhora da constipação e saciedade, além da redução do percentual de gordura corporal e ganho de massa muscular. 

O que achou? Não esqueça de conferir o artigo na íntegra: 

https://braspenjournal.org/article/doi/10.37111/braspenj.2023.38.2.08

Atualidades

Artigo Científico: Suco de beterraba na performance esportiva


Na suplementação nutricional muitas orientações passam por mudanças ao longo dos anos; algo que era promissor em uma época passa a não ser tão interessante em outra, e vice e versa. 

Por isso, a importância do nutricionista se manter atualizado. Principalmente para obter resultados seguros e eficazes junto aos seus pacientes/clientes. 

Para a performance esportiva há suplementos que já são bem difundidos, como a cafeína. Também é essencial entender que a efetividade de cada suplemento dependerá da modalidade esportiva, entre outros fatores. 

No caso do suco de beterraba, ou de produtos derivados, o efeito ergogênico acontece por um alto teor de nitrato (NO3 −). Essa substância promove um aumento nos níveis de óxido nítrico e melhor vasodilatação, aumentando o fluxo sanguíneo para o músculo e reduzindo a fadiga. 

No texto de hoje, leia o resumo de uma revisão da literatura sobre a efetividade dessa estratégia para a performance esportiva.

Materiais e Métodos

Na atual revisão foram utilizados artigos dos últimos cinco anos, com indivíduos entre dezoito e sessenta e cinco anos de idade. Após a avaliação da qualidade e nível de evidência, apenas seis estudos foram selecionados.

Resultados e Discussão 

Para avaliar o efeito da suplementação, quatro estudos aplicaram testes aeróbicos, enquanto os outros exercícios de força. Quatro estudos foram realizados com atletas e dois com indivíduos ativos fisicamente.

Em todos os estudos o suco de beterraba foi consumido em combinação com outro suplemento. Sempre havendo também o consumo de placebo ou suco de beterraba puro no grupo controle. 

Em três estudos resultados significativos não foram demonstrados com a combinação de suco de beterraba com cafeína; ou com nitrato; nem nitrato com arginina ou nitrato com citrulina. 

Já em outros três estudos, efeitos positivos foram encontrados com a combinação de suco de beterraba com cafeína, também com citrulina e com carboidratos. 

É importante compreender que a variação de resultados pode acontecer por diversos fatores, como o tipo de exercício, nível de treinamento do indivíduo, efeito placebo, quantidade ou frequência de consumo de outros suplementos. 

Conclusão

Poucos estudos que avaliam a combinação de suco de beterraba com outros suplementos foram conduzidos até o momento. 

A análise das evidências atuais indicam que há efetividade na estratégia, especialmente quando há um uso crônico e o exercício praticado é de alta intensidade. 

Estudos que avaliaram o efeito agudo da combinação de suco de beterraba com outro suplemento indicaram um menor impacto na performance esportiva. 

Confira o artigo na íntegra aqui: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38004231/

Até mais!

Atualidades

Artigo Científico: Segurança na Suplementação de Creatina

Na prática clínica a atualização é imprescindível, principalmente para se obter resultados seguros e eficazes. Acompanhar as mudanças de posicionamento da comunidade científica é uma ótima estratégia. 

Na suplementação nutricional muitas orientações passam por mudanças ao longo dos anos; algo que era promissor passa a não ser interessante, e vice e versa. Por isso, a importância de se manter atualizado. 

A creatina é um suplemento utilizado, em geral, por praticantes de atividade física com o objetivo de otimizar o ganho de massa muscular. Entretanto, outras finalidades também estão sendo estudadas e aplicadas. Inclusive, já escrevemos sobre esse tema aqui! 

No texto de hoje, o resumo de um artigo publicado na Nutrients. Os autores avaliaram as evidências disponíveis sobre a creatina, quais são os riscos, benefícios e a melhor forma de suplementar. 

Introdução 

A creatina é um dos suplementos dietéticos mais populares, o seu consumo oral melhora o conteúdo de creatina muscular; sendo utilizado por indivíduos que desejam melhorar o desempenho em atividades esportivas, ou os sintomas de condições clínicas (doenças reumáticas, neurodegenerativas e metabólicas).

