Atualidades, Nutrição Materno-Infantil

Orientações práticas para a amamentação

Apesar de todos os incentivos ao aleitamento materno exclusivo, no Brasil o mesmo apresenta indicadores aquém dos níveis desejados.

Diversos são os fatores que podem impactar na redução do desmame, como a dificuldade inicial com a técnica da mamada, ou a falta de suporte familiar. 

Assim, ainda antes do nascimento da criança, os nutricionistas como educadores em saúde podem exercer diversas influências positivas, como falamos no post anterior.

Como foi dito, uma das principais contribuições do nutricionista para a promoção do aleitamento materno é na educação prática de gestantes e puérperas.

Ainda pensando no “Agosto Dourado”, seguem algumas orientações importantes que podem ser anexadas ao atendimento nutricional: 

Antes de iniciar a amamentação: 

  • A mãe deve lavar as mãos, antebraço e unhas com água e sabonete. As unhas preferencialmente devem estar curtas para evitar que machuque o bebê e facilitar a higienização;
  • Um pouco do próprio leite deve ser passado na região mamilo-areolar; 
  • Verificar a flexibilidade mamilo-areolar e caso a mama esteja cheia ou ingurgitada, a mãe deverá realizar massagem ou ordenha manual antes de colocar o bebê para mamar. Facilitando assim a pega e a retirada do leite.

Durante a amamentação:

  • Apresentar a mama em “C” para auxiliar o aprendizado do bebê a ter boa pega;
  • Para facilitar o reflexo de busca do bebê, pode-se virar o rostinho em direção à mama e tocar o mamilo na comissura labial esquerda, direita, superior ou inferior do bebê;
  • As mães devem estar tranquilas no momento da amamentação, pois não há tempo fixo para o bebê mamar. Isso dependerá da pega, da posição adequada e da voracidade do bebê para retirar o leite. Pois o bebê suga, deglute, respira e pode fazer uma pausa, em alguns momentos, para descansar;
  • Caso a pausa se prolongue, toque nas orelhas ou pés do bebê para que retome a sucção.
fonte: https://www.promatre.com.br/wp-content/uploads/2022/02/PM_CartilhaAmamentacao_2022_compressed.pdf

A todo momento é importante que a criança esteja bem posicionada, sem o pescoço torcido ou o queixo longe da mama e verificar para corrigir caso o lábio inferior do bebê esteja virado para dentro. 

O posicionamento correto do binômio mãe-lactente, que assegura a pega adequada e evita traumas mamilares (mastite, fissura, ferida mamilar, dor, abscessos mamários, ingurgitamento mamário). 

Para tranquilizar as mães, também é interessante ensinar os cinco sinais de que a posição está correta:

  1. O bebê se aconchega até o peito da mãe, abraçando-a.
  2. A barriga do bebê encosta-se ao corpo da mãe.
  3. O rostinho do bebê fica de frente para a mama.
  4. A cabeça e a coluna do bebê estão alinhadas.
  5. A cabeça do bebê está apoiada no braço materno.

Para finalizar, é possível encontrar diversas orientações complementares em ferramentas educativas, como na própria lâmina para nutricionistas do Allivici.

Até mais!

Atualidades, Nutrição Materno-Infantil

Amamentação: o papel do nutricionista como educador da saúde

O aleitamento materno, além de nutrir adequadamente a criança, também reduz a morbimortalidade infantil e o desenvolvimento de doenças comuns na infância, como distúrbios gastrointestinais e pneumonias. Além disso, contribui fortemente para a formação do vínculo afetivo profundo entre o binômio mãe-lactente.

Por todos esses e outros benefícios, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde brasileiro preconizam que o aleitamento, principalmente de forma exclusiva, seja oferecido até os seis meses de idade da criança, podendo ser estendido até os 2 anos, em conjunto à alimentação complementar.

