A obesidade é uma condição crônica multifatorial associada a alterações metabólicas, inflamatórias e nutricionais. Nos últimos anos, terapias baseadas em agonistas do receptor de GLP-1 e agonistas duplos têm se consolidado como estratégias eficazes para o manejo do peso corporal, promovendo perda ponderal significativa.
Essa evolução no tratamento é muito importante, pois exerce grande impacto na saúde pública. No entanto, apesar dos benefícios clínicos, essas terapias exercem mudanças no estado nutricional que precisam ser consideradas com atenção, como o risco de deficiências de micronutrientes.
Do ponto de vista fisiopatológico, a obesidade pode cursar com inadequações nutricionais, mas o tratamento com GLP-1 potencializa esse cenário ao reduzir o apetite, aumentar a saciedade e retardar o esvaziamento gástrico, promovendo redução significativa da ingestão energética diária.
Estima-se que com a medicação há redução da ingestão calórica em até 20–30%, impactando diretamente a ingestão de micronutrientes. Além disso, eventos adversos gastrointestinais, como náuseas e vômitos, relatados em até 20–40% dos pacientes, podem comprometer ainda mais o consumo alimentar.
Metodologia
O artigo em questão é uma revisão que sintetizou evidências publicadas entre 2010 e 2026 sobre o impacto das terapias incretínicas no estado nutricional de indivíduos com obesidade. Foram incluídos ensaios clínicos, estudos observacionais e análises de farmacovigilância que avaliaram ingestão alimentar, marcadores bioquímicos e desfechos clínicos relacionados a deficiências de micronutrientes em pacientes em uso de agonistas de GLP-1.
Resultados e Discussão
Dados de farmacovigilância e estudos observacionais mostram que até 22,4% dos pacientes apresentam diagnósticos relacionados a deficiências nutricionais cerca de 12 meses após o tratamento. Entre as alterações mais frequentes estão deficiências vitamínicas, anemia por deficiência de ferro e distúrbios hidroeletrolíticos.
Estudos de ingestão alimentar demonstram inadequação frequente no consumo de cálcio, ferro, magnésio e potássio, além de vitaminas A, D, E e K. Em alguns estudos, a ingestão proteica diária ficou abaixo das recomendações em mais de 30% dos pacientes, enquanto a ingestão de fibras permaneceu inferior ao recomendado ao longo do tratamento.

Além da ingestão reduzida, alterações fisiológicas podem contribuir para esse cenário. Evidências indicam redução significativa na absorção de ferro após o uso de semaglutida, com impacto em marcadores como ferritina e hemoglobina.
Eventos adversos gastrointestinais persistentes também contribuem para menor ingestão alimentar. Em casos mais graves, foram descritas complicações como deficiência de tiamina, evidenciando que o impacto pode ultrapassar alterações subclínicas e alcançar relevância clínica.
Limitações
Há predominância de estudos observacionais, heterogeneidade metodológica e ausência de padronização na avaliação de micronutrientes. Além disso, muitos estudos não consideram o estado nutricional basal, além da escassez de ensaios clínicos randomizados com foco em desfechos nutricionais.
Conclusão
As terapias com GLP-1 representam um avanço no tratamento da obesidade, promovendo uma perda de peso consistente e clinicamente significativa. No entanto, o tratamento está associado a um risco aumentado de inadequações e deficiências nutricionais. A incorporação de monitoramento nutricional sistemático e estratégias dietéticas individualizadas é essencial para garantir a segurança e a efetividade do tratamento a longo prazo.
Confira o artigo na íntegra: https://www.mdpi.com/2072-6643/18/4/677
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