Ao longo dos anos, preocupações surgiram com o uso de creatina, principalmente quanto a possibilidade de danos renais. No estudo a seguir, os possíveis riscos ou impactos da suplementação para a saúde foram discutidos, além de também sugerir recomendações seguras para o seu uso.

Resultados e Discussão

A creatinina sérica, produto final do metabolismo da cretina, em geral é o parâmetro mais utilizado para avaliar a função renal, como também para estimar a taxa de filtração glomerular. 

O uso crônico de creatina interfere nos níveis de creatinina, por exemplo, esse é um cuidado necessário para não gerar falha na interpretação de exames e diagnósticos

Assim, múltiplos marcadores (hematúria, albuminúria, proteinúria, etc) devem sempre ser avaliados, ao invés de associar o aumento de um parâmetro, a creatinina, com a possibilidade de disfunção renal. 

page3image64266784
Efeitos da suplementação de creatina no metabolismo, imagem obtida em: https://www.mdpi.com/2072-6643/15/6/1466#

A revisão científica em questão também analisa as evidências disponíveis em três diferentes níveis: em estudos com modelos animais, em estudos de caso e em estudos controlados.

Ainda existem lacunas quanto aos possíveis efeitos para a função renal no longo prazo, poucos estudos com temporalidade superior a 16 semanas, por exemplo. Assim, algumas recomendações podem possibilitar um uso mais seguro da creatina:

  • Utilizar até 20g por dia, de forma racionada;
  • Abster-se do uso em caso de doença renal pré-existente ou condição clínica que induz à baixa filtração glomerular; 
  • Monitorar a função renal de indivíduos que fazem o uso por longo prazo e são idosos ou apresentam condições clínicas agravadas. 
  • Ter cautela ao indicar produtos com novas formulações; 
  • Os suplementos devem ter nível de pureza atestado e livre de contaminantes.

Conclusão

A creatina é um dos suplementos mais consumidos ao redor do mundo. Apesar dos questionamentos ainda existentes sobre a sua segurança, os resultados de ensaios clínicos não corroboram com tal preocupação.

A suplementação pode aumentar a creatinina sérica de alguns indivíduos, mas esse fator não deve ser considerado isoladamente como indicativo para disfunção clínica. É contraindicada para aqueles com doenças renais pré-existentes, ou com risco de diminuição da taxa de filtração glomerular por condições clínicas, genéticas ou etárias. 

Na escolha do produto, os consumidores devem priorizar marcas devidamente testadas e com certificado de pureza, evitando riscos à saúde associados com possíveis contaminantes. 

Confira o artigo na íntegra aqui: https://www.mdpi.com/2072-6643/15/6/1466

Até mais!

Atualidades

Artigo Científico: Suplementação de melatonina na nutrição

A suplementação de melatonina tem se popularizado entre muitas pessoas. Em geral, é utilizada visando a melhora do sono e ajuste do ciclo circadiano. No entanto, não deve ser tida como uma substância “para dormir”. 

A produção de melatonina acontece naturalmente para todos, a suplementação visa auxiliar essa via, principalmente se está em “deficit“. Sabemos que é um composto interessante, ainda mais por muitos estudos apresentarem o seu uso associado com diversos benefícios para a saúde. 

No entanto, quando o assunto é suplementação, muita atenção precisa ser concedida ao tema. Como a imagem abaixo indica, sempre há uma cadeia de fatores interferentes, os quais precisam ser avaliados individualmente. 

Por exemplo, para obter melhora no sono, há fatores mais importantes que a suplementação de melatonina, como a adequação da luz e do ambiente, o padrão alimentar e o consumo de determinados nutrientes. 

No texto de hoje, selecionamos os pontos principais de um artigo científico, para deixar o nutricionista atualizado sobre a suplementação de melatonina. Confira! 

  • Mecanismo de ação:

A suplementação de melatonina tem sido associada com a melhora da defesa antioxidante, redução do estresse oxidativo e efeitos anti inflamatórios. Há indícios de que a microbiota intestinal tenha participação na produção de melatonina, e que o funcionamento mitocondrial também exerce importante papel nesse sentido.