Os nutricionistas como educadores em saúde podem exercer diversas influências positivas, por exemplo:

  • Conhecer a história de vida materna e familiar, podendo nortear melhor a conversa e motivá-la a manter a amamentação; 
  • Conversar sobre a oferta de bico/chupeta, pois podem causar confusões de bico e interferir na alimentação do bebê, inclusive, na interrupção do aleitamento;
  • Incentivar que o parto seja realizado em um Hospital Amigo da Criança, para que a interação mãe e filho seja o mais próximo possível no parto; 
  • Educação prática de gestantes e puérperas sobre o processo da pega e a amamentação

Outras observações nutricionais importantes: 

  • Os intervalos entre as mamadas são geralmente menores em bebês em aleitamento materno exclusivo, diferentemente de bebês que recebem fórmulas infantis, pois o leite materno apresenta digestibilidade mais rápida;
  • É muito importante que o bebê esvazie uma mama antes de oferecer a outra, garantindo que o consumo do leite anterior e posterior; 
  • Caso a mãe apresente trauma mamilar, mastite ou ingurgitamento, a posição ideal a ser orientada é a invertida – a cabeça do bebê fica apoiada na mão da mãe, o antebraço apoia o corpo do bebê e a barriga do bebê permanece encostada na mãe; o braço que segura o bebê é o mesmo lado da mama oferecida; 
  • Já a posição cavaleiro pode ser indicada em casos de bebês prematuros, sonolentos, com lábio leporino, fenda palatina, com refluxo gástrico e obstrução nasal;
  • Para as mães que precisam retornar ao trabalho fora de casa, a retirada e o armazenamento correto do leite devem ser orientados. 

Conforme os estudos indicam, a educação sobre o aleitamento materno desde o pré-natal é essencial, e deve ser continuado após o parto; quando a amamentação se concretiza surgem dúvidas, dificuldades e ansiedades maternas que podem interferir no sucesso da amamentação. 

Para o nutricionista é muito interessante ter conhecimento sobre a rotina de seus clientes. Pois, antecipar situações difíceis, apresentar soluções e oferecer orientações adequadas diante de diferentes cenários, pode ser o caminho mais eficaz para motivar a continuidade da amamentação. 

Até mais! 

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Gessandro Elpídio Fernandes et al. Dificuldades iniciais com a técnica da mamada e impacto na duração do aleitamento materno exclusivo. Rev. Bras. Saude Mater. Infant.,  Recife ,  v. 18, n. 3, p. 517-526,  set.  2018. http://dx.doi.org/10.1590/1806-93042018000300005

CIRICO, Michelli Oliveira Vani; SHIMODA, Gilcéria Tochika; OLIVEIRA, Rebeca Nunes Guedes de. Qualidade assistencial em aleitamento materno: implantação do indicador de trauma mamilar. Rev. Gaúcha Enferm.,  Porto Alegre ,  v. 37, n. 4,  e60546,    2016 .    http://dx.doi.org/10.1590/1983-1447.2016.04.60546

MORAES, Bruna Alibio et al . Fatores associados à interrupção do aleitamento materno exclusivo em lactentes com até 30 dias. Rev. Gaúcha Enferm.,  Porto Alegre ,  v. 37, n. spe,  e2016-0044,    2016 .   http://dx.doi.org/10.1590/1983-1447.2016.esp.2016-0044

Atualidades

Doença Celíaca e Níquel: qual é a relação?

A Doença Celíaca é uma desordem autoimune desencadeada pelo consumo de glúten, responsável pela condição inflamatória crônica intestinal em indivíduos geneticamente susceptíveis, que apresentam resultados positivos para o Antígeno Leucocitário Humano (HLA) DQ2 e/ou DQ8 (1). 

As principais manifestações após o consumo do glúten são gastrointestinais, como distensão abdominal, dor abdominal, diarreia e constipação. O tratamento requer uma dieta isenta de glúten e que evite o risco de contaminação cruzada. Por isso, o papel do nutricionista no tratamento é essencial.

No entanto, há quadros em que o paciente com doença celíaca segue apresentando queixas intestinais, mesmo após as restrições alimentares. O que fazer? 

