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Obesidade infantil, qual deve ser o foco?

Na última quinta-feira (03/06) foi o Dia da Conscientização Contra a Obesidade Mórbida Infantil. Quando falamos sobre obesidade é essencial ressaltar que é uma condição de saúde crônica e de etiologia multifatorial, pois a mesma comumente é estigmatizada. Já trouxemos um blog falando sobre isso, leia aqui

Na obesidade infantil o estigma não está fora de pauta. O tratamento deve ser realizado com acompanhamento psicoterápico, apoio parental e consideração dos riscos de desenvolvimento de transtornos alimentares. 

Qual deve ser o foco terapêutico na infância? Prevenção. Uma revisão sistemática das guidelines para obesidade infantil em países desenvolvidos avaliou as estratégias vigentes no contexto educacional e de cuidado infantil. Confira a tradução e adaptação do artigo! 

Introdução

A estimativa é que em 2025 a obesidade e sobrepeso infantil impacte mais de 70 milhões de crianças. Estratégias que promovam mudanças alimentares e a prática de atividade física são consideradas chaves para a saúde pública, mas para que ocorram é indispensável que a atenção seja voltada para os fatores ambientais, econômicos, políticos e socioculturais.

Métodos

As recomendações e guidelines selecionadas foram apenas dos países participantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), além de artigos científicos com publicação nacional entre 1999 a 2020.

Resultados e Discussão

Entre os resultados encontrados, 38 documentos foram selecionados dos países a seguir citados: Estados Unidos, Austrália, Inglaterra, Nova Zelândia, Canadá e Irlanda. Todas incluíam recomendações quanto ao consumo alimentar, prática de atividade física, qualidade do sono e tempo de exposição às telas.

Recomendações dietéticas

  • Oferta de refeições alinhadas com as orientações nutricionais vigentes;
  • Atendimento ao porcionamento e composição das refeições;
  • Atenção e importância para as práticas educativas alimentares;
  • Limite para o consumo de bebidas açucaradas, alimentos calóricos e ultraprocessados; 

Também orientaram, em menor frequência:

  • não usar comida como punição, recompensa ou suborno; 
  • promover um ambiente adequado e sem distrações;
  • envolver a criança no preparo e escolha dos alimentos. 

No entanto, nem todas abordaram a importância desses últimos três fatores no momento das refeições e poucas reforçaram a importância da participação parental.

Conclusão 

Uma revisão das recomendações em países desenvolvidos, os quais promovem educação e cuidado infantil de alta qualidade, propicia base para ajustes em práticas preventivas vigentes e pode influenciar o desenvolvimento de futuras guidelines em outros países.

Para acesso ao artigo na íntegra acesse esse link 🙂

Boa leitura, até mais!

Nota do autor: apenas seis dos vinte países incluídos na OECD possuíam guidelines voltadas para a prevenção da obesidade infantil. O desenvolvimento econômico e acesso à serviços de qualidade são essenciais, mas será que apenas o nível de desenvolvimento de um país é determinante para priorizar a saúde da população?

Atualidades

Dia Mundial da Obesidade

Ontem, dia 04/03, foi o Dia Mundial da Obesidade

A data surgiu com o objetivo de conceder maior atenção para essa condição multifatorial de saúde que só no Brasil atinge 19,8% da população (1). Muito progresso tem sido alcançado nos últimos anos, mas a verdade é que essa condição ainda é recente para a humanidade e estudada há menos de 100 anos. Além disso, é mal compreendida por muitos, afetando o próprio desenvolvimento e tratamento da obesidade.

É notoriamente conhecido que o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados e do sedentarismo podem aumentar o risco para obesidade. No entanto, seria apenas isso? Todos que se alimentam dessa forma, ou não praticam exercícios físicos, desenvolvem obesidade? Por que muitos tratamentos focam apenas nesses aspectos? 

Em 2020, duas publicações na Nature Medicine e The Lancet  refutaram essa visão simplista sobre a obesidade e trouxeram temas essenciais a serem reconhecidos e discutidos. Destacamos cinco pontos, entre tantos significativos:

  • Obesidade não é uma condição existente por preguiça, falta de força de vontade, ou causada voluntariamente por comer em excesso e não se exercitar; assim como não é reversível apenas ao “comer menos e se exercitar mais”. (2,3); 
  • O atual diagnóstico para obesidade, apenas baseado no IMC, precisa ser reconsiderado, sendo necessário que mais sinais e sintomas sejam avaliados, como comorbidades associadas e redução da qualidade de vida (2); 
  • Reconhecer que nem todos os caminhos que levam à perda de peso corporal sempre funcionam, para todos, é muito importante; a própria manutenção do peso já pode ser considerada um resultado positivo durante o tratamento (3);
  • Profissionais de saúde passam menos tempo atendendo indivíduos com obesidade e muitos pacientes declaram sofrer preconceitos em ambientes médicos ou de cuidado à saúde (2); 
  • É importante se atentar para a linguagem utilizada, sem generalizações ou termos com conotações negativas. Assim como o ambiente em que o paciente é acolhido, cadeiras com apoios laterais limitam o acesso físico e equipamentos com capacidade superior a 150kg devem estar disponíveis (3);

Além dessas publicações, o Canadá lançou um novo guideline, também abordando essas questões. O mesmo traz pontos interessantíssimos, como o papel da saúde mental, a redução de estigma do peso e como intervenções comportamentais podem impactar no manejo da obesidade. Para acessar todos os capítulos clique aqui

A obesidade deve ser discutida de forma multidisciplinar e a conduta de tratamento reconsiderada, não sendo tão somente focada no peso corporal. Mais do que nunca sabemos que aspectos genéticos, biológicos, psicológicos, ambientais, sociais, comportamentais, culturais e econômicos devem ser considerados na conduta terapêutica, pois exercem importantíssimo impacto na saúde. 

Para mais, é necessário falar sobre gordofobia e todo estigma acerca do peso corporal, muitas vezes existente entre os próprios profissionais de saúde. Diversos movimentos precisam ser reconhecidos, pois somente aqueles que vivem com obesidade sabem e sentem como isso os afeta. Sendo a escuta uma premissa fundamental do cuidado, mais atenção ao paciente de forma integral deveria ser concedida (4). 

Com o objetivo de promover menos estigma, mais consciência e acolhimento à temática, o Instituto Obesidade Brasil irá realizar um evento online e gratuito amanhã, dia 06/03. É muito importante se manter atualizado, principalmente sendo nutricionistas, pois somos muito buscados para auxiliar no manejo da obesidade. Para se inscrever e participar é só acessar esse link

Até mais!

REFERÊNCIAS

  1. BRASIL. Vigitel Brasil 2018: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Ministério da Saúde, Brasília, 2019.
  2. RUBINO et al. Join international consensus statement for ending stigma of obesity. Nature Medicine, v. 26, p. 485-497, 2020. 
  3. ALBURY et al. The importance of language in engagement between health-care professionals and people living with obesity: a joint consensus statement. Lancet Diabetes Endocrinol, v. 8, p. 447-455, 2020. 
  4. BRASIL. Conselho Federal de Nutricionistas. Nota: um convite à reflexão sobre o movimento contra a gordofobia e o fenômeno da obesidade. Brasília, 2020.