  • Uso clínico:

Aplicações têm ocorrido visando a modulação do ciclo circadiano, regulação do sono e distúrbios noturnos, melhora de condições cognitivas de saúde, como também há uso para casos de demência, TDH, autismo e enxaqueca. 

Alguns estudos avaliam o impacto da suplementação em outras condições como hipercolesterolemia, hipertensão, síndrome metabólica, regulação da glicemia, osteopenia fertilidade, SOP e tratamento conjunto para endometriose, doença do refluxo gastroesofágico, úlceras e Síndrome do Intestino Irritável, doenças autoimunes, melhora da imunidade em atletas e outras condições estressantes. 

  • Considerações Terapêuticas: 

A quantidade disponível de melatonina via fonte alimentar é relativamente baixa, mas há indícios de que o consumo de alimentos ricos em melatonina (ou seus precursores, o aminoácido triptofano, por exemplo) pode aumentar a disponibilidade da mesma no corpo. 

Ao comparar fontes alimentares vegetais com animais, o seguinte fator precisa ser considerado: a melatonina é encontrada em menor quantidade em alimentos de origem vegetal, no entanto, nesses alimentos há mais triptofano disponível. Por isso, a conversão final precisa ser levada em consideração. 

Alimentos ricos em triptofano facilitam a produção endógena de melatonina (banana, maçã, cereja, abacaxi, morango, amêndoas, nozes, linhaça e semente de girassol, lentilha, soja, leite e derivados); também é importante considerar a disponibilidade das enzimas N-acetiltransferase (NAT) e Hidroxindol-O-metiltransferase (HIOMT), para que ocorra a conversão de serotonina em N-acetilserotonina e por fim em melatonina.

  • Dosagem da Suplementação: 

Como suplemento dietético, a melatonina pode ser encontrada em variadas doses, desde 0.3 mg até 200 mg. No entanto, a orientação é que sempre seja utilizada a menor dose com maior eficiência. 

Os limites máximos ainda não foram definidos. A produção endógena varia de 0.1 a 0.9mg de melatonina diariamente. Resultados favoráveis foram encontrados com as seguintes dosagens: 0.3mg/dia (para a melhora do sono). 

Produtos com dose de 3 a 5 mg são comumente escolhidos por apresentarem uma errônea percepção de serem superiores. No entanto, suplementar acima do que é requerido fisiologicamente não acarreta em nenhum benefício. 

O indicado é que a suplementação se inicie em 0.3 mg e seja aumentada, se necessário, dependendo da finalidade pretendida. Em citação de outro estudo (Trends in Use of Melatonin Supplements Among US Adults, 1999-2018), há recomendação de que as pessoas não tomem melatonina em alta dose (>5mg), pois não há estudos de longo prazo avaliando a segurança de tal consumo na população em geral”. 

  • Recomendações: 

Consumir com 30 a 60 minutos de antecedência, já com as luzes baixas e sem uso de televisões ou equipamentos com luz azul. 

Não há estudos suficientes que indiquem a suplementação de melatonina em associação a outro composto. No entanto, os seguintes nutrientes têm sido estudados para tal finalidade: vitamina C, vitamina B12, glutationa, vitamina D e ácido fólico. 

Para escolher qual produto obter, considere seis fatores importantes: 

  • fonte (sintética e fitomelatonina – formas mais comuns), 
  • via (oral, sublingual, intravenosa, intranasal, intramuscular, etc) 
  • delivery (cápsula, comprimido, goma, mastigável)
  • ativos (isolada ou composta com outros nutrientes – ainda não há evidências de melhor efetividade por estar combinada)  
  • qualidade (certificação de boas práticas, livre de metais pesados e contaminantes, embalagem com garantia de shelf-life) 
  • dosagem (0.3-1.0mg é o comum) 
  • Contraindicações:

A melatonina é metabolizada com grande atividade da CYP1A2, e em menor proporção da CYP1A1, CYP1B1, CYP2C19. Cuidados devem ser tidos quando há uso de medicações do tipo sedativas e antidepressivos. Não há estudos que demonstrem a segurança da suplementação para gestantes ou lactantes.  

Confira o artigo na íntegra aqui: https://www.mdpi.com/2072-6643/14/19/3934/htm 

Até mais,