Além de avaliar outras hipersensibilidades, há outras duas alternativas – avaliar e ajustar o consumo de:

Alimentos ricos em níquel

Há condições clínicas que apresentam sintomas gastrointestinais semelhantes com a doença celíaca e a síndrome do intestino irritável, como a síndrome de alergia sistêmica ao níquel (2,3).

O interessante é que muitos alimentos sem glúten contém alto teor de níquel e, assim, a sensibilidade ao níquel pode exacerbar os sintomas em indivíduos predispostos, principalmente se houver um consumo a longo prazo. São esses:

  • FRUTAS: banana, pêssego, uva, abacaxi, figo, morango, cacau, pera e cereja. 
  • VEGETAIS: alface, couve-manteiga, espinafre, tomate, aspargos, cebola, salsão, cenoura e vagem. 
  • CEREAIS E TUBÉRCULOS: batata, milho, aveia, e trigo sarraceno.
  • LEGUMINOSAS E OLEAGINOSAS: grão-de-bico, lentilha, ervilha, feijão, soja e amendoim.
  • PESCADOS/FRUTOS DO MAR: bacalhau, linguado, cavalinha, sardinha, marisco, camarão, lagosta, ostra e arenque.
  • OUTROS: alimentos enlatados, vinagre, ketchup, vinho tinto, café e chás.

A variabilidade de concentração de níquel nos alimentos é alta. Depende do tipo de solo, espécies de plantas, água de irrigação, fertilizantes e pesticidas. Assim, por ser impossível sua eliminação total da dieta, a recomendação é de evitar os alimentos com alto teor estimado de Ni (Ni> 100 μg / kg).

Alimentos ricos em FODMAPs

Nesse caso, uma dieta pobre em polióis e oligo -, di- e monossacarídeos fermentáveis (FODMAPs) pode amenizar os sintomas gastrointestinais. Principalmente por esses alimentos serem responsáveis por uma maior fermentação intestinal, podendo causar distensão, gases e outros sintomas semelhantes.

  • FRUTAS: maçã, cereja, abacate, banana, manga, pêssego, pera, melancia, nectarina, ameixa. 
  • CEREAIS E TUBÉRCULOS: amaranto, trigo, centeio, arroz, centeio, quinoa.
  • FRUTAS: maçã, cereja, abacate, banana, manga e coco.
  • LEGUMINOSAS E OLEAGINOSAS: ervilhas, feijões, pistache, castanha de caju.
  • VEGETAIS: abóbora; aspargos, alcachofra, cebola, alho, beterraba, couve, aipo.
  • OUTROS: mel, cevada, adoçantes, inulina, café instantâneo e chá de camomila.

Curiosidade: os números são maiores para o sexo feminino, tanto para a doença celíaca (3:1 (mulher/homem) quanto para a hipersensibilidade ao níquel (15 a 20%).

Outras referências: 

Borghini, R. Efeitos benéficos de uma dieta com baixo teor de níquel na recidiva de sintomas semelhantes ao IBS e extra intestinais em pacientes celíacos durante uma dieta sem glúten adequada: Mucosite de contato alérgica com níquel na suspeita de doença celíaca não responsiva. Nutrients 2020 , 12 (8), 2277.

Atualidades

Doença Celíaca e Níquel: o que o nutricionista precisa considerar

A Doença Celíaca é uma doença inflamatória crônica intestinal desencadeada pelo consumo de glúten em indivíduos geneticamente susceptíveis, que apresentam resultados positivos para o Antígeno Leucocitário Humano (HLA) DQ2 e/ou DQ8. 

Além desses, o diagnóstico de Doença Celíaca em adultos pode ser confirmado pelos resultados positivos dos testes sorológicos específicos para Anticorpo Anti-Endomísio e Anti-Transglutaminase tecidual e associados aos achados de atrofia das vilosidades intestinais, no exame histológico em biópsias duodenais. 

O alvo principal na Doença Celíaca é o intestino e assim, pode acontecer manifestações gastrointestinais após o consumo de glúten, tais como distensão abdominal, dor abdominal, diarreia e constipação.

Além desses, podem acontecer também sintomas extra-intestinais. 

O tratamento para a Doença Celíaca é a dieta livre de glúten vitalícia e estrita. Entretanto, muitos pacientes com Doença Celíaca se queixam da persistência ou recaída dos sintomas, mesmo seguindo a dieta livre de glúten.

Nesses casos, além da checagem minuciosa do profissional de saúde sobre a adesão a alimentação orientada e do acompanhamento dos exames laboratoriais, pode ser interessante descartar possíveis diagnósticos de outras doenças intestinais, tais como a Síndrome do Intestino Irritável, ou Intolerância à Lactose. 

Alguns casos, mesmo após essas investigações, permanecem sem solução. E levam a  tentativas com uma dieta pobre em oligo -, di- e monossacarídeo fermentáveis e polióis (FODMAPs). 

Nesse sentido, de tentar outras possíveis interferências alimentares, mais recentemente, a mucosite de contato alérgica ao níquel, foi sugerida como uma nova abordagem terapêutica. Uma vez que ao consumir alimentos ricos em níquel, podem aparecer sintomas semelhantes aos da Síndrome do Intestino Irritável. 

Esse quadro pode fazer parte da Síndrome alérgica sistêmica ao níquel e pode levar além das manifestações gastrointestinais, também a sintomas extra intestinais. 

Essa questão se torna relevante para o nutricionista, pois a maioria dos alimentos sem glúten contém alto teor de níquel e, assim, a sensibilidade ao níquel pode exacerbar os sintomas em indivíduos predispostos, especialmente quando há presença de Doença Celíaca em dieta sem glúten em longo prazo.  

Confira os alimentos ricos em níquel e também as fontes de FODMAP! Duas linhas propostas para tratamento de pessoas com sintomas gastrointestinais que aparentam não ter solução. 

Sobre o níquel

Um elemento presente em muitos alimentos, com uma certa variabilidade de concentração dependendo do tipo de solo e espécies de plantas, água de irrigação, fertilizantes e pesticidas. Assim, por ser impossível sua eliminação total da dieta, recomenda-se evitar apenas alimentos com alto teor estimado de Ni (Ni> 100 μg / kg). Ainda, o uso de utensílios e panelas de aço inoxidável também tem sido desencorajado, a fim de reduzir a contaminação por níquel durante o cozimento.

Interessante saber

Há maior prevalência no sexo feminino na Doença Celíaca. De acordo com a literatura, a proporção está estimada em cerca de 3:1 (mulher/homem). Assim como também acontece com a alergia ao níquel, mais comum em mulheres, com uma prevalência aproximada de 15 a 20%. 

Alimentos ricos em Níquel e FODMPAs:

Alho

Couve-flor

Cebola

Repolho

Aspargos

Brócolis

Alcachofra

Couve de bruxelas

Alho poró

Cogumelos

Feijões

Peras

Ervilha

Ameixa

Soja

Mirtilos

Frutas secas

Chás

Alimentos ricos em FODMAP:

Maçã

Cerejas

Cevada

Mel

Abacate

Abóbora

Amaranto

Adoçantes

Banana

Trigo Farinha de coco

Inulina

Manga

Centeio

Café instantâneo

Pêssego

Quinoa

Chá de camomila

Toranja

Arroz

Referências:

Carrapatoso, I. et al. Dermatite endógena induzida pela ingestão de níquel. A propósito de dois casos clínicos. Revista Portuguesa de Imunoalergologia 2004; XII : 261-270. 

Borghini, R. Efeitos benéficos de uma dieta com baixo teor de níquel na recidiva de sintomas semelhantes ao IBS e extraintestinais em pacientes celíacos durante uma dieta sem glúten adequada: Mucosite de contato alérgica com níquel na suspeita de doença celíaca não responsiva. Nutrients 2020 , 12 (8), 2277. 

Nutrição Materno-Infantil

O ácido araquidônico no leite materno

Dentre os inúmeros benefícios do leite materno para o crescimento e desenvolvimento adequados dos bebês, está a presença, mesmo que em quantidades relativamente pequenas, dos ácidos graxos essenciais.

Tanto o ácido araquidônico (ARA), quanto o ácido docosahexaenoico (DHA) estão presentes nos glóbulos de gordura, na forma de triglicerídeos e, secundariamente, em fosfolipídeos (fosfatidiletanolamina, fosfatidilcolina, esfingomielina, fosfatidilserina e fosfatidilinositol).

Em relação ao ácido araquidônico no leite humano, sua presença influencia a formação de uma variedade de moléculas bioativas, incluindo as prostaglandinas. Esses componentes irão beneficiar os lactentes em diferentes tecidos, tais como:

– Proteção e auxílio na motilidade intestinal;

– Modulação da inflamação, pois atuam como sinalizadores;

– Papel no início da resposta da sucção do leite;

– Modulação da saciedade e metabolismo energético;

– Desenvolvimento cerebral. 

Desta forma, cuidar da alimentação materna para que haja uma boa variedade no consumo de gorduras, incluindo fontes de gorduras poli-insaturadas em quantidades adequadas é garantir que o ácido araquidônico pré formado esteja presente no leite e exerça todos os benefícios citados acima ao bebê amamentado.

Vale mencionar que a recomendação para quando a mãe não puder amamentar, é que a fórmula indicada tenha a adição de DHA e ARA.  

Referência

Salem, N. Jr .; Van Dael, P. Ácido araquidônico no leite humano. Nutrientes 2020 , 12 , 626.

Nutrição Materno-Infantil

Saiba mais sobre as diferenças entre os leites e as bebidas vegetais

O aumento no número de casos de crianças com alergia ao leite de vaca, ou intolerância à lactose, bem como a maior disseminação dos hábitos alimentares veganos, tem refletido diretamente no crescimento da busca por bebidas alternativas, provenientes de fontes animais ou vegetais (dependendo de cada caso). E essa mudança de comportamento acaba por suscitar um novo desafio aos profissionais de nutrição: educar a população acerca dos substitutos realmente adequados, disponíveis no mercado alimentício.

Para tanto, é necessário considerar as características do leite a ser substituído. O leite de vaca, por exemplo, contém energia, carboidratos (lactose), gorduras, proteínas, vitaminas B1, B2, B6, retinol, carotenos, vitamina E e minerais, com destaque para o cálcio, e em menores teores fósforo, potássio, magnésio e sódio.

Não obstante o aumento nos últimos anos de leites de outras espécies animais, tais como leite de búfala, responsável por 13% da produção global, seguido pelo de cabra (2,3%), ovelha (1,4%) e camela (0,3%), o leite de vaca continua correspondendo à 83% da produção mundial.

Entre eles, por certo, há diferenciação de características e composição. Uma amostra é o leite de búfala, acima citado, que contém mais que o dobro da quantidade de energia quando comparado ao leite de vaca. Valor que, vale frisar, é também elevado devido a acentuada quantidade de gordura saturada.

Ainda nessa comparação, o leite de búfala apresenta um pouco mais de proteínas, e ambos os leites contam com proporção similar de lactose.

Se analisarmos o leite de cabra, veremos que sua composição é semelhante ao leite de vaca, principalmente no tocante à quantidade de gorduras saturadas. Quanto a isso, inclusive, é importante ressaltar que o leite de cabra é rico em ácidos graxos de cadeia curta e média (6 a 10 átomos de carbono) – o que torna essa gordura uma fonte para rápido uso de energia (essa composição contribui para seu sabor característico). Possui quantidades de carboidratos e proteínas equivalentes ao leite de vaca, e um maior teor de retinol. 

Quanto ao leite de ovelha, sua digestibilidade é facilitada em razão dos tamanhos médios dos glóbulos de gordura. Ele possui maior teor de lactose, quando comparado aos leites de vaca e cabra, níveis mais baixos de sódio e potássio e altos níveis de retinol e taurina.

Embora não tenham sido citados nas porcentagens acima, referentes à produção mundial, os leites de égua e burro também devem ser analisados. Nesse sentido, ambos possuem baixo nível de lactose, caseínas, caseína e gorduras – sendo essas prioritariamente composta por ácidos graxos poli-insaturados, contendo ácido alfa-linolênico (série ALA, ômega 3) e ácido linoleico (série LA, ômega 6) – essenciais e precursores do ácido docosahexanoico (DHA) e ácido araquidônico (AA).

Os leites de dromedário e camelo (animais conhecidos como semi-ruminantes por terem no estômago 3 compartimentos e não 4 como os ruminantes) têm importância social e nutricional em áreas áridas e semi-áridas como fonte de alimentação para a população. O leite de camelo possui maior teor de gordura em relação ao de dromedário, no entanto, quanto à lactose, o conteúdo de ambos é similar.

Em relação ao leite de vaca, o leite de dromedário possui maior teor de ácidos graxos monoinsaturados e o de camelo menor teor de ácidos graxos saturados. Esses dois leites chamam a atenção pelo baixo teor de beta-lactoglobulina, sendo a proteína mais comum a alfa-lactalbumina e beta-caseína. Tais características os tornam fontes de maior digestibilidade, bem como suscitam a menor incidência de alergias.

Pelas diferenças expostas, e para que se encontre um substituto adequado ao leite de vaca (considerando o objetivo e as peculiaridades de cada caso), é que se torna tão imprescindível o maior conhecimento acerca da composição e características dos diversos tipos de leites disponíveis. E isso se refere não apenas aos de origem animal, mas também às bebidas vegetais. Essas últimas, vale dizer, vem sendo cada vez mais conhecidas e procuradas, em decorrência da maior disseminação dos hábitos alimentares veganos nos últimos anos

Tratam-se de bebidas (extratos) provenientes de cereais (aveia, arroz, milho), leguminosas (soja, amendoim, tremoço, feijão), oleaginosas (amêndoa, avelã, girassol – o de coco entraria nessa categoria) e a base de pseudo-cereais (quinoa, teff, amaranto).  

Quanto a sua terminologia, embora sejam comumente conhecidas como “leite vegetais”, segundo o regulamento 1308/2013 o termo “leite” deve ser utilizado apenas para designar produtos obtidos pela ordenha, sendo os demais denominados como bebidas (as exceções cabem apenas aos extratos obtidos de amêndoa e coco, os quais podem ser chamados de leites).

No que tange às diferenças de bases e composições, vale a análise de alguns tipos (os mais usuais) de bebidas e leites vegetais, quais sejam: soja, amêndoa, arroz, coco e aveia, conforme se verá a seguir.

A bebida de soja teve seu uso relatado pela primeira vez há cerca de 2000 anos na China. Ela contém carboidratos e gorduras muito mais baixos, e consequentemente menor valor energético, se comparados ao leite de vaca. Em relação ao perfil lipídico, possui menores níveis de ácidos graxos saturados e maiores quantidades de gorduras monoinsaturadas e polinsaturadas.

Ao utilizá-la é importante estar atento à necessidade de suplementação do mineral cálcio e da vitamina B12. Alguns de seus benefícios são a ausência de lactose e colesterol, maior quantidade de proteínas em comparação a outras bebidas e alta digestibilidade. Importante salientar que a bebida de soja não deve ser oferecida antes do primeiro ano de vida, bem como faz-se essencial a prévia avaliação de possíveis alergias.

Quanto ao leite de amêndoa, observamos maiores níveis de gorduras mono e poli-insaturadas e bons níveis de vitamina E, cálcio, potássio, magnésio, ferro, selênio, cobre e zinco.  Tem como benefício seu papel prebiótico, influenciando o crescimento de bactérias benéficas no intestino. No uso desse leite, a suplementação de vitamina B12 também deve ser avaliada.

A bebida de arroz, por sua vez, é composta prioritariamente por carboidratos, apresenta menor teor de gorduras e possui cálcio, magnésio, ferro, vitaminas A e E. Já no leite de coco verifica-se alto teor de gordura (saturada), menor teor de proteínas, carboidratos, fibras e altos níveis de potássio, magnésio, ferro, zinco, vitaminas C e E.

            No que tange à bebida de aveia, podemos identificar menor teor de gorduras e proteínas, um bom perfil de aminoácidos e alta quantidade de fibras e fitoquímicos (antioxidantes). Em relação ao seu conteúdo de fibras, apresenta beta-glucana, do tipo solúvel e que tem a capacidade de diminuir os níveis de colesterol e glicose. Importante avaliar a necessidade de suplementação de cálcio quando essa bebida é utilizada.

Quando comparamos tais bebidas ao leite de vaca, torna-se importante enfatizar que:

– A bebida de soja apresenta teor de proteínas muito semelhantes ao leite de vaca. Outras boas fontes seriam as bebidas a base de quinoa, cânhamo e aveia.

– Nas bebidas a base de plantas alguns aminoácidos podem ser limitantes e com isso, a variedade do consumo ao longo do dia com outros alimentos é necessária. (*Limitantes: lisina nos cereais e metionina nas leguminoasas).

– As bebidas a base de planta não irão conter lactose, mas é importante estar atento as adições de açúcar e adoçante. E preferencialmente optar pelas bebidas sem esses componentes.

– Caso a criança tenha que fazer algum controle glicêmico o melhor seria optar por outras bebidas que não a base de arroz ou coco, por essas terem um índice glicêmico alto (IG>96). As melhores opções seriam aveia (IG = 59), pela presença da beta-glucana ou soja (IG 47-61) ou amêndoa (IG 49- 64).

– Geralmente as bebidas a base de vegetais industrializadas serão fortificadas com algumas vitaminas e minerais, mas caso os pais optem por prepara-las em casa é importante orientá-los para que complementem a alimentação ao longo do dia com vegetais folhosos verdes escuros, leguminosas e oleaginosas.

Por fim, diante de todo o exposto, conclui-se essencial o papel do profissional de nutrição no que se refere à escolha e à substituição dos leites e bebidas adequadas para cada caso, considerando a substituição do leite de vaca. Além disso, o profissional deve, ainda, estar atento a possíveis possíveis suplementações ou complementações via alimentação.

Nutrição Materno-Infantil

Vitamina D e Gestação

A associação entre os níveis plasmáticos de vitamina D e os desfechos do ciclo gravídico são bem documentados na literatura científica. Essa vitamina lipossolúvel é sintetizada pelos seres humanos, sob condições adequadas, por um processo que se inicia com a oxidação do colesterol da dieta no intestino, formando o 7-dehidroepicolesterol, que carregado pela corrente sanguínea até a pele é convertido, sob efeito da radiação ultravioleta B solar (UVB) de forma não enzimática, em colecalciferol e, cerca de 90% do total de vitamina D no organismo se deve a essa via de síntese.

O feto é dependente da mãe para adquirir vitamina D, pois essa atravessa a placenta e no primeiro trimestre começa acumulando  cerca de 2-3 mg/dia de cálcio no esqueleto e essa reserva dobra no último trimestre. Assim, a gestante se adapta às necessidades fetais e aumenta a absorção de cálcio no início da gravidez, atingindo um nível máximo no último trimestre. A transferência é contra balança pelo aumento da absorção intestinal e redução da excreção urinária de cálcio.

Essa vitamina está intimamente relacionada a homeostase do mineral cálcio e a manutenção do tecido ósseo. Além da saúde óssea, a vitamina D regula os principais genes associados à adequada implantação da placenta e gestantes que apresentam deficiência dessa vitamina tem um aumento na síntese de citocinas pró- inflamatórias, como TNF-alfa e IL-6 e esse quadro pode favorecer a diabetes gestacional, pré-eclâmpsia.

Para acompanhamento dos níveis séricos de vitamina D, é importante lembrarmos que essa tem meia vida de 2 a 3 semanas, e a forma circulante, inerte, considerado o biomarcador de status de vitamina D é o 25 (OH)D3 (calcidiol) é ativado no fígado pela ação da enzima 25- hidroxilase (enzima da classe de citocromo, dependente de ferro e magnésio. E que após essa etapa, há captação pelos rins, cuja enzima 1-alfa-hidroxilase dependente do hormônio PTH, incorpora um segundo grupamento OH, no primeiro carbono, formando o metabólito ativo da vitamina D (calcitriol ou 1,25(OH)2 D3). Outros tecidos que também possuem essa enzima ativam a vitamina D, tais como glândulas paratireoides, mamas, intestino, próstata, pulmão, monócitos, pâncreas, queratinócitos e placenta.

Essa vitamina é recrutada ainda no funcionamento adequado da tireoide, estimulando a ação das células beta pancreáticas e consequentemente a síntese e secreção da insulina, estimulam a diferenciação de linfócitos T CD4 em Linfócitos T regulatórios, que são capazes de produzir interleucinas menos inflamatórias (IL-10 e TGF- β) – melhorando a tolerância imunológica e imunossupressão.

Assim, quando não há hipovitaminose D prevenimos que a gestante desenvolva alterações metabólicas, favorecemos a adequada fecundação, reduzimos o risco de abortamento, nascimento de bebês pequenos para a idade gestacional, partos prematuros, vaginose bacteriana, raquitismo congênito, doenças alérgicas, asma pós nascimento e desenvolvimento cerebral alterado.

O nascimento de bebês de mães que receberam suporte de vitamina D durante a gestação demonstra melhores resultados em relação a parâmetros como crescimento ao nascer, comprimento, circunferência cefálica e circunferência torácica.

Devemos acompanhar os resultados dos exames laboratoriais de nossas pacientes gestantes, e a literatura científica indica que os níveis plasmáticos de vitamina D em gestantes devem estar superiores a 50nmol/L (ou 20ng/mL).

Segundo o Institute of Medicine, as recomendações de consumo alimentar de vitamina D por gestantes é de 10µg/dia. Já em relação a suplementação as recomendações da Canadian Academy of Pediatrics e American College of Obstetricians and Gynecologists recomendam respectivamente a suplementação de 2.000 UI /dia durante a gestação e lactação. Estudos recentes indicam que a suplementação até 4.000UI por dia em gestantes não levou a relatos de hipercalcemia ou hipercalciúria. Em relação a toxicidade por suplementação, o risco pode ocorrer acima de 20.000UI por dia e pode levar a hipercalcemia e hipercalciúria.

Além da exposição solar e do consumo alimentar, alguns outros fatores que reduzem a síntese dessa vitamina devem ser considerados por nós, nutricionistas no momento da montagem do plano alimentar e prescrição da suplementação, fatores como: uso de protetor solar com fator de proteção 30 reduz em 95% a produção; peles com lesão por queimaduras; nebulosidade e contaminação atmosférica; estação do ano, hora do dia, pele com tons mais escuros necessitam de mais tempo de exposição ao sol. 

É nosso papel como educadores da saúde ressaltar que apenas 18% da superfície corporal, área equivalente a braços e pernas, exposta à luz solar por pelo menos 15 minutos diariamente já é suficiente para garantir a síntese adequada de vitamina D3 (*pode haver variação de acordo com a latitude, estação do ano, cor da pele, utilização de filtro solar e influência cultural, religiosa e da dieta). E que a exposição contínua à luz solar também acarreta fotodegradação da pré vitamina D3, assim há uma proteção contra a superprodução, de forma que a exposição excessiva ao sol não causa toxicidade sistêmica induzida pela vitamina D.

Assim, além de todo o planejamento alimentar e acompanhamento de exames laboratoriais é muito importante incentivarmos a exposição solar em um pequeno momento do dia.

Referências

MARQUES, Natália; SERPA, Fernanda; TEIXEIRA, Michelle. Nutrição Clínica Funcional: da fertilidade à gestação. São Paulo: Valéria Paschoal Editora Ltda., 2018. P. 163 – 167;234-235.

SOUZA, José Rogério de Jesus Linhares de; SILVA, Tatyana Santana de Azevedo  e  FIGUEREDO, Eduardo Durans. Hipovitaminose D na gestação: um problema de saúde pública?. Rev. Bras. Saude Mater. Infant. [online]. 2019, vol.19, n.1, pp.197-205. ISSN 1519-3829.  http://dx.doi.org/10.1590/1806-93042019000